Fernando Gabeira: Quimicamente insustentável

Em sintonia com a ciência, estamos focados no aquecimento global. Mas o planeta está sendo atacado em outros flancos. É bom saber, para efeito de sobrevivência. Um estudo realizado pelo Centro de Resiliência de Estocolmo concluiu que a poluição química passou dos limites. A produção aumentou 50 vezes nos últimos 50 anos e deve aumentar na mesma quantidade até 2050.

Tive notícia desse estudo no blog Mar sem Fim, de João Lara Mesquita. Mas ele foi publicado também na revista Environmental Science & Technology.

O que significa passar dos limites? O espaço operacional foi ultrapassado, superando a capacidade global de avaliação e monitoramento dos resíduos químicos.

Essa é uma história longa. O jornal inglês The Guardian falou sobre o perigo que os pesticidas produzem ao atingir insetos não alvos e desequilibrar o ambiente. Lá atrás, houve um livro seminal chamado “A primavera silenciosa”. Sua autora, Rachel Carson, abordou o tema do excesso de defensivos, no caso o DDT, por um ângulo extraordinário: a desaparição dos pássaros.

O próprio governo americano, em 1959, encontrou níveis perigosos do herbicida aminotriazole nos mirtilos. Surgiu até uma canção, “Cranberry Blues”, que dizia: “Se quer ter certeza de que não vai ficar doente, não toque num oxicoco nem com uma vara de três metros”.

Os tempos são outros: piores agora. Aqui no Brasil, em Alter do Chão, no Pará, as águas azuis do lugar foram transformadas por uma espessa camada marrom. Era resultado do desmatamento, mas também do garimpo que usa mercúrio em grande quantidade.

O mercúrio é um produto que faz mal à saúde indiscutivelmente. Mas há outros muito mais difíceis de serem detectados.

Trabalhei em dois casos, nos quais senti essa dificuldade. Um deles foi na zona rural de Petrópolis. Dezesseis recém-nascidos morreram num curto espaço de tempo. Investiguei o lugar e constatei que havia uma plantação de tomates e muitas caixas vazias de agrotóxico. Os tomates estavam numa elevação, e provavelmente a chuva levou agrotóxico para o riacho onde as famílias lavavam as mamadeiras.

Outra experiência foi em Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul. Havia muita depressão e suicídio entre os plantadores de fumo. Eles trabalhavam com produtos químicos organofosforados. Houve um relatório de um grupo interdisciplinar denunciando o fato, e passei uns dias na região.

Tanto em Petrópolis quanto em Venâncio Aires, sem a pesquisa mais profunda, inclusive com análise dos corpos, foi difícil avançar com as suspeitas.

Os efeitos de produtos químicos são cumulativos. Não acontecem no imediato. Pesquisas com golfinhos, por exemplo, já mostram que, apesar de habitarem o mar alto, já estão contaminados.

Importante conversar sobre isso no Brasil. O governo Bolsonaro bate recordes na aprovação de agrotóxicos. Em 2019, aprovou 474; em 2020, 493; no final de 2021, já eram 1.558. O país tornou-se um líder global no setor, com um total 3.618 agrotóxicos, alguns proibidos na Europa.

A pesquisa sueca tem muito a ver com nossa realidade, pois aqui se usam entre 12 e 16 quilos de agrotóxicos por hectare, segundo o atlas organizado pela professora Larissa Bombardi: “Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil”.

O resultado disso é que, em grande parte de comunidades pesquisadas, encontram-se 27 tipos de toxinas na água. Se há um território exemplar de onde a poluição química saiu do controle, este país é o Brasil.

Dentro dos limites, será importante recuperar o controle. Nada contra o agronegócio. Em primeiro lugar, trata-se de um tema essencial para a saúde das pessoas, embora no momento nosso foco seja a pandemia e seus efeitos.

Mas um trabalho de revisão da política ultraliberal de Bolsonaro interessa estrategicamente ao agronegócio. Para ocupar de forma permanente um lugar de destaque no planeta, terá de se adequar às preocupações dos próprios consumidores.

No momento, o foco é o aquecimento global, mas a poluição química corre por fora. (O Globo – 31/01/2022)

Fernando Gabeira, jornalista

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