Maria Cristina Fernandes: Uma guerra sem vacina

Nem o imperativo moral freia disputa de poder na pandemia

A demora de o dinheiro chegar à ponta mais frágil da pandemia revela uma intricada disputa de poder que nem mesmo o imperativo moral imposto pela tragédia social é capaz de relativizar. Três frentes desta disputa ganharam holofotes esta semana.

A primeira é aquela que passa pela ajuda para que Estados e municípios possam fazer frente aos gastos da pandemia em meio a uma queda generalizada de arrecadação. Depois de assistir ao projeto passar com folga na Câmara, o governo federal investe no Senado para mudar os critérios da distribuição.

Os deputados acolheram a perda de arrecadação como o crivo a guiar a alocação de recursos. O Ministério da Economia pressiona para que os critérios sejam os mesmos já adotados no Fundo de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios (FPM). Na Câmara, o presidente da Casa, Rodrigo Maia, fez valer o argumento de que este critério não se adequa a um momento que tem na perda de arrecadação o principal imperativo das finanças públicas.

Por trás dessa tecnicalidade, está a pressão do governo para evitar que os governadores cuja defesa do isolamento social mais reverbera, João Doria (SP) e Wilson Witzel (RJ), e que também são os mais afetados pela perda de arrecadação, acabem sendo ‘recompensados’ pela extensão da quarentena, posição que colide frontalmente com aquela defendida pelo presidente Jair Bolsonaro.

O governo conta com a existência, no Senado, de uma bancada de oposição aos atuais governadores para mudar os critérios. Ainda que custe a se provar eficaz, a pressão revela a convergência entre o ministro Paulo Guedes e o presidente.

O primeiro tenta conter o gasto adicional advindo de uma compensação de perdas de receita. E Bolsonaro se vale da obsessão fiscal do seu ministro para tentar passar uma risca de giz na atuação dos governadores que mais o confrontam nesta crise numa disputa que tem 2022 como pano de fundo.

A segunda frente de batalha se trava entre os projetos para tirar a economia do atoleiro. Com base no estudo elaborado pelo Centro de Estudos Estratégicos do Exército, ministros como o da Infraestrutura e do Desenvolvimento Social, Tarcísio Freitas e Rogério Marinho, buscam apoio dos ministros palacianos para projetos que dependeriam diretamente de recursos orçamentários. Quem já teve acesso aos projetos do Ministério da Infraestrutura garante que, com R$ 5 bilhões, a Pasta seria capaz de gerar 1 milhão de empregos reativando obras em todo o país.

Ainda que a emenda constitucional que instituiu o Orçamento de guerra libere das amarras fiscais os gastos da pandemia, o ministro Paulo Guedes resiste a acatá-los. Prefere focar em iniciativas como aquela que busca incentivar bancos privados a aderir a um plano de resgate de empresas com novos empréstimos e títulos. Numa demonstração de que resiste a abandonar a velha cartilha, o ministro insiste em uma solução de mercado, ainda que não haja evidências de que os bancos privados estejam dispostos a aderir aos seus planos.

Na outra ponta, os ministros se valem do estudo militar, que foi tirado de circulação, para buscar um alinhamento com o comitê gerido pelo ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, ex-chefe do Estado-Maior do Exército. O texto, que menciona duas vezes a necessidade de um novo Plano Marshall, cita a manutenção, “ou até ampliação”, da capacidade logística do país como uma saída aventada para a paradeira geral na economia.

E, finalmente, o terceiro ‘front’ une os partidários da reativação da economia via investimento público aos capitães do sistema judicial. Ecos desta batalha apareceram esta semana com a publicidade do ofício encaminhado pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, aos ministros da República recomendando que estes lhe deem ciência das notificações recebidas do Ministério Público Federal.Gerou aguerrida reação dos procuradores da República, mas extrapola a disputa de prerrogativas dos procuradores frente ao PGR. A lei prevê que o procurador-geral da República tome conhecimento das notificações que cheguem ao presidente e ao vice, ministros de Estado, de tribunais superiores e parlamentares.

Depois de Geraldo Brindeiro (1995 a 2003), porém, os procuradores-gerais não mais se valeram da prerrogativa. Seja por respeitarem a autonomia dos procuradores, na visão de quem a defende, seja por se omitirem ante poderes descontrolados do MP, segundo seus críticos.

A atitude de Aras reforça a percepção de que o atual PGR retoma a linhagem Brindeiro porque tem agido, até aqui, para barrar todos os questionamentos feitos a Bolsonaro, da campanha #brasilnaopodeparar à ofensiva do presidente contra as quarentenas estaduais.

Ainda que a prerrogativa de Aras esteja prevista em lei, os procuradores se queixam de que o PGR, contumaz defensor da “unidade” do MP, confrontou-a ao se dirigir às autoridades passíveis de notificação sem prévio entendimento com os procuradores. Acusam ainda o PGR de não se ater às notificações do primeiro escalão mas se estender a todos os órgãos executivos dos ministérios.

A diligência de Aras pode ser várias explicações. A proximidade da substituição do ministro Celso de Mello, vaga que disputa palmo a palmo com o advogado-geral da União, André Mendonça, é uma delas. A substituição iminente de Mandetta é outra. Ao centralizar a ação do MP, Aras evita que um nome alinhado com a temerária percepção de Bolsonaro sobre a pandemia seja alvo de questionamento da instituição.

E, finalmente, a atitude do PGR pode estar alinhada à visão daqueles que querem se valer de uma retomada ágil de obras, encomendas e serviços para fazer andar a economia pós-pandemia sem os crivos habitualmente estabelecidos pelas instituições de controle. E aqui também Aras mostra-se afinado não apenas com o presidente do Supremo, Dias Toffoli, como com o presidente da República contra quem a Constituição lhe deu a atribuição de representar.

Representantes do bolsonarismo raiz têm municiado procuradores federais e estaduais sobre ações de governadores em busca de irregularidades que possam vir a desmoralizá-los frente à queda de braço com o presidente. Como os chefes dos executivos estaduais não estão entre as autoridades cujas notificações pelo MP lhe devem ser previamente comunicadas, o PGR lava as mãos. Não apenas cumpre a higiene da pandemia, mas franqueia a temporada de caça aos governadores. (Valor Econômico – 16/04/2020)

Leia também

Projeto de Isabela Souza visa garantir mais proteção à população LGBTQIAPN+

Matéria foi aprovada pela Câmara Municipal de Salvador Salvador poderá...

Em Curitiba, Cidadania filia futuros candidatos a deputado

Dirigentes estaduais, municipais e autoridades do Paraná participaram de...

Arnaldo Jardim defende aprovação do PL da Reciprocidade

Deputado do Cidadania foi escolhido relator da matéria, que...

Informativo

Receba as notícias do Cidadania no seu celular!