Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (21/05/2020)

MANCHETES

O Globo

Brasil é o país em que mortes por Covid-19 mais avançam
Saúde muda protocolo e amplia uso de cloroquina
Weintraub adia Enem por no mínio 30 dias
Após 77 dias sem ação, Regina Duarte sai de cena
Fake news levaram BB a retirar anúncio de site
MP impede arquivamento de caso de Flávio
Conversa revela que Witzel teria imposto sigilo a contratos

O Estado de S. Paulo

Governo adia Enem às pressas e embaralha o 2021 de universidades
Pandemia é razão de 20% das novas ações trabalhistas
Regina Duarte é demitida, mas ganha prêmio de consolação
Regra sobre cloroquina sai sem assinatura e com pouco efeito
Guedes quer nova versão de Carteira Verde Amarela
Congresso aprova proibição de despejos
Litoral rejeita turistas no feriadão
Suécia lidera em mortes per capita

Folha de S. Paulo

Pressionado pelo Congresso, governo adia prova do Enem
Queiroz soube de relatório da PF já sob Bolsonaro
PSL vai cobrar de Flávio R$ 500 mil a advogado
Após fritura, Regina Duarte deixa chefia da Cultura
Plano de nova CPMF digital cortaria encargos
Guedes admite prorrogar auxílio, mas com R$ 200
Nomeado para Saúde estava em festa no início de abril
Ministério orienta cloroquina para casos leves e gera críticas
Barroso vota para MP não blindar atos na pandemia
Baixada Santista registra congestionamento no 1º dia de feriado
Coronavírus cresce mais no interior e no litoral de SP
Para empresas, socorro estatal é insuficiente
Exército ignora Ibama e faz vistoria sem punição
Frigoríficos parados nos EUA levam a abate cruel

Valor Econômico

Plano que financia salário fracassa e será modificado
Reprovação a Bolsonaro bate recorde
Cassação da chapa seria o menor atalho
Minas apela ao nióbio
Empresas já planejam retorno
Confusão dificulta compras na China
Troca de valores
Trabalho sem coordenação é marca na AL

EDITORIAIS

O Globo

Radicalismo domina a Saúde e a Cultura

Bolsonaro interfere no combate à Covid-19, e núcleo ideológico deve ganhar bunker na ‘guerra cultural’

Afastar dois médicos do cargo de ministro da Saúde na mais grave epidemia mundial em cem anos, deixando no posto um general do Exército, levado a liberar um protocolo que permite o uso de um medicamento sem eficácia comprovada contra a Covid-19, e ainda capaz de causar sérios efeitos colaterais, confirma que a radicalização do presidente Bolsonaro não tem limites. Nada o sensibiliza, nem o Brasil ter atingido ontem a marca de 291.579 infectados e 18.859 mortos, números trágicos, mais ainda se considerarmos a existência de grande subnotificação.

O escárnio de Bolsonaro diante da tragédia em marcha ficou registrado no vídeo em que o presidente brinca com a palavra “cloroquina”, nome do medicamento que ele insiste em incluir nas prescrições contra a Covid-19, mesmo sem qualquer respaldo médico-científico. Importa é apressar o fim da epidemia, para que os danos causados pelo Sars- CoV-2 na economia sejam abreviados e não prejudiquem seus projetos eleitorais para 2022.

Pode ser coincidência o aprofundamento da intervenção na Saúde, com as demissões de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, ter na sequência a esperada saída de Regina Duarte da Secretaria de Cultura, depois que a atriz não se entendeu com o núcleo mais ideológico do bolsonarismo, nem conseguiu representar no governo o meio artístico, muito atingido pela crise econômica, sem que recebesse da secretária qualquer ajuda. Coincidência ou não, os fatos comprovam que o movimento de radicalização de Bolsonaro atinge o Ministério da Saúde e a Cultura.

O presidente quer o ministério alinhado à sua campanha contra o isolamento social, postura que dificilmente será apoiada por especialistas que tenham carreira a zelar. Tampouco estarão de acordo com a disseminação de um medicamento que vem sendo reprovado no uso contra a Covid-19 em testes amplos, feitos com rigor dentro e fora do país. Entrevistado ontem pela GloboNews, o infectologista Jean Gorinchteyn, do hospital Emílio Ribas, de São Paulo, citou uma pesquisa do British College, em que também se detectaram efeitos colaterais perigosos em rins, fígado e coração. Mas o entorno de Bolsonaro foi contaminado, tudo indica, em contatos com a extrema direita republicana ligada a Trump, pela expectativa de que a cloroquina resolverá as dificuldades políticas do presidente. Trump tenta a reeleição em novembro.

