Bolívar defende reforma política contra fragmentação partidária e armadilha da renda média

Sociólogo não vê saída para crise com Bolsonaro ou com Lula, cuja tendência populista pode afugentar investimentos, e pede maior participação das classes médias nos rumos do país

Filiado ao Cidadania, o sociólogo Bolívar Lamounier cobrou, em participação no programa do jornalista William Waack, na CNN, neste fim de semana, que setores das classes médias e organizações da sociedade civil se engajem politicamente e dêem sustentação aos partidos e às instituições a fim de tirar o Brasil do “buraco”. Lamounier avaliou como imprescindível uma ampla reforma política para responder à estagnação econômica.

“O envolvimento de pessoas que têm recursos. Não estou falando do pobre que pega o metrô 5 horas da manhã, que isso é demagogia. Eu estou falando de pessoas na classe média que poderiam se envolver, se informar, participar mais e, então, dar ao sistema político esse respaldo que eu acho que ele não tem mais, se desidratou”, apontou. “Uma parcela maior da sociedade tem que ter uma consciência mais nítida do tamanho do buraco em que nós estamos”, acrescentou.

Na opinião do intelectual, o Brasil está preso ao que os economistas chamam de “armadilha da renda média”, uma situação na qual um país não consegue elevar o nível de riqueza da sua população. “O Brasil hoje tem uma renda anual per capita de cerca de US$ 11 mil a US$ 12 mil. Para dobrar isso e chegamos ao nível da Grécia ou de Portugal, crescendo 2% em média ao ano, o que nós não estamos conseguindo, vamos levar 35 anos. Mais de uma geração. Esse é o tamanho do buraco”, comparou.

Segundo ele, ou se faz uma reforma profunda da estrutura política brasileira ou não haverá saída, dado o grau de fragmentação da representação em inúmeros partidos. Ele disse ver as instituições como Congresso e Judiciário “se saindo mais ou menos bem”, sob o ponto de vista formal, mas ponderou que para serem “idealmente respeitadas”, elas precisam de “uma elite capaz de dar um exemplo, capaz de balizar o processo, de impedir disparates”.

“Não temos isso no Brasil hoje, já tivemos no passado. O presidente da República pode falar qualquer coisa, a hora que quiser, que a sociedade não é capaz, a imprensa não é capaz de mantê-lo dentro de um trilho. Dadas as condições, as instituições estão se saindo mais ou menos bem, mas elas não têm o substrato social na classe média que sustenta as instituições em qualquer democracia que se preze”, observou.

Sobre o cenário eleitoral, Bolívar disse, no entanto, trabalhar com a perspectiva de desidratação do nome de Bolsonaro, que, na avaliação dele, pode nem mesmo se candidatar à reeleição, no que vê “uma benção para o país”. A respeito de uma eventual vitória de Lula, ele ponderou que a rejeição, segundo as pesquisas, tem o mesmo nível de aprovação ao nome do petista.

Mas Lula, pontuou, não seria a melhor alternativa para superar a armadilha da renda média, uma vez que pode ceder a um populismo que também afugente investimentos.

“Lula infelizmente é uma espécie de Frankenstein, Mr Jack e Dr Hyde. Por um lado, ele é um pacificador, sabe que esse papel é muito importante para o país. Por outro, tem certa vontade também de dar rédea solta ao seu instinto populista. Para quem está querendo se candidatar a pacificador, vai de cara falando em censura à imprensa? Quer dizer, isso afugenta investimentos. Em afugentando investimentos, nós ficamos no mesmo lugar”, lamentou.

Veja a íntegra do debate com Bolívar e os professores José Alvaro Moisés, da Universidade de São Paulo, e Oscar Vilhena, da Fundação Geútlio Vargas:

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