Bernardo Mello Franco: Caminho livre para o ministro tubaína

As suspeitas de plágio acadêmico não devem abalar a caminhada de Kassio Nunes rumo ao Supremo. O desembargador que copiava está a um passo de garantir a cadeira na Corte. Deverá ocupá-la por quase 27 anos, até maio de 2047.

Ontem o senador Eduardo Braga apresentou seu relatório à Comissão de Constituição e Justiça. O líder do MDB descreveu Kassio como um “exemplo de garra e perseverança”. Para ele, os indícios de fraude no mestrado e no doutorado não desabonam a reputação do escolhido. “Mirar abstratamente o curriculum do indicado significa retirar a dimensão humana dos conhecimentos que ele adquiriu”, filosofou.

A Constituição afirma que os aspirantes a ministro devem ter “notório saber jurídico”. Pelo relatório de Braga, Kassio não precisa se preocupar. A exigência, segundo ele, não estaria ligada a “títulos e diplomas”. Bastaria carregar “sementes de conhecimento, que germinam em terreno fértil de humildade intelectual e devoção a causas justas”.

Para reforçar seus argumentos, o senador recorreu a Ruy Barbosa. “Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas principalmente nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos”, pontificou. Morto há 97 anos, o jurista baiano não pôde opinar sobre a citação.

Braga foi ministro de Dilma Rousseff, mas virou bolsonarista desde criancinha. Na semana passada, ele convidou o capitão a se filiar ao MDB. Seria uma mera formalidade. A legenda já mergulhou de cabeça no governo, com as bênçãos do ex-presidente Michel Temer e do senador Renan Calheiros.

Nos últimos dias, Kassio mostrou que também poderia aderir ao partido. Como um bom emedebista, ele sabe dizer o que o interlocutor quer ouvir. Em jantares e conversas ao pé do ouvido, o desembargador se solidarizou com senadores na mira da Justiça. Ganhou apoios em todo o espectro político, do DEM ao PT.

Com o aval da oposição, a sabatina da próxima quarta-feira tende a ser indolor. O caminho está livre para o ministro tubaína. (O Globo – 15/10/2020)

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