Bolsonaro, na prática, assumiu o Ministério da Saúde. Mantendo o general Eduardo Pazuello, para assinar novos protocolos, ou um médico que aceite esta tutela. Na Cultura, é evidente que a Secretaria na visão bolsonarista tem de ser um bunker na “guerra cultural” e também para esmagar a esquerda onde ela esteja, no meio artístico e cultural. Regina Duarte até fez alguma coreografia, como na patética entrevista à CNN Brasil, mas o chamado núcleo ideológico quer mais. Deseja ações incisivas. Bolsonaro pode ampliar seus esquadrões de radicais.

O Estado de S. Paulo

Políticas doentias

O voluntarismo eleitoreiro de Trump e Bolsonaro são o exemplo mais crasso de ruptura entre a política e a ciência, no momento em que o mundo mais precisa delas

Em meio à pior crise de saúde pública desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi fundada, em 1948, seus membros aprovaram, na sua 73.ª Assembleia-Geral, uma resolução para o acesso equitativo à distribuição das tecnologias e insumos para combater o vírus, além de uma investigação independente sobre o desempenho da própria OMS. “A covid-19”, disse o diretor-geral Tedros Adhanom, “nos lembra de que, apesar de todas as nossas diferenças, somos uma só raça humana, e somos mais fortes juntos.” Mas, apesar das palavras elevadas, a Assembleia serviu mais para lembrar das fraturas que a politização da pandemia está provocando nacional e internacionalmente.

No dia de inauguração da Assembleia, o presidente dos EUA, Donald Trump, revelou que estava tomando hidroxicloroquina preventivamente. No Brasil, dois ministros da Saúde foram rifados em menos de um mês pelo presidente Jair Bolsonaro por se recusarem a recomendar o uso indiscriminado da cloroquina. Agora, o ministro interino, o general Eduardo Pazuello, acaba de aprovar o uso da droga para todos os pacientes desde os primeiros sintomas da doença. Pazuello também nomeou vários assessores – todos militares, ninguém ligado à área da Saúde.

Embora não definitivos, os estudos sobre a cloroquina se mostraram frustrantes. Tudo indica que ela não só não tem efeitos sobre a covid-19, como aumenta os riscos de danos colaterais ao coração, ao fígado, ao rim e à medula. Assim como Trump contraria as orientações das autoridades médicas americanas, Bolsonaro se choca contra os especialistas das associações médicas e do Ministério da Saúde. As sociedades brasileiras de infectologia e de pneumologia, juntamente com a Associação de Medicina Intensiva, assinaram um documento desautorizando o uso da cloroquina como tratamento de rotina. Ontem, a própria OMS alertou para os danos colaterais da droga.

No plano internacional, a Assembleia da OMS começou sob a ameaça de Trump de cortar definitivamente o financiamento americano – atualmente suspenso. Em carta ao diretor-geral, Trump disse que a OMS mostrou “alarmante falta de independência” em relação a Pequim e se recusou a compartilhar “informações críticas” por “razões políticas”. Os EUA também repudiaram uma resolução da OMS apoiando os direitos dos países pobres de ignorar patentes para acessar vacinas e tratamentos para a covid-19.

Com 72 anos, a OMS certamente precisa de reformas. Apenas 15% dos seus recursos são dedicados a prevenir epidemias, e sua conduta na crise está aberta a críticas. As alegações de que ela demorou a declarar a pandemia têm fundamentos, e, enquanto a China omitia informações e intimidava e punia médicos que denunciaram o novo vírus, o diretor-geral elogiava o país por “estabelecer um novo padrão no controle de surtos”. A China tem muito a esclarecer, e membros da comunidade internacional – como União Europeia, Austrália, Reino Unido e Japão – têm se pronunciado vigorosamente nesse sentido. Mas as acusações de Trump de que a OMS é “uma marionete da China” é puro nonsense. Com efeito, enquanto a contribuição da China em 2019 foi de US$ 86 milhões, a dos EUA foi de US$ 893 milhões, e boa parte dos técnicos da Organização é de servidores públicos americanos.

O fato é que a tensão crescente a que Trump está submetendo as relações bilaterais com a China – seja na esfera comercial, tecnológica ou militar – tem claro propósito eleitoral. Mas seu assalto à OMS não só deve enfraquecer a liderança global dos EUA, como acabará abrindo espaço para a narrativa triunfalista da China. Pior: ele ameaça minar e confundir a resposta global à pandemia, justamente no momento em que a coordenação internacional se mostra vital para encontrar tratamentos e vacinas. A OMS pode e deve passar por uma reestruturação, e a investigação aprovada na Assembleia será capital para isso. Mas no momento é a única organização global de saúde de que o mundo dispõe. O voluntarismo eleitoreiro de Trump e Bolsonaro é o exemplo mais crasso de ruptura entre a política e a ciência, precisamente no momento em que o mundo mais precisa delas.

