Estadão: Luciano Huck defende sociedade mais solidária e menos desigual

Em entrevista com professor de Harvard, publicada na edição deste domingo do jornal, apresentador avança na formulação de uma agenda progressista, assentada em revolução tecnológica na educação, oportunidades iguais para todos e valorização dos profissionais que estão hoje na base da pirâmide e têm sido fundamentais para superação da crise do coronavírus

Publicada neste domingo (26) no jornal O Estado de São Paulo, a entrevista conduzida por Luciano Huck com o filósofo Michael Sandel, professor da Universidade de Harvard, deixou mais clara a agenda progressista com a qual o apresentador vem ascendendo no cenário político.

Sandel discute dilemas éticos e morais em dois livros — “Justiça” e “Tirania do mérito: O que aconteceu com o bem comum”. Neste último, o mais recente, defende uma nova visão sobre sucesso e fracasso que repense a economia e a sociedade em bases solidárias e menos desiguais.

Na conversa, Huck disse não ser trivial encontrar “caminhos prontos e consistentes” que apontem soluções, por exemplo, para a situação nas favelas, especialmente impactadas pela crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. Ele usou o exemplo da educação.

Para o apresentador, é preocupante o risco de que a doença amplie “ainda mais o fosso da desigualdade no Brasil”. “Embora quase todos os estudantes no Brasil tenham um telefone celular, o nosso sistema de ensino público continua analógico. Além disso, provavelmente teremos um enorme problema de evasão escolar”, alertou.

Segundo Huck, o problema já existe, mas será acentuado no retorno às aulas. “Isso já é historicamente um problema no Brasil após as férias escolares, então imagine ao voltar depois de uma crise de saúde que gerou um isolamento de meses.”

“Haverá uma enorme pressão familiar para que os jovens contribuam de alguma forma para a renda familiar, fortemente afetada pelo desemprego”, apontou Huck. Ele considerou a educação “a ferramenta mais poderosa para gerar oportunidades e mobilidade social”.

Loteria do código postal

Ao falar de meritocracia, Huck disse que discutir o tema já seria difícil antes, dada a falta de oportunidades iguais no país, mas é “sonho ainda mais distante” agora, em meio à pandemia.

“Os pontos de partida aqui não são iguais. No Brasil, vivemos uma espécie de loteria do código postal, em que o lugar em que você nasceu praticamente determina onde você vai viver e morrer. A mobilidade social no Brasil é praticamente inexistente. Estudos mostram que, se você nasce em uma família pobre, para atingir a média da classe média, são necessárias nove gerações. Uma tragédia”, observou.

O apresentador afirmou que as mobilizações para reduzir os impactos da Covid-19 impulsionaram a filantropia e a solidariedade no Brasil. “Há setores que ganharam enorme significado, como o agrícola”, fazendo, de acordo com ele, “um trabalho espetacular” para garantir que não faltem alimentos.

Huck ressaltou ainda a dedicação dos profissionais do setor de entregas, que se tornaram fundamentais para a vida cotidiana. E elogiou médicos e enfermeiros pela coragem frente à crise sanitária.

“Gerou um enorme respeito da sociedade por todos esses profissionais do campo, das ruas, dos hospitais e das rodovias”, registrou.

Essa nova perspectiva solidária que emerge do engajamento para salvar vidas, na avaliação dele, dá às sociedades a oportunidade de reabrir a economia, quando a crise passar, em novas bases. “Podemos e devemos mudar a narrativa pós-pandêmica, adotando políticas menos divisivas e mais fraternas, mais inclusivas”, defendeu.

Sandel concordou com Huck, sustentando que o desafio é sair da crise podendo dizer “com mais verdade do que agora que ‘Estamos todos juntos nisso’”. “Nosso maior desafio é aprender com essa crise e usá-la como oportunidade para refletir sobre o que deu errado em nossa vida social, econômica e política”, orientou.

O professor de Harvard terminou a entrevista deixando duas questões que devem nortear essa nova socidade no pós-pandemia. “O que devemos uns aos outros como cidadãos e como podemos promover a política do comum? O que nos une de maneira que nos tornará mais fortes?”, questionou Sandel.

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