André Amado: Uma visão criativa da Segunda Guerra Mundial

Por sugestão de Luiz Carlos Azedo, um jornalista com coceiras de historiador – ou vice-versa –, violei a ordem de meus livros de cabeceira e abri espaço para Cinco dias em Londres. Maio de 1940, de John Lukacs. Bela e instrutiva leitura. Trata-se de uma história da Segunda Guerra a partir de um microcosmos de cinco dias – de 24 a 28 de maio – durante os quais o exército alemão encurrala as forças britânicas e francesas em Flandres, na Bélgica; o que resta das tropas aliadas busca refúgio em Dunquerque, na França, sem perspectiva de resgate pela marinha britânica; a Itália de Mussolini declara a alian&cce dil;a com Hitler, e a França está por reconhecer a derrota para a Alemanha, deixando a Grã-Bretanha sozinha na oposição ao nazismo.

A avalanche de más notícias que se precipitavam sobre Londres não contribuía para superar a atitude no mínimo dúbia da população britânica em relação a Hitler. Mesmo diante da possibilidade de eventual invasão da ilha, nem todos se opunham à emergência da Alemanha nazista. Uns alegavam que o Tratado de Versailles (1919) lhe tinha sido claramente desfavorável. Outros, da elite conservadora, consideravam um armistício com Berlim como um mal menor, em comparação a um ataque devastador da máquina de guerra nazista. Outros, ainda, simpatizavam com os governos de perfil autoritário que vinham despontando na Europa, como uma esp&eacu te;cie de barreira ao possível avanço do comunismo.

Correntes de pensamento conservador e reacionário também exerciam forte influência dentro e fora do país, dificultando posturas frontais a Hitler. Churchill seria em poucos meses após o início da guerra um líder inconteste, mas, naqueles idos de maio de 1940, sua liderança ainda gerava desconfiança. Joseph Kennedy, embaixador dos Estados Unidos em Londres, por exemplo, detestava Churchill, não acreditava que o Reino Unido pudesse resistir à investida alemã, e era anti-semita. Seus relatórios a Roosevelt não ajudaram o presidente a superar as resistências que ele mesmo nutria ao Primeiro-Ministro britânico.

Chamberlain, cujo pai declarara, em 1890, que o mundo devesse ser governado pelas nações teutônicas, Reino Unido, América e Alemanha, compartia do anti-semitismo de Kennedy e da dúvida quanto à capacidade de enfrentamento britânico à Alemanha hitlerista. Lord Halifax era militante ativo no Gabinete de Guerra contra as posições de Churchill, que qualificava de extremadas. Tinha de haver uma alternativa à hipótese de guerra com a Alemanha, como, por exemplo, um acordo de paz tendo como contrapartida a garantia de Berlim à autonomia do Império britânico.

Churchill de fato não admitia hipótese alguma de flexibilização a possíveis propostas de paz com os alemães. Já lhe chegara aos ouvidos, por exemplo, que Roosevelt começava a acalentar a ideia de que, em caso de invasão da Ilha pelos alemães, o Reino Unido deveria deslocar sua Armada para o Canadá e a família real para as Bermudas. Para Churchill, somente a vitória incondicional lhe servia.

Lukacs se supera fazendo-se apoiar em referências a livros, diários, anotações de conversas sigilosas, minutas de reuniões do Gabinete de Guerra, telegramas mais do que reservados entre as chancelarias e seus embaixadores, enfim todo o arsenal de informações de fontes primárias e, na maioria dos casos, inéditas. O rigor e a amplitude das pesquisas assim conduzidas conferem autoridade e confiabilidade às análises e conclusões de Lukacs, dentre as quais destco duas.

A primeira é o pragmatismo e a visão de conjunto do Primeiro-Ministro britânico. O Reino Unido sozinho não conseguiria derrotar a Alemanha de Hitler. Isto é, o apoio militar e logístico dos Estados Unidos (depois da invasão da União Soviética pelas tropas nazistas, Churchill também se aproximaria de Stalin) seria fundamental para assegurar a soberania do Reino Unidos e da Europa, dimensão ausente do radar estratégico de Chamberlain e Halifax (a quem o PM se referia, a portas fechadas, como Holly Fox, raposa santa). Daí porque Churchill tanto resistiu às gestões de Halifax em favor da proposta que os france ses pretendiam interessar Mussolini a submeter a Hitler de um acordo de paz, quaisquer que fossem seus termos. Lukacs considera essa posição de Churchill, que terminou se tornando a opinião majoritária do Conselho de Guerra, como um ponto de inflexão que assegurou ao Reino Unido, senão vencer a guerra, pelo menos não a perder por antecipação.

A segunda reflexão interessante diz respeito à gênese dos conflitos no sés. XX. Segundo Lukacs, os conflitos não opuseram Direita à Esquerda; opuseram duas Direitas. A esquerda carecia de força na Europa. O comunismo não atraía as massas, fora da União Soviética. Na Alemanha, a opção socialista e comunista a Hitler se derreteu sob o sol dos êxitos do Nacional Socialismo. No Reino Unido, o confronto foi entre Churchill e seu seguidores, de um lado, e Chamberlain e seus seguidores, de outro. Na França, entre De Gaulle e Pétain. Na Itália e Espanha, entre fascistas e defensores da realeza. Nos Estados Unidos, os desafios mais populares e desafiadores a Franklin Roosevelt foram da Direita, não da Esquerda.

Em uma palavra, a rutura foi sempre entre reacionários e conservadores. E Lukacs conclui: a maior ameaça à civilização ocidental não foi o comunismo, foi o Nacional Socialismo. (Revista Política Democrática)

*André Amado é escritor, pesquisador, embaixador aposentado e diretor da revista Política Democrática On-line. É autor de diversos livros, entre eles, A História de Detetives e a Ficção de Luiz Alfredo Garcia-Roza.

** Artigo produzido para publicação na Revista Política Democrática Online de janeiro/2022 (39ª edição), produzida e editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP).
https://www.fundacaoastrojildo.org.br/andre-amado-uma-visao-criativa-da-segunda-guerra-mundial/

*** As ideias e opiniões expressas nos artigos publicados na Revista Política Democrática Online são de exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo, necessariamente, as opiniões da Revista.

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