Fernando Gabeira: A política da negação

A máscara é uma imposição do coronavírus que ameaça Bolsonaro com a impotência

Há anos que não se fala mais esta frase: Freud explica. No entanto, infelizmente, em 1936, Freud contou numa carta a história que explica a terrível passagem da pandemia de coronavírus pelo Brasil.

De acordo com a lenda, quando o rei Boabdil recebeu a notícia de que a cidade de Alhambra, capital de seu reino, estava para ser dominada pelo inimigo, ele queimou a carta e decapitou os mensageiros.

Freud afirma que, ao queimar a carta e decapitar os mensageiros, o rei Boabdil negou uma realidade desagradável: a queda de sua cidade. Um fator determinante no comportamento do rei era a necessidade de combater um sentimento de impotência. Ao queimar a carta e decapitar os mensageiros, ele tentava mostrar seu poder absoluto.

Quando o coronavírus chegou ao Brasil, Bolsonaro afirmou que iria abalar a economia e arruinar o seu governo. O coronavírus transfigurou-se numa gripezinha.

Numa live com o querido embaixador Marcos Azambuja e Mary Del Priore, a historiadora me lembrou que o termo negacionista em história surgiu quando, depois da Guerra, alguns intelectuais de extrema direita negaram a existência dos campos de concentração e do Holocausto.

Uma das vantagens da quarentena é ficar perto dos livros. Encontrei na estante um livro em que dois intelectuais americanos revisam a história moderna dos EUA usando o conceito da negação.

Michael Milburn e Sheree Conrad, em “Políticas da negação”, revivem episódios como a Tempestade no Deserto e o Massacre de My Lai, em que morreram 400 vietnamitas.

Como estão no campo da psicologia, analisam também o comportamento de figuras-chave na política americana, Ronald Reagan, por exemplo, a partir de sua tendência a negar a realidade.

Não pesquisei os dados da infância de Bolsonaro, como fizeram os americanos com seus políticos. Os biógrafos podem fazer isto no futuro. O singular em Bolsonaro é que ele é muito expressivo e direto, não é tão necessário assim o mergulho na infância.

Ele se apegou à economia porque via na sua crise o declínio do próprio poder. Não era o único caminho. Se aceitasse a realidade do coronavírus e se dispusesse a dar o melhor de sua energia para atenuar seu impacto, estaria hoje em melhor condição.

Jacinda Ardern, na Nova Zelândia, aceitou a realidade e tornou-se a maior líder do pais nos últimos 100 anos.

A negação do coronavírus por Bolsonaro é um dos processos mais corrosivos na história contemporânea. Ele desmontou o Ministério da Saúde, em plena pandemia, e o ocupou com militares.

A Ciência e a Medicina pareciam para ele como mediações débeis e inadequadas, e de fato o são quando se quer substituir a realidade por um desejo. Como o coronavírus não existia como perigo, ele participou de manifestações, saudou as pessoas e circulou sem máscara.

Dizem os relatos que Bolsonaro considerava usar máscara “coisa de viado”. É frequente a associação do poder com a masculinidade. A máscara é uma imposição do coronavírus que o ameaça com a impotência e a castração.

Aqui nem precisa do Freud para explicar. Sua filha Ana Freud trabalhava com o tema e costuma citar o caso de um menino que, na fantasia, tinha um leão que só gostava dele. Ele passeava com o leão entre as pessoas e se divertia com o fato de ficarem assustadas. Não havia razão para isso: afinal, o leão era inofensivo, desde que mantido sob controle.

Era a forma de o menino negar seus impulsos agressivos contra o pai e, mais ainda, se proteger da ansiedade da castração diante de um inimigo tão mais forte. É possível compreender aí como parece estranho para Bolsonaro ter medo do coronavírus. Afinal é, na sua fantasia, apenas uma gripezinha, uma chuva que acaba molhando a todos.

Essa profunda dissociação da realidade nos custou um preço muito alto em vidas humanas e, ao contrário do que pensa Bolsonaro, reduziu nossas chances de recuperação econômica.

A presença de militares no Ministério da Saúde para fortalecer essa fantasia infantil de Bolsonaro equivale ao termo que usamos em política: o Exército bate palmas para maluco dançar.

É um genocídio, como diz Gilmar? Ou não chega a ser um genocídio, como diz a maioria? Em qualquer hipótese, digo eu, não há consolo. (O Globo – 20/07/2020)

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