Por Renata Bueno, ex-parlamentar italiana, advogada internacional e empreendedora
Como brasileira de origem e ex-parlamentar italiana, acompanho de perto as dinâmicas do comércio internacional, em especial no setor agropecuário, verdadeiro motor econômico do Brasil e de grande parte da América Latina. Minha atuação no Parlamento Italiano, representando a comunidade sul-americana, permitiu-me compreender as complexidades das negociações entre grandes blocos econômicos, como a União Europeia (UE) e o Mercosul.
Hoje, na condição de advogada especializada em direito internacional, observo o agronegócio regional em um momento decisivo: ao mesmo tempo em que mantém uma trajetória sólida de expansão, enfrenta a necessidade urgente de adaptação a novas regras, cotas e exigências regulatórias impostas por acordos comerciais e por mercados estratégicos, como a União Europeia e a China. Este artigo analisa esse cenário, destacando oportunidades, riscos e caminhos possíveis para um crescimento sustentável.
Expansão contínua na América Latina
O agronegócio brasileiro e latino-americano tem demonstrado notável resiliência nas últimas décadas. Inovações tecnológicas, vastas áreas agricultáveis e a crescente demanda global por commodities, como: soja, carne bovina, açúcar e etanol, sustentam o protagonismo da região no comércio internacional.
Em 2025, o Brasil alcançou um recorde histórico de exportações agropecuárias, superando US$ 169 bilhões, com a China consolidada como principal destino. Esse desempenho não é isolado. Países como Argentina, Paraguai e Uruguai, integrantes do Mercosul, também registram crescimento consistente, impulsionado por investimentos estrangeiros, modernização logística e ganhos de produtividade.
Apesar de desafios relevantes, como as mudanças climáticas, a volatilidade dos preços internacionais e os custos de produção, as projeções indicam continuidade do crescimento. A América Latina responde por parcela expressiva da produção mundial de alimentos e, diante do aumento da população global, a demanda tende a se intensificar. Ainda assim, essa expansão não pode mais ocorrer de forma irrestrita. Mercados maduros e altamente regulados, como a União Europeia e a China, vêm impondo barreiras normativas cada vez mais rigorosas, obrigando o setor a evoluir.
O acordo União Europeia-Mercosul
Após mais de 25 anos de negociações, o acordo de associação entre a União Europeia e o Mercosul avançou de forma decisiva em janeiro de 2026, com a aprovação, pelo Conselho Europeu, da assinatura do pacto abrangente de parceria e comércio. Trata-se de um dos maiores acordos de livre comércio do mundo, prevendo a eliminação de tarifas em mais de 90% das linhas tarifárias.
Para o agronegócio latino-americano, o acordo representa a ampliação do acesso ao mercado europeu, com potencial de crescimento expressivo das exportações ao longo das próximas décadas. Estimativas indicam que o intercâmbio comercial poderá aumentar em bilhões de euros até 2040.
Entretanto, o pacto também estabelece limites claros. Produtos considerados sensíveis pela UE, como: carne bovina, aves, açúcar e etanol, estarão sujeitos a cotas específicas. No caso da carne bovina, por exemplo, a cota adicional prevista é de 99 mil toneladas métricas. Uma vez ultrapassados esses volumes, as tarifas atuais voltam a ser aplicadas. A União Europeia liberalizará cerca de 82% das importações agrícolas provenientes do Mercosul, enquanto o bloco sul-americano eliminará tarifas sobre aproximadamente 93% das exportações europeias.
Essas salvaguardas refletem a forte pressão política exercida por agricultores europeus, que têm promovido manifestações em cidades como Paris, Bruxelas e Varsóvia, temendo a concorrência de produtos latino-americanos.
Para se manter competitivo nesse novo contexto, o agronegócio da região precisará investir fortemente em conformidade regulatória. Exigências relacionadas à sustentabilidade, ao combate ao desmatamento, ao uso de defensivos agrícolas e ao bem-estar animal tornam-se centrais. Regulamentos como o European Union Deforestation Regulation (EUDR) impõem sistemas rigorosos de rastreabilidade e certificação. Embora isso represente aumento de custos, também abre espaço para a valorização de produtos sustentáveis e de maior valor agregado no mercado europeu.
Crescimento com limites e a necessidade de diversificação
A China segue sendo o principal destino das exportações agropecuárias da América Latina e um pilar fundamental da expansão do setor. Nos últimos anos, os investimentos chineses na região alcançaram cifras bilionárias, concentrando-se na aquisição de ativos estratégicos, infraestrutura logística e acordos bilaterais de fornecimento.
O Brasil, por exemplo, exportou mais de US$ 60 bilhões em produtos agrícolas para a China em 2023, representando mais da metade de seu comércio total com o país asiático. Contudo, esse relacionamento também vem sendo marcado por medidas protecionistas crescentes.
Recentemente, Pequim impôs cotas de importação para a carne bovina, limitando o Brasil a pouco mais de 1,1 milhão de toneladas em 2026, com a aplicação de uma tarifa adicional elevada sobre volumes excedentes. A medida, que afeta igualmente exportadores como Austrália e Estados Unidos, busca proteger os produtores domésticos chineses e pode gerar perdas bilionárias para o setor brasileiro.
Diante desse cenário, torna-se indispensável uma estratégia de diversificação. Ampliar mercados, investir no processamento local para agregar valor aos produtos e atender às exigências chinesas de qualidade e rastreabilidade são passos essenciais para reduzir a dependência excessiva de um único parceiro comercial.
Adaptação como chave para o sucesso sustentável
O agronegócio brasileiro e latino-americano reúne condições únicas para manter uma trajetória de expansão e liderança global no abastecimento de alimentos. Sua competitividade, aliada à capacidade de inovação, é inegável. Contudo, os acordos comerciais e as novas políticas regulatórias internacionais impõem um novo paradigma: crescer com responsabilidade, previsibilidade e sustentabilidade.
Como ex-parlamentar, defendo que governos e setor produtivo atuem de forma coordenada, investindo em diplomacia econômica, tecnologia, sustentabilidade e segurança jurídica. A adaptação não deve ser vista apenas como um custo, mas como uma oportunidade estratégica para consolidar a imagem da região como fornecedora confiável, moderna e alinhada às exigências do século XXI.
O futuro do agronegócio latino-americano é promissor, mas ele exigirá decisões rápidas, planejamento de longo prazo e compromisso efetivo com padrões internacionais. Somente assim a região poderá preservar e ampliar sua posição de liderança no cenário global.
