Editorial O Globo: Invasão e morte no Capitólio traduzem risco à democracia

Não era novidade que Donald Trump não saberia perder. Mas o que se viu ontem em Washington, com uma morte em meio à confusão e à pancadaria no Capitólio — sede do Legislativo e símbolo da democracia americana —, superou as previsões mais mirabolantes feitas depois da derrota dele para o democrata Joe Biden em novembro. Foi praticamente uma tentativa de golpe de Estado na democracia mais longeva do planeta. Até o momento, felizmente frustrada,

A invasão do Capitólio por manifestantes trumpistas, enquanto o presidente derrotado lançava palavras de ordem e incitava uma massa de apoiadores num comício lá perto, marca o nível mais baixo a que o sistema democrático desceu no país desde pelo menos a disputa de 1876 entre o republicano Rutherford Hayes e o democrata Samuel Tilden.

Aquela eleição foi decidida por apenas um voto no Colégio Eleitoral, depois do compromisso que deu a vitória a Hayes e encerrou o período da Reconstrução que sucedeu a Guerra Civil no Sul do país. O resultado, até hoje objeto de controvérsia, deu origem à emenda constitucional que rege o convoluto processo eleitoral americano e às regras para a contagem dos votos do Colégio Eleitoral.

Com base nelas, a vitória de Biden é incontestável. Os votos dos delegados eleitos em 3 de novembro foram confirmados por todos os 50 estados. Fracassaram mais de 60 tentativas de rever o resultado das urnas na Justiça, inspiradas nas fantasias de fraudes infladas por Trump. A Suprema Corte nem quis examinar a questão.

Mas Trump ainda tinha uma última carta na manga. Acreditava ser capaz de cancelar os votos de estados em que fora derrotado na hora em que fossem oficialmente contados, na sessão conjunta do Congresso marcada para ontem. Para isso, contava com a cumplicidade de senadores republicanos, que contestariam a legitimidade dos delegados de tais estados, e do vice-presidente Mike Pence, que deveria desprezar tais votos ao proceder à contagem.

Pence se recusou a participar da farsa e, quando a primeira lista de votos contestados — do Arizona — era examinada pelos congressistas, a massa de trumpistas rompeu o cerco policial e invadiu o Capitólio. A polícia legislativa se viu obrigada a retirar Pence do recinto. A sessão que sacramentaria a vitória de Biden foi suspensa.

Ao mesmo tempo, a apuração do segundo turno de duas disputas na Geórgia consolidou a conquista de mais duas cadeiras e o comando democrata no Senado. Os republicanos saem das últimas disputas eleitorais sem a Presidência e sem maioria em nenhuma das Casas do Legislativo.

Eis o preço que o partido de Abraham Lincoln paga por ter investido num líder narcisista, autoritário, sem apreço pela verdade nem escrúpulos para manter o poder. Para o país, o preço é ainda maior. Democracias mais frágeis que a americana a esta altura já teriam ruído. Trump demonstra que mesmo as mais sólidas não estão protegidas. (O Globo – 07/01/2021)

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