Fernando Gabeira: Pra ficar tudo joia rara

Primeiro, seria necessário apreender as joias que Bolsonaro levou com ele, porque entraram no país ilegalmente

O que fazer com as joias de R$ 16,5 milhões que Bolsonaro recebeu? Creio que haverá uma discussão sobre isto: guardar no acervo presidencial, leiloar como contrabando? Se conseguirmos responder à pergunta inicial, creio que tenho uma sugestão. A pergunta inicial é esta: foi mesmo um presente da Arábia Saudita?

Na primeira entrevista, meio trôpega, que deu ao SBT sobre o tema, Bolsonaro disse que era um presente dos Emirados Árabes. Pode ser que confunda os dois países, como se costuma fazer com Brasil e Argentina. A confusão de Bolsonaro pode ter contribuído para lançar suspeitas sobre o fundo Mubadala, que já comprou o Porto do Açu, metrô e uma estrada no Brasil e, recentemente, uma refinaria no Recôncavo Baiano.

Mas o segundo pacote de joias, que entrou clandestinamente, foi declarado como presente de Abdulaziz bin Salman, ministro de Energia da Árabia Saudita. Portanto é preciso fazer uma sequência de perguntas ao embaixador saudita no Brasil: vocês costumam dar presente de € 3 milhões a estadistas? Em caso positivo, pode lembrar alguns? Os presentes são dados por um ministro, e não pelo chefe de governo? Por que não são encaminhados via diplomatas? Por que não contêm um simples cartão congratulatório?

Caso essas perguntas sejam respondidas satisfatoriamente, com transparência, se as joias foram mesmo dadas pela Arábia Saudita nessas circunstâncias informais e inadequadas, minha proposta é devolvê-las numa solenidade. Em primeiro lugar, seria necessário apreender as joias que Bolsonaro levou com ele, porque entraram no país ilegalmente. Em segundo lugar, anexá-las ao patrimônio e submeter ao Congresso o ato de devolução.

O fato de um ex-presidente da República ter se envolvido num escândalo dessa natureza deveria ficar colado apenas à sua biografia. O Brasil como país não precisa sofrer nenhum respingo. No ato de devolução, deveríamos dizer aos sauditas que a troca de presentes é absolutamente normal entre países e que continuaremos a fazer isso, mas dentro das regras estabelecidas e por via diplomática, a escolhida para a devolução das joias.

É uma forma também de nos livrarmos do constrangimento de ver a estrutura do governo, com militares à frente, tentando dar carteiradas na alfândega para liberar um lote de joias claramente destinado a enriquecer o patrimônio pessoal. Seria também uma mensagem para o mundo, mostrando que o Brasil tem regras claras para troca de presentes, como aliás têm outros países democráticos, e que esse episódio foi uma exceção.

Uma decisão desse tipo não exclui, evidentemente, o desfecho das investigações e a eventual punição dos culpados. O que ela demanda é uma escolha política e uma delicada ação diplomática. É preciso cuidado para não ofender os sauditas; mas, se for verdade a história do ex-ministro Bento Albuquerque, o procedimento de doação de presentes precisa mudar.

Um presente de R$ 16,5 milhões é muito caro. Mas, no fundo, é algo insignificante se levarmos em conta o valor da imagem do Brasil. Valeria a pena pagar muito mais por não ter passado esta vergonha, pois, afinal, Bolsonaro era o presidente, e os militares que atuaram nessa trama, inclusive o ex-ministro, pertencem a nossas Forças Armadas.

Espero que alguém, um deputado, senador, ou mesmo diplomata, considere a sugestão e a leve adiante. A solenidade cordial de devolução das joias será um exorcismo, realmente a única maneira nessa história de ficar tudo joia rara.

No momento, tudo o que posso fazer é pressão para que os sauditas sejam ouvidos, para que reconheçam ou não suas digitais nesse estojo de joias. E sonhar com um tipo de saída que nos permita lembrar o episódio até com um certo humor. Lembra-se daquelas joias, do cavalo de pernas quebradas? (O Globo – 13/03/2023)

Fernando Gabeira, jornalista e escritor

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