Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (28/04/2020)

MANCHETES

O Globo

STF autoriza inquérito para apurar acusações a Bolsonaro
‘O homem que decide economia é o Paulo Guedes’
Senado e governo propõem congelar salário do servidor
Impeachment divide opiniões no país, diz pesquisa Datafolha
Para MP, revogação de portarias sobre controle de armas viola lei
Próximo do colapso, Rio recorre a frigorífico
‘Ter anticorpos não significa que se está imune ao vírus’
Adan Tooze: pandemia leva tripla ameaça a emergentes
Morte sobem na cidade, enquanto isolamento social tem redução
Brasil está prestes a passar a China em número de mortos

O Estado de S. Paulo

STF manda apurar declarações de Moro contra Bolsonaro
‘Estado’ ganha o direito de obter testes do presidente
Casos de morte com causa indeterminada sobem 43%
Manaus pede socorro
Redução salarial deve flexibilizar consignado
General diz que normas atendiam interesse do País
Na crise, novos negócios
Fiat quer ‘decifrar’ o pós-covid-19

Folha de S. Paulo

Impeachment divide país; Bolsonaro mantém apoio
Com quase 30 pedidos de impeachment, Rodrigo Maia pede paciência
Para 52%, Moro fala a verdade na disputa com o presidente
Presidente convida ministro da AGU, André Mendonça, para pasta da Justiça
Celso de Mello, do STF, autoriza investigação das acusações feitas por Sergio Moro
Usar Forças Armadas como milícia é injurioso com instituição, declara Gilmar Mendes
Por Guedes, governo freia plano de obras da ala militar
Caixa tem fila de espera de 5 horas para saque de R$ 600
Grupo contratado por pasta da Saúde já foi investigado
‘Não acredito em colapso do HC’, diz superintendente
Tribunais cortam custos, mas mantém penduricalhos
Só 15,5% dos médicos se dizem capazes de atender infectados
Mortes em Brasilândia, em SP, aumentam 50% em uma semana
Mundo ultrapassa a marca de 3 mi de casos do novo coronavírus
Para autora, disputa na Coreia do Norte poria em risco arsenal nuclear

Valor Econômico

Bolsonaro afaga Guedes, mas mercado reage com cautela
Crise derruba redes varejistas americanas
Embraer tem plano para poupar o caixa
As regras na pandemia
Óleo cai mais 24,7% e barril vai a US$ 12,78
Para Uip, não há opção diferente do isolamento
Dependência de peça importada barra produção de respiradores
Investidor de fundos foi racional na crise

EDITORIAIS

O Globo

Guedes vence batalha, mas haverá outras

Apoio de Bolsonaro revigora ministro, porém, proximidade do Planalto com o centrão é ameaça

Na instabilidade que caracteriza o governo, reflexo do próprio chefe, a manhã de ontem foi de recuperação do ministro da Economia, Paulo Guedes, colocado à margem nos últimos dias, enquanto ganhava espaço no Planalto a alternativa “desenvolvimentista” do programa Pró-Brasil, um arremedo de plano de obras de infraestrutura, a serem financiadas basicamente por dinheiro público. Por ser uma iniciativa que vai na contramão do que pensam corretamente Guedes e equipe, fizeram-se apostas em que, depois da queda de Sergio Moro, um dos dois “superministros” que tomaram posse em janeiro de 2019, estaria sendo finalizado o cadafalso para o outro.

Depois da oportuna conversa de realinhamento mantida no início do expediente no Palácio da Alvorada com Bolsonaro, Paulo Guedes ouviu do próprio presidente, ao seu lado, diante de microfones e câmeras, que ele “é o homem que decide a economia no Brasil”. Do ministério estavam presentes a ministra Tereza Cristina, da Agricultura, muito interessada na melhoria da malha de transportes e de portos, Tarcísio de Freitas, da Infraestrutura, que com o Pró-Brasil ou sem ele tem projetos importantes a viabilizar, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, da equipe de Guedes.

Não se sabe se o “Posto Ipiranga” da campanha, dono de todas as respostas econômicas do candidato Bolsonaro, foi reinaugurado. Mas no momento em que anda com o espírito especialmente conturbado, foi a mais sensata decisão que Bolsonaro tomou. Ao falar depois do presidente, Paulo Guedes voltou a garantir que o Brasil não estará no caminho da Argentina e da Venezuela — casos de fracasso na política e na economia — e prometeu que passada a “primeira onda”, da crise na saúde, o país enfrentará a “segunda”, da economia, e sairá dela “mais forte”.

