Luiz Carlos Mendonça de Barros: A destruição criativa no pós-pandemia

Volto à linha do tempo proposta por mim para acompanhar a crise econômica. Nos últimos 60 dias, os principais eventos que ocorreram no combate à pandemia e na atividade econômica consolidaram as minhas expectativas sobre o futuro próximo: uma grande recessão neste ano, seguida de uma recuperação no final de 2020 e em 2021. A consolidação da volta do crescimento cíclico nas principais economias de mercado somente se dará em 2022. Com exceção da China é claro!

Ganhei, na semana passada, importante referência para este cenário quando a OCDE formalizou a sua linha do tempo para a economia nos seus países membros em 2021. Em seguida o Fed, em sua reunião periódica, reforçou o quadro traçado pela OCDE para a economia dos Estados Unidos.

Diz o relatório da OCDE que “a economia global sofrerá a maior contração em tempos de paz em um século”. Para seus técnicos, a economia global se reduzirá em 6% este ano e se recuperará parcialmente em 2021 com crescimento de 5,2%. Nos EUA, a OCDE espera que a economia tenha contração de 7,3% este ano, e alta de 4,1% no próximo e, para a zona do euro, queda de 9,1% do PIB em 2020 e recuperação de 6,1% em 2021.

Para a China, o organismo prevê uma contração de 2,6% este ano, seguida de uma expansão de 6,8% em 2021. Será a única das grandes economias do mundo a ter, neste período de dois anos, um saldo positivo médio de crescimento econômico. No Brasil os números esperados são um crescimento negativo de 7,4% em 2020 e um crescimento de 4,2% em 2021.

Mais recentemente, com a divulgação de novos indicadores econômicos o pessimismo exagerado embutido nos números da OCDE – e sancionados pelos analistas de mercado – começou a ser relativizado. Nos países que avançaram no controle da pandemia e iniciaram a redução do isolamento social, como a Europa, o comportamento do consumidor surpreendeu. As medidas tomadas para preservar o emprego e a renda do trabalhador, através de programas de apoio às empresas, foram eficientes e evitaram o apagão esperado na renda do consumidor. Por isto a redução das vendas ao varejo foi muito menor do que a estimada pelos analistas como mostra o gráfico.

O mesmo aconteceu nos Estados Unidos, onde um outro fenômeno surpreendeu a todos; a retração do consumo criou uma bolha de poupança junto à parte mais rica da sociedade – até porque os preços das ações negociadas em Wall Street retornaram aos valores de antes da covid-19 – que chegou a 35% da renda disponível, criando um estoque de poder de compra para o futuro. Vejam os efeitos desta acumulação de renda no mercado imobiliário americano que praticamente já voltou aos níveis de atividade antes da crise (gráfico do índice NAHB).

Mas a estabilização da atividade econômica nos próximos meses esconde uma desigualdade muito grande entre os vários setores da economia. O mais atingido – como sempre acontece nas economias de mercado após uma crise da proporção da que estamos vivendo – foi o universo dos pequenos negócios, a maioria deles de caráter informal.

Neste sentido a pesquisa realizada pelo IBGE – entidade sempre antenada na sociedade brasileira – sobre os efeitos da pandemia sobre as pequenas e médias empresas brasileiras é “Paramount”. Mas a realidade fotografada no Brasil é uma réplica ampliada do que está acontecendo em outras sociedades, mesmo nas que têm uma distribuição de renda mais equitativa do que a nossa.

Dado o caráter único da crise atual, a verdadeira carnificina que ocorreu no setor empresarial de pequeno porte também afetou grandes empresas em setores mais atingidos pelo prolongado afastamento social. Companhias de transporte aéreo – e sua cadeia de atividade – empresas ligadas à indústria do turismo e outras vão sofrer um baque financeiro de grande proporção também. E a falência de empresas ocorrerá em escala mundial prejudicando ainda mais e recuperação econômica.

Este processo de destruição, de tempos em tempos, de parte do tecido produtivo é uma das marcas do chamado capitalismo. Quem inicialmente identificou este fenômeno foi o sociólogo alemão Max Weber, mas devemos ao economista americano de ascendência austríaca Joseph Schumpeter o aprofundamento desta questão. Em seu livro de 1942, “Capitalismo, Socialismo e Democracia”, definiu o termo “destruição criativa” como um impulso fundamental para o motor do desenvolvimento econômico no mundo capitalista via inovações tecnológicas e de gestão das empresas.

Certamente a dinâmica identificada por Schumpeter acontecerá agora, mas em uma escala talvez nunca vista na história recente do capitalismo. A aceleração que a pandemia provocará na passagem do mundo analógico das últimas décadas para um outro – virtual e digital – irá inaugurar uma fase extraordinária para o investimento privado.

Uma nova tecnologia das plataformas digitais chamada de 5G representará um verdadeiro choque positivo neste processo. E o Brasil, por ter um mercado consumidor importante e uma plataforma privada e competitiva neste setor, vai se beneficiar muito.

Este tema, que já está presente em algumas análises sobre o mundo pós pandemia, é pouco entendido pelos mercados financeiros. A própria pesquisa feita pela OCDE, e citada acima, incorpora muito pouco deste fenômeno em suas análises meramente quantitativas. (Valor Econômico – 20/07/2020)

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é presidente do Conselho da Foton Brasil. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações

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