O caráter ditatorial do regime de Nicolás Maduro sempre foi condenado pelos democratas brasileiros e, em especial, por nós da esquerda democrática, sem ambiguidades ou relativizações. A luta do povo venezuelano por liberdade e dignidade nunca encontrou complacência entre aqueles que defendem a democracia como valor universal.
A derrubada da ditadura venezuelana, porém, não se consumou. A operação que resultou no sequestro e prisão de Maduro por forças militares norte americanas, a mando do presidente Donald Trump, ocorreu ao arrepio do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas. Mais grave ainda, nada do que foi feito aponta para um compromisso real com a transição democrática.
A confirmação de Delcy Rodríguez no comando do país, com o apoio explícito dos generais do regime e sob elogios públicos de Trump antes mesmo da posse, evidencia a preservação da mesma estrutura autoritária. O que se anuncia não é o fim da ditadura, mas sua continuidade sob nova tutela externa, como muitos já têm apontado.O elemento central dessa operação não é a liberdade do povo venezuelano. E não se limita ao controle do petróleo, ainda que esse seja um fator relevante. Trata se de algo mais profundo e mais perigoso: a adoção explícita, por parte do governo Trump, de uma política externa que retoma a lógica das zonas de influência no hemisfério ocidental.
Entrou em vigor uma nova doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos que podemos chamar de Trump Monroe, retoma o princípio histórico segundo o qual a América Latina deve permanecer sob influência direta dos Estados Unidos. Não se trata mais apenas de retórica, mas de uma prática concreta que busca afastar governos considerados alinhados à China e à Rússia, substituindo os por regimes politicamente submissos a Washington, ainda que autoritários.
A retórica de Trump, ao afirmar que os Estados Unidos vão governar a Venezuela até uma suposta transição segura, revela com nitidez essa lógica. O que está em curso não é uma política de promoção da democracia, mas a consolidação de uma esfera de influência. A Venezuela torna se peça de um tabuleiro geopolítico maior, em que soberania e autodeterminação passam a ser tratadas como obstáculos.
Nesse contexto, o objetivo central não é instalar um governo legitimado pelo voto popular, mas reposicionar o país na órbita norte americana. Trump demonstra preferir os restos de uma ditadura funcional aos seus interesses a um governo democrático autônomo, capaz de decidir seus próprios rumos.
A fala grosseira e desqualificadora de Trump dirigida à principal liderança da oposição democrática venezuelana, María Corina Machado, reforça esse diagnóstico. Ao descartar a oposição e sinalizar tolerância com a permanência do núcleo duro do chavismo no poder, Trump deixa claro que os interesses em jogo são alheios à liberdade dos venezuelanos.
A aplicação do Trump Monroe tem consequências que extrapolam a Venezuela. Ao rasgar o Direito Internacional e normalizar a política das esferas de influência, os Estados Unidos abrem precedentes perigosos. O mesmo argumento pode ser invocado por outras potências em seus respectivos entornos, legitimando intervenções e aventuras autoritárias.
Urge, portanto, que lideranças de países democráticos pressionem pela abertura de uma transição política real na Venezuela. Isso exige uma iniciativa multilateral no âmbito da Organização dos Estados Americanos, com a presença efetiva das lideranças da oposição venezuelana e compromisso inequívoco com eleições livres, soberania e autodeterminação dos povos.
A ditadura de Maduro não legitima a dominação externa. A invasão da Venezuela constitui, ela própria, uma atitude igualmente ditatorial, ainda que disfarçada de tutela institucional. Longe de abrir caminho para a democracia, essa intervenção perpetua um regime de opressão, uma ditadura de comando externo.
