Cristovam Buarque: “Eu não sou brasileiro”

Ao assistir pela televisão a homem negro sendo espancado até a morte, imaginei-o gritando: “Eu não sou brasileiro?”. Foi o grito de um negro perguntando “eu não sou um ser humano?” que despertou o movimento contra a escravidão, na Inglaterra, no século 19.

Se ele era um ser humano, como puderam arrancá-lo de sua família e sua vila na África, forçando-o a caminhar por centenas de quilômetros, jogando-o em navio fétido por meses no mar do Atlântico, vendendo-o como animal e obrigando-o ao trabalho forçado por toda sua vida, assim como a seus filhos e netos? Milhões de pessoas negras viveram e morreram nessas condições, sob a aceitação dos brancos.

Aquela pergunta ajudou a despertar os ingleses para a indecência da escravidão, a incentivar a luta abolicionista e a provocar a emancipação dos escravos em 1834, em todas as colônias inglesas. No Brasil, a pergunta não foi ouvida. Esperamos ainda meio século, para sermos o último país do Ocidente a abolir a legalidade da escravidão.

A Lei Áurea proibiu, em 1888, a venda e compra de pessoas, impedindo que negros fossem propriedade de brancos. Mas quando, em 2020, olhamos as estatísticas de assassinatos, pobreza, violência, renda, desemprego, moradia, saúde, educação, um brasileiro negro tem razão em perguntar “eu não sou brasileiro?”. Igualmente se justifica a pergunta de milhões de crianças pobres, brancas ou negras: “Se sou brasileira, como podem me negar escola com a mesma qualidade da escola de outras crianças brasileiras?”.

A escravidão se faz sob a forma do cativeiro ou se negando educação. A primeira escraviza o corpo, a outra, o intelecto. De qualquer forma, é escravidão, porque o ser humano tem corpo e mente: a liberdade exige o fim da escravidão do corpo e o acesso da mente à educação.

A Lei Áurea proibiu a comercialização de vidas negras, mas manteve as algemas do analfabetismo e da baixa educação que ainda aprisionam devido à falta de conhecimento e, consequentemente, desemprego, forçando trabalhos em condições desumanas com salários insuficientes, impedindo a liberdade plena para todos os pobres, cuja imensa maioria é descendente dos escravos.

Impede, também, o Brasil de se beneficiar do trabalho com alta produtividade graças à educação da mão de obra. Por isso, cada adulto pode se perguntar: “Se eu também sou brasileiro, por que me negaram uma educação de qualidade no passado, e, no presente, fazem o mesmo com meus filhos? Por que 132 anos depois da Abolição, Escolas-Casa-Grande para uns, e Escola-Senzala para nós?”

“Eu não sou brasileiro?” pode ser perguntado por todos os 12 milhões que não sabem ler o lema na bandeira do Brasil e por dezenas de milhões que sabem ler palavras, mas não conseguem entender plenamente um livro com a história do país; e pelos milhões sem coleta de esgoto em suas casas, sem comida para seus filhos.

Ao ver a fartura nos bairros ricos, o pobre brasileiro tem razão em perguntar “eu não sou brasileiro?”, tanto quanto os negros da África do Sul se perguntavam “eu não sou sul-africano?”, ou os judeus durante o holocausto indagavam “eu não sou ser humano?”.

Na ótica da escravidão, do apartheid e do nazismo, nem todos eram considerados seres humanos. Na hipocrisia da nossa democracia, dizemos que todos os brasileiros têm o mesmo direito, mas as crianças que ficam em Escolas-Senzalas, que aprisionam o futuro delas, têm direito à pergunta de todos que sofrem holocaustos — na escravidão, no apartheid, no nazismo, ou no holocausto educacional que incinera cérebros no Brasil, dizendo que são cérebros de brasileiros.

Essas perguntas se justificam do ponto de vista moral, por alguns, mas, também, do ponto de vista patriótico, por todos nós. Porque negar escola de qualidade é deixar milhões de cérebros para trás, sem desenvolver o potencial de cada um deles. É imoral, como última trincheira da escravidão, e é uma estupidez por ser um muro contra o progresso nacional.

Educação é um direito de cada brasileiro e, também, o vetor para o progresso de todos os brasileiros. “Eu não sou brasileiro?” é um grito tão importante moralmente quanto “vidas negras importam” e tão relevante politicamente quanto “independência ou morte”, “viva a República”, “queremos democracia”. Ela pode despertar a consciência, tanto do ponto de vista moral do direito de cada criança quanto do ponto de vista político do interesse nacional, do conjunto de todos os brasileiros. Pena que ainda não descobrimos a força dessa pergunta, feita por um escravo na Inglaterra, 200 anos atrás. (Correio Braziliense – 02/12/2020)

Cristovam Buarque, professor emérito da Universidade de Brasília

Postagens Recomendadas

Nenhum comentário ainda, mostre que você tem voz!


Adicione um comentário