Folha de S. Paulo

Saúde militarizada

Assusta o excesso de fardados na pasta que deveria ser centro contra pandemia

Na terça-feira (19), o Brasil cruzou uma barreira macabra ao contabilizar mais de mil mortos pelo coronavírus num intervalo de 24 horas. Foram 1.179 vítimas do patógeno, segundo o Ministério da Saúde.

O número é certamente maior, dada a notória subnotificação verificada aqui, mais uma entre tantas mazelas locais que a Covid-19 veio apenas sublinhar —e também pelo colapso do sistema funerário do país, que mal consegue registrar os dados básicos de seus mortos (em muitos lugares o laudo omite a cor da vítima, por exemplo).

Tem-se morrido às centenas diariamente de genéricos “problemas respiratórios”, em número várias vezes superior à média histórica brasileira, para ficar apenas numa das rubricas lavradas em atestados de óbitos que devem mascarar novas vítimas da nova doença.

Mesmo considerando somente o número oficial, é aterradora a comparação com as principais causas de morte pré- coronavírus: doenças cardiovasculares, sejam infartos ou AVCs (980 pessoas na média diária de 2018), câncer (624) e causas externas, como acidentes de trânsito e violência (412), segundo as informações mais recentes do DataSUS, do Ministério da Saúde.

As cifras são tristemente eloquentes também no número de contaminados, de 291,6 mil oficialmente contabilizados até esta quarta-feira (20), o que faz o Brasil saltar de sexto para terceiro lugar no ranking mundial, atrás apenas de EUA (1,5 milhão) e Rússia (299 mil). Um de cada sete novos casos no mundo acontece aqui.

Outra marca lamentável foi atingida nesta semana —pelo governo Jair Bolsonaro. Ao empossar um coronel do Exército como seu número dois, o ocupante interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, somou 17 militares nomeados, de qualificação ignorada, apenas nos últimos dias. É o que o humorista José Simão chamou de “Milistério”.

Blagues à parte, vai sendo desmontado aos poucos o quadro técnico organizado pelo ex-ministro Henrique Mandetta, a maioria com experiência na gestão da saúde pública federal, celebrizada em entrevistas coletivas diárias pelo uso dos coletes pretos do SUS.

A militarização começou já na gestão do sucessor de Mandetta, Nelson Teich, o Breve, cujas únicas marcas nos 29 dias de atuação terão sido o semblante sombrio e a tutelagem verde-oliva. Mas esta não se restringe à pasta.

Segundo levantamento mais recente deste jornal, feito no fim de 2019 por meio da Lei de Acesso à Informação, eram 2.500 militares em cargos de chefia ou assessoramento no governo, um recorde desde a redemocratização do país.

O número, possivelmente maior hoje, não inclui o próprio presidente Jair Bolsonaro, um tenente indisciplinado e conspirador que se tornou capitão ao ser obrigado a deixar as fileiras do Exército, seu vice, general Hamilton Mourão, e 9 de seus 22 ministros atuais.

O caso da Saúde é o mais visível. Causa alarme a presença cada vez maior de fardados numa pasta que deveria ser o centro científico e estratégico do combate à pandemia que vitimiza e empobrece uma geração no Brasil e no mundo.

Ao trocar a experiência na coisa pública pela obediência cega e a priorização da logística, Bolsonaro nem sequer disfarça seu objetivo de fazer do ministério um empório de distribuição da cloroquina e da hidroxicloroquina, suas obsessões irracionais.

As drogas — de eficácia ainda não comprovada no combate aos efeitos do coronavírus em sua fase mais branda e com efeitos colaterais importantes — tornaram-se a bandeira do governo e, desde a saída de Mandetta, sua única resposta visível à pandemia.

Nesta quarta, após determinação presidencial, o ministério divulgou documento que amplia a possibilidade de uso dos medicamentos para paciente com sinais e sintomas leves. Até então, o protocolo oficial os recomendava somente para casos graves e com monitoramento em hospitais.

No cálculo bolsonarista, não chancelado por nenhum estudo sério e não adotado por nenhum país do mundo até agora, a disseminação do medicamento levaria a uma diminuição dos casos, o que possibilitaria a implantação de um isolamento seletivo (idosos e grupos de riscos, por exemplo), com retomada das atividades normais pelo resto da população e consequente recuperação econômica.

A preocupação com a reabertura das empresas é legítima, e os governos deveriam de fato estar preparando seus planos de abandono gradual das restrições. Entretanto o presidente apequena a discussão, contaminando-a com o vírus da política inconsequente.