O ministro se referiu ao Pró-Brasil como um conjunto de “estudos” de projetos de infraestrutura e construção civil, para ajudarem na retomada do crescimento, mas dentro da política de recuperação da estabilidade fiscal, sem revogar o teto dos gastos. Cifras bilionárias de investimentos que constam da apresentação do Pró-Brasil, resumida pelo ministro Braga Netto em uma entrevista de balanço da epidemia, são apenas estimativas, segundo Guedes, nada para valer. Até porque se o país entrou na epidemia com um déficit anual estimado em R$ 124 bilhões, a crise deve multiplicá-lo por cinco vezes ou mais. Não há espaço para mais gastos.

O presidente, porém, precisa de resultados e traz à flor da pele temores políticos e eleitorais. Por isso quer apressar o fim do isolamento social, a qualquer custo, para a economia estar em crescimento ainda este ano e principalmente em 2022. Paulo Guedes continuará sem vida fácil também devido à aproximação de Bolsonaro com políticos do centrão. Valdemar Costa Neto (PL), Roberto Jefferson (PTB), Ciro Nogueira (PP), entre outros, não gostam de governos austeros. E é por meio deles que Bolsonaro buscará uma blindagem contra qualquer pedido de impeachment.

O Estado de S. Paulo

Em perigo, Bolsonaro prestigia Guedes

Presidente decidiu conter o desmoronamento de seu governo e prestigiar o ministro, seu fiador diante do mercado e trava contra um surto de pânico financeiro

Acuado por investigações e ameaçado por graves denúncias, o presidente Jair Bolsonaro decidiu conter o desmoronamento de seu governo e prestigiar o ministro da Economia, Paulo Guedes, seu fiador diante do mercado e trava de segurança contra um surto de pânico financeiro. “O homem que decide economia no Brasil é um só, chama-se Paulo Guedes”, disse o presidente, ontem de manhã, na saída do Palácio da Alvorada. Ninguém pode dizer quanto tempo essa disposição vai durar. No fim de semana o ministro ainda era apontado por analistas políticos e por fontes do mercado como a provável bola da vez, depois da saída do ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro.

Cinco dias antes, sem a presença de um único membro da equipe econômica, o ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, havia lançado o plano de investimentos Pró-Brasil. “Nada está descartado”, respondeu o presidente, na ocasião, quando jornalistas quiseram saber se haveria afrouxamento do ajuste fiscal. O ministro Guedes e seus companheiros estavam sendo claramente desqualificados como condutores da política econômica. Em contrapartida, pareciam ganhar peso nas decisões econômicas o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e o da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas.

Uma nova crise política em poucos dias mudou o cenário. Ao tentar interferir na Polícia Federal, o presidente Jair Bolsonaro perdeu o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro. Foi mais um lance custoso para a imagem presidencial, já prejudicada pela demissão do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Nesses dois episódios o presidente deu prioridade a seus interesses privados – eleitorais e familiares. No primeiro, tentou subordinar a política da saúde ao objetivo de rápida abertura das atividades econômicas. O ministro Mandetta, mais alinhado aos critérios da Organização Mundial da Saúde, propunha política mais prudente. Seria necessário, segundo ele, programar cautelosamente, e de acordo com as condições de cada região, o abandono do isolamento social. A reativação mais veloz poderia obviamente servir aos interesses eleitorais do presidente, se nenhum desastre sanitário ocorresse. Mas Bolsonaro parece nunca ter levado a sério esse risco.

No segundo episódio, o presidente buscou acesso a investigações sobre pessoas próximas. Desde o ano passado ocorriam manobras semelhantes, sempre com tentativas de interferência em organismos envolvidos em investigações de pessoas próximas ao presidente, especialmente seus filhos. (Veja abaixo o editorial Amigos do peito.)

