Míriam Leitão: A pior gestão da crise sanitária

O comportamento do presidente Bolsonaro durante esta pandemia não foi apenas execrável, foi criminoso. Ele deveria estar hoje respondendo a um processo de impeachment. Brasileiros morreram por causa da sua atitude e de suas decisões. Ele é o chefe do governo e dá o comando. Uma sucessão de erros tem origem em ordem direta do presidente. O Ministério da Saúde demorou a negociar a compra de vacinas e perdeu várias oportunidades de negócio, o Itamaraty deixou de fazer acordos e criou crises bizarras com países como a China.

O ministro Pazuello em mais uma de suas desastrosas entrevistas, mostrou ontem que não sabe qual é o inimigo. “Essa é a nossa guerra”, disse, e não se referia ao vírus, mas sim à imprensa. “A guerra contra as pessoas que estão manipulando o nosso país há muitos anos”. Depois, declarou guerra aos fatos. Negou ter feito o que fez, e falado o que falou, numa tempestade de mentiras desconcertante. Disse que nunca indicou cloroquina, nunca falou em tratamento precoce. Há documentos divulgados por sua gestão, há declarações públicas que desmentem o ministro. Com o governador ao lado, garantiu que atendeu sim ao Amazonas, mas as mortes por asfixia de amazonenses falam por si. Por que mente o ministro Pazuello? Porque o presidente mente.

Ontem Bolsonaro disse “apesar da vacina…” Era “apesar” mesmo que ele queria dizer. Ele torceu contra. Ele comemorou quando um voluntário dos testes clínicos morreu, em novembro. “Morte, invalidez, anomalia. É a vacina que o Dória queria obrigar os paulistanos. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”. A morte foi por suicídio. O presidente usava a tragédia para mentir mais uma vez sobre a vacina que ele sempre viu como uma queda de braço com João Dória.

Se o governador de São Paulo não tivesse dado a ordem firme ao Butantan de que importasse a vacina mesmo antes da aprovação da Anvisa e mesmo diante de todos os ataques do presidente, o Brasil não teria vivido o dia de ontem. Nem teria vivido o domingo, o dia de Mônica Calazans, a enfermeira paulista. O governo federal perdeu várias chances de se abastecer de vacina. Em negociações internacionais, o Brasil pediu menos que precisava ou se atrasou nas conversas. Com erros assim, estamos atrás até de países vizinhos.

A Fiocruz acertou por não se deixar contaminar pelas mensagens truncadas do governo. Terá a capacidade de produzir aqui a vacina, mas neste momento aguarda o lote de dois milhões de doses prontas que está retido na índia. Depois, dependerá do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), que virá da China e que, neste momento, está pendente da burocracia do Escritório de Vacinas da China, um órgão chinês que coordena todas as ações para exportação de imunizantes.

Os canais diplomáticos poderiam fazer tudo isso andar mais rápido, mas eles estão obstruídos. O presidente, o filho do presidente e o Itamaraty fizeram, em várias ocasiões, críticas gratuitas à China. Bolsonaro chegou a dizer que não compraria a vacina da China “porque ela não transmite segurança para a população pela sua origem”. Em novembro, depois de mais um ataque de Eduardo Bolsonaro à China, o ministro Ernesto Araújo, em vez de apaziguar, criticou o embaixador por ele ter reagido à agressão. Agora é da China que necessitamos para receber o IFA da vacina da AstraZeneca.

Ao longo desta pandemia, houve por parte de Bolsonaro palavras sórdidas e omissões. Essas omissões mataram. O ministro da Saúde errou e os erros custam vidas. Quantas? O Brasil tem 10% das mortes por Covid-19 e 2,7% da população global. Estamos desperdiçando vidas aos milhares.

Ontem, Bolsonaro mais uma vez ameaçou o país com ditadura —“se as Forças Armadas quiserem”. Quer provocar uma nova polêmica e desviar a atenção do ponto central: ele deveria estar respondendo a um processo de impeachment. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmou que “no futuro” esse tema deve entrar em pauta, mas agora a questão é a pandemia. “Com tantas vidas perdidas, como o caso dramático de Manaus, acho que esse tem que ser o nosso foco”. O erro de Maia é não fazer a correta relação de causa e efeito. O colapso de Manaus não é uma fatalidade. Poderia não ter acontecido se o governo fosse outro. Deixar o presidente no comando está provocando mais mortes. Esse é o foco. (Com Alvaro Gribel, de São Paulo/O Globo – 19/01/2021)

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