Valor Econômico

Investigação no Rio volta a incomodar Bolsonaro

Presidente terá mais problemas se não parar de esquivar-se dos fatos

O passado não deixa de assombrar Jair Bolsonaro depois que ele assumiu a Presidência da República. Entre o primeiro e segundo turno da eleição presidencial, em outubro de 2018, já havia um cerco policial a um esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio envolvendo funcionários do então deputado estadual Flavio Bolsonaro, hoje senador. Mal empossado, o presidente teve de vir a público, com argumentos inconvincentes, para explicar porque um dos principais investigados, Fabrício Queiroz, seu amigo, havia depositado cheque de R$ 20 mil na conta da primeira dama, Michelle.

Assim, desde bem cedo a roupa da “nova política” e da intolerância com a corrupção de Jair Bolsonaro começou a se esgarçar. O presidente que hoje insiste, não importa a que custo, que os brasileiros voltem ao trabalho diante de uma pandemia letal, empregou pessoas com dinheiro público para não fazer nada, como uma funcionária domiciliar sua em Angra dos Reis, lotada em seu gabinete. As suspeitas que pairam sobre Flavio, o 01 do trio da fuzarca familiar, são iguais, mas diferentes. Flavio empregava parentes de milicianos em seu gabinete e o intocado Fabrício Queiroz, enquanto que a filha de Queiroz estava lotada no gabinete do deputado Jair Bolsonaro. Não trabalhava: sua ocupação autodeclarada era personal trainer.

Bolsonaro sempre foi custeado pelo Estado, durante a carreira militar ou como um inexpressivo e improdutivo deputado do baixo clero. Mais grave do que pagar com dinheiro de impostos desqualificados que não labutavam é a malversação de recursos de que Flavio é acusado. No seu caso, cruzam-se admiração e proteção a milicianos – Adriano da Nóbrega, foi por ele condecorado e visitado na prisão – com suspeitas de rachadinha comandado pelo amigo da família, Fabrício. Além disso, compra e venda de imóveis heterodoxas levantaram suspeitas sobre enriquecimento ilícito de Flavio.

As investigações não pararam, mas encaixaram-se em novo contexto nada benéfico ao presidente, ao fornecer um motivo plausível – o mesmo – para sua obsessão por ter controle sobre o comando da Polícia Federal no Rio, após declarações do empresário Paulo Marinho, em cuja casa alocava-se o QG de campanha de Bolsonaro, à “Folha de S. Paulo”. Ele disse que Flavio soubera, por intermédio de alguém da Polícia Federal, que Queiroz e outras pessoas estavam sob investigação e que uma operação para apanhar o esquema de rachadinha seria deslanchada após o 2º turno.

O advogado de Flavio, Victor Granado Alves, que participou da conversa com o informante da PF, era suspeito de participar desse esquema nas investigações em curso. A “Folha” revelou depois que Flavio solicitou, e foi atendido, o pagamento de R$ 500 mil em honorários a ele, feito pelo diretório nacional do PSL e que uma sócia do escritório de Alves, Mariana Granato, é assessora parlamentar do gabinete do senador.

O depoimento de Paulo é uma enorme rocha na estrada de meias explicações que o presidente emite. Após forçar a demissão de Sergio Moro, trocar o comando da PF e o superintendente do Rio, Bolsonaro teve que explicar o que dissera na reunião ministerial de 22 de abril, um encontro de arromba animado por palavrões, no qual Moro afirmou ter sido ameaçado.

O presidente disse que a palavra PF jamais fora mencionada na reunião. A transcrição mostra que foi. Depois disse que não havia ninguém da família sob investigação pela PF do Rio. Meia verdade: Flavio integrava uma, sobre enriquecimento ilícito na campanha, que foi arquivada. E foi alguém da PF que avisou que outra operação estava chegando bem próximo do filho. Bolsonaro soube de tudo isso enquanto os fatos se desdobravam.

O presidente afirmou ainda que havia reclamado de problemas com a segurança física de sua família na reunião de 22 de abril. Dias depois, a Globo News revelou que nada havia de errado com ela, a julgar pelos atos de Bolsonaro. O diretor do escritório do GSI no Rio, responsável pela segurança, foi promovido, o que também ocorreu com seu substituto, então diretor adjunto. Há um inquérito sobre interferência na PF em andamento e dois outros no STF, sobre fake news e financiamento de manifestações antidemocráticas, que podem envolver Carlos Bolsonaro.

O fato de Bolsonaro ter corrido para buscar apoio de outros investigados por corrupção, alojados no Centrão, é um indicador subsidiário de que o presidente está em maus lençóis. Ele pode ser encurralado pela Justiça se não parar de esquivar-se dos fatos e colocar, acima de tudo e de todos, sua família.

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