O Pró-Brasil, lançado na semana passada, também poderia produzir ganhos eleitorais, se permitisse uma reativação sensível nos próximos dois anos. Haveria o risco, também menosprezado pelo presidente e por vários ministros, de efeitos desastrosos para os fundamentos da economia. O programa dependeria em boa parte de investimentos custeados pelo Tesouro, apesar da notória escassez de dinheiro nos cofres federais.

Não haveria como combinar essas despesas com o ajuste programado para o pós-pandemia. Diante da emergência, o governo relaxou a disciplina fiscal, para proteger a saúde e apoiar empresas e trabalhadores diante dos piores efeitos econômicos do coronavírus. Mais gastos e perda de receita produzirão um déficit primário (isto é, sem os juros) muito maior que o programado. A dívida pública também ultrapassará o nível planejado. Será essencial, portanto, segundo a equipe econômica, encerrar em 2020 o afrouxamento fiscal, típico de uma fase de calamidade, e logo retomar a austeridade.

De novo prestigiado como condutor da política econômica, o ministro Paulo Guedes voltou a afirmar, ontem, seu compromisso com a responsabilidade fiscal, embora evitando, diplomaticamente, desqualificar o Pró-Brasil. Acuado, o presidente precisa revalorizar seu Posto Ipiranga, o ministro Guedes, enquanto busca apoio do Centrão contra um possível processo de impeachment. Esse acordo com o Centrão pode ser duradouro. Previsões são mais difíceis no caso do Posto Ipiranga.

Folha de S. Paulo

Eis a questão

Na pauta nacional, impeachment divide eleitores; Bolsonaro conta com apoio fiel

É espantoso que um presidente ainda no segundo ano de mandato, sem nem mesmo enfrentar uma oposição forte e organizada, apresente os indicadores de fragilidade política de Jair Bolsonaro.

Um novo dado se faz conhecer agora em pesquisa Datafolha: 45% dos brasileiros aptos a votar defendem que o Congresso abra processo de impeachment do mandatário, parcela semelhante, na margem de erro, à dos que se opõem à providência drástica (48%).

Que a própria questão esteja em pauta a esta altura já configura uma triste anomalia. Mas está —e porque Bolsonaro vai, com persistência, eliminando alternativas.

A calamidade do coronavírus desencadeou uma espiral vertiginosa de desatinos presidenciais. O chefe de Estado insurgiu-se contra as medidas de isolamento social, pregando que a população voltasse às atividades mesmo que ao custo de uma explosão da doença.

Seguiu-se o apoio presencial e descarado a um ato em que se defendia uma intervenção militar no país. Pouco depois, uma troca despropositada do comando da Polícia Federal levou à saída de Sergio Moro da pasta da Justiça — com relatos assombrosos de tentativas de ingerência na instituição policial.

Já se contam quase três dezenas de pedidos de impeachment no Legislativo, onde a sustentação a Bolsonaro se mostra frágil e desarticulada. Às pressas, o Planalto tenta cooptar, a preço elevado, parlamentares de tradição fisiológica.

O quadro que se apresenta às forças políticas e institucionais do país, no entanto, é complexo. Se os fatos conhecidos bastam com sobras para justificar a abertura imediata de investigações, o apelo que o presidente mantém em uma fatia não desprezível do eleitorado eleva em muito os riscos da tarefa.

Segundo o Datafolha, um terço dos brasileiros (33%) considera o desempenho de Bolsonaro ótimo ou bom —percentual similar aos observados antes da pandemia em pesquisas presenciais. Ainda que relativamente modesto, trata-se de apoio que chama a atenção pela fidelidade em cenário tão adverso.

Em comparação, o governo Dilma Rousseff contava com apenas 13% de aprovação às vésperas do impeachment da petista. Recorde-se, no entanto, que ela entrava em seu sexto ano de mandato e o país já sofria com um biênio inteiro de recessão profunda.

A nova derrocada econômica que se inicia, de proporção ainda imprevisível, vai se juntar a uma crise sanitária em processo de agravamento e a uma crise política já instalada. Em nenhum dos casos o caminho da superação parece claro.

Valor Econômico

Gerenciar dívida mobiliária exige cuidado redobrado

Tesouro tem colchão de proteção confortável, mas dívida pública subirá bastante

O apoio externado pelo presidente Jair Bolsonaro ao ministro da Economia, Paulo Guedes, ontem, antes da abertura dos mercados, colaborou para acalmar os negócios com títulos da dívida mobiliária e reduzir os juros no mercado futuro. Mas a certeza de que os gastos públicos vão crescer para o combate aos efeitos da pandemia é uma pressão inevitável, que traz um complicador extra ao gerenciamento da dívida mobiliária.

