Cristovam Buarque: Vacinas estruturais

Foram necessárias 300 mil mortes para perceberem a necessidade de vacinar todos os brasileiros contra o coronavírus. Mas depois de dois séculos de independência, 130 anos de República, ainda não percebemos a necessidade de outras vacinas para construir uma nação eficiente, justa e sustentável. Ainda não se descobriu a necessidade de vacinar o Brasil contra suas doenças sociais e econômicas.

Vacinas estruturais que permitam superarmos a tragédia da pobreza que atinge quase metade da nossa população, parte dela em miséria extrema, sem água encanada, esgoto tratado, lixo recolhido, sem emprego ou salário, sem habitação nem atendimento médico de qualidade, até mesmo sem comida suficiente. Uma vacina estrutural contra o abandono secular de milhões de brasileiros, grande parte crianças, sobrevivendo em condições abaixo do mínimo necessário para uma vida digna. Vacina também contra a vergonha da concentração de renda, que nos faz um dos cinco países com a maior desigualdade entre todos os outros duzentos. Sem essas vacinas, não podemos nos considerar uma República, nem mesmo uma nação.

Precisamos de vacina contra a corrupção, tanto a explícita, no roubo do dinheiro público, quanto as disfarçadas nos desperdícios, mordomias, privilégios; e também as disfarçadas na brutal corrupção das prioridades, embutidas a cada ano nos orçamentos do setor público. Precisamos vacinar nossa economia contra a baixa produtividade, baixa poupança, incapacidade de inovação e de competitividade. Para isso, é necessária a vacina do Fator Confiança, que vem da estabilidade monetária, da responsabilidade fiscal, da permanência das regras jurídicas. Também vacina contra a degradação ambiental, o assassinato dos rios e a devastação das florestas. A covid-19 asfixia cada brasileiro individualmente, a degradação ambiental asfixia a base natural do país, o desperdício de recursos fiscais asfixia a economia, e a desmoralização da política asfixia a democracia. Precisamos vacinar o Brasil contra as asfixias ecológica, fiscal e moral.

Precisamos nos vacinar contra o obscurantismo e o negacionismo dos que refutam a ciência e dos que desprezam a importância da aritmética; os que não querem ver a realidade e preferem acreditar que a natureza e seus recursos são ilimitados. Vacina contra os populistas que sabem os limites desses recursos, mas enganam o povo com o propósito de ganhar eleições. Também precisamos de vacina estrutural contra a desenfreada violência que caracteriza nossas ruas, jogando a população no medo e forçando a sociedade ao armamentismo que não trará paz, nem mesmo segurança. Sobretudo, o Brasil precisa da vacina contra o terrível vírus da falta de educação, que asfixia o pensamento, a inteligência, a mente do país e causa doenças sociais e econômicas. A falta de qualidade educacional provoca o atraso econômico; a desigualdade escolar provoca a injustiça e as doenças sociais. A mãe de todas as vacinas consiste na implantação de estratégia que instale um Sistema Nacional de Educação de Base com Qualidade para toda criança brasileira: o governo federal adotar os sistemas municipais de educação de base no ritmo compatível com a disponibilidade de recursos fiscais e humanos, e com adesão voluntária dos municípios.

Provavelmente pelo impacto imediato à vida, as 300 mil mortes despertaram para a necessidade da vacina contra a covid-19, mas os impactos das doenças estruturais são minimizados, porque se prolongam ao longo de séculos, concentrados no presente dos pobres e ameaçando o futuro do país. As vacinas estruturais não foram tomadas porque suas doenças não são perceptíveis pelas elites, especialmente políticas. Os impactos da covid são visíveis, mas a pobreza, a ineficiência, a injustiça e os seus efeitos são sentidos apenas por uma parte da população, e a insustentabilidade só afetará gerações futuras, que ainda não votam. A dor e a asfixia da deseducação não são sentidas nem mesmo por aqueles que mais sofrem seus efeitos, sem perceberem que ela é a causa de grande parte dos sofrimentos de que padecem. O Brasil já sabe o que perdeu por adiar a compra de vacinas biológicas por alguns meses, e precisa entender o quanto perdemos por adiar as vacinas estruturais há séculos.

Bendita descoberta da necessidade de vacina contra a covid-19. Esperemos que o Brasil desperte para a necessidade de vacinas estruturais, sem as quais voltaremos ao país de antes da epidemia: menos assustador, mas igualmente ineficiente, injusto, insustentável, inseguro. (Correio Braziliense – 06/04/2021)

Cristovam Buarque, professor emérito da UnB (Universidade de Brasília)

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