Marcus André Melo: A bandeira anticorrupção

A corrupção é entendida equivocadamente no debate público como uma área temática como outra qualquer, saúde, segurança pública ou educação. Assume-se que sua importância como bandeira eleitoral estaria sujeita às vicissitudes do eleitorado e capacidade de mobilização em torno do tema. Mas há algo permanente em relação à corrupção: trata-se de um tema mobilizado pela oposição, contra o incumbente.

Como mostrou Shefter, em trabalho clássico, no próprio processo histórico de formação dos partidos, a bandeira contra a corrupção e a patronagem se converteu no mecanismo crucial dos grupos que estavam “fora” do aparelho de estado no momento em que os partidos foram criados. Os grupos que estavam “dentro” mobilizaram o eleitorado e forjaram lealdades com a oferta de bens privados, como cargos públicos e contratos governamentais. Quem está fora do estado mobiliza o eleitorado com base em bens públicos, de apelo universalista.

Em princípio, quem não tem a caneta para contratar e nomear não pode ser acusado de corrupção. Há, porém, uma dimensão temporal que não pode ser esquecida: a alternância de poder nubla esta dinâmica; quanto mais tempo um incumbente passa no cargo, maiores os incentivos para a mobilização do tema da corrupção. Partidos ou grupos recém alçados ao poder ainda podem mobilizar o eleitorado contra governos que perderam a eleição, mas os retornos diminuem rapidamente. É certo que grandes escândalos de corrupção onde sua exposição assume proporções ciclópicas obviamente têm resiliência e não evanescem da memória coletiva.

A corrupção se tornou uma das clivagens fundamentais da disputa eleitoral em 2018 e foi elemento vertebrador da polarização e rejeição ao PT no pleito. Mas o tema não se confunde com polarização política: é uma dimensão ortogonal à ideologia.

O presidente perdeu celeremente a bandeira do combate à corrupção, mas quem a mobilizará? Moro deixou o governo levando consigo importante o eleitorado que apoiava a Lava Jato; Bolsonaro abraçou a velha política aliando-se com o Centrão no combate à Lava Jato, no que contou com o apoio sinistro dos antigos adversários; e enfrenta escândalo no clã presidencial, que foi o deflagrador dos eventos críticos anteriores.

Denúncia federal de corrupção nos níveis subnacionais não tem mais credibilidade. Denúncias contra a corrupção federal por atores que a protagonizaram recentemente, idem. Apenas um outsider poderá brandir aquela bandeira novamente. Mas provavelmente a centralidade do tema terá arrefecido pelo senso de urgência da crise. Mas, sim, poderá ter um efeito multiplicador sobre a crise econômica e social que poderá se instalar. (Folha de S. Paulo – 21/03/2021)

Marcus André Melo, professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

Leia também

Genivaldo Matias da Silva, um herói anônimo da democracia

Por Luiz Carlos Azedo Soube, por intermédio de amigos, do...

Edital de Convocaçao do Cidadania do Epirito Santo

Nos termos dos Estatutos Partidário, da Resolução nº 001/2025...

Cidadania Acre convoca para Congresso Estadual

O Cidadania 23 do Acre realizará, na terça, 9...

Juventude do Cidadania no Rio de Janeiro define sua nova liderança estadual

O Congresso Estadual do Cidadania, realizado neste sábado (29)...

Renovação marca o Congresso Municipal do Cidadania em Itajaí

O Cidadania de Itajaí realizou seu Congresso Municipal para...

Informativo

Receba as notícias do Cidadania no seu celular!