Apesar de o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, ter sinalizado nova redução na taxa básica de juros na reunião do Copom da próxima semana, os juros vêm subindo no mercado futuro, inflados também pela escalada do dólar e pela perspectiva de que tendem a ser pontuais as compras de títulos públicos pela autoridade monetária. Mas o principal motivo de preocupação dos investidores é com o crescimento das despesas públicas.

Desde a primeira semana de março, o Tesouro cancelou sucessivamente oito leilões de títulos, deixando de vender especialmente as Notas do Tesouro Nacional da série F (NTNs-F), títulos prefixados longos, e também Letras Financeiras do Tesouro (LFTs). No fim da primeira quinzena, o Tesouro chegou a divulgar nota assumindo estar enfrentando dificuldades para financiar a dívida pública.

Com uma franqueza pouco habitual, a nota salientava que o Tesouro estava tendo dificuldades para vender seus títulos no mercado e que nenhum governo pode se endividar infinitamente e controlar a inflação simultaneamente. “Ainda que, em tese, um governo possa ofertar quantos títulos quiser, ele só poderá emitir se tiver alguém que os compre”, sublinhava a nota, que não abordava o receio de técnicos do Tesouro com a possibilidade de o BC passar a “competir” com o Tesouro na venda dos títulos públicos caso a compra de títulos do Tesouro no mercado seja aprovada na PEC do “Orçamento de Guerra”.

É bem verdade que o governo federal estava em plena disputa em torno do tamanho do pacote de ajuda a Estados e municípios e queria comover os parlamentares a serem comedidos no socorro. Mas o tom da nota assustou o mercado. Em seguida, o secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, veio a público no dia seguinte para dizer que não há problemas de financiamento no momento. “Vendemos R$ 10 bilhões hoje e outros R$ 10 bilhões na semana passada. Poderíamos vender mais, mas não estamos desesperados para voltar ao mercado. O Tesouro não tem nenhum problema de financiamento, temos uma situação bastante confortável”.

Na semana passada, houve a retomada dos leilões de títulos prefixados de longo prazo. Foi a primeira oferta de NTN-F após a crise da covid-19 ter atingido o país com mais força. O Tesouro vendeu o lote integral de 50 mil NTN-Fs com vencimento em janeiro de 2027 e mais 50 mil para janeiro de 2031.

Mansueto lembrou que o Tesouro tem um “colchão de liquidez”, uma reserva de recursos que permite passar alguns meses sem fazer leilões para rolar a dívida pública. O Tesouro tem, na verdade, duas reservas. Uma é a conta única que, segundo o Instituto Fiscal Independente (IFI), que assessora o Senado, montava a R$ 668 bilhões em fevereiro e caiu para cerca de R$ 450 bilhões agora, com os resgates feitos. Outra reserva é formada pelo lucro do BC com as operações cambiais e, principalmente, a valorização das reservas, que supera um pouco R$ 493 bilhões.

Mas Mansueto não negou que a dívida é elevada e já chega a 100% do Produto Interno Bruto (PIB), pelo critério utilizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), patamar bastante elevado em relação aos demais países emergentes. Pelos critérios locais, a dívida bruta deve fechar o ano entre 80% e 90% do PIB.

No entanto, o governo não pode menosprezar o fato de que são crescentes – e necessárias – as despesas com as medidas adotadas para amenizar o impacto da pandemia na sociedade e na economia. A agenda de vencimentos de títulos públicos impõe um desafio extra. Em julho, vencem nada menos do que R$ 178,3 bilhões, especialmente prefixados de curto prazo (LTN). Em agosto, são mais R$ 62,85 bilhões em papéis lastreados à inflação (NTN-B) e, em setembro, R$ 71,43 bilhões em indexados à Selic (LFT).

Para complicar a demanda está reduzida diante do cenário da pandemia, redução da atividade econômica e preocupações fiscais. Somar a isso o fator político carrega ainda mais as tintas, aumentando as chances de mais inflação maior e juros mais altos à frente.

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