Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (26/03/2020)

MANCHETES

O Globo

Governadores e cientistas rechaçam Bolsonaro; população fica em casa
Presidente defende isolamento só para idosos
Vice Mourão diz que posição do governo é outra
Caiado, de Goiás, anuncia rompimento de relações
Economistas pró-austeridade defendem mais gasto público
Sucateada, rede de saúde básica do Rio monta tendas
Cientistas sequenciam genoma do novo coronavírus no Brasil
‘Trabalhamos com a capacidade máxima’, diz presidente da Nestlé
Putim muda tom: adia referendo e baixa medidas contra o vírus

O Estado de S. Paulo

Saúde estima que doença pode custar R$ 410 bi extras ao SUS
Governadores vão manter medidas restritivas
Cidades adotam barreiras sanitárias
Estudo vê eficiência em isolamento social
Economia fala em retomada a partir de abril
Quando usar ou não máscara contra o vírus
Bolsa fecha em alta pelo segundo dia consecutivo
Bérgamo sofre após ignorar quarentena
Mortes na Espanha superam as da China

Folha de S. Paulo

Bolsonaro é ignorado por governadores e se isola mais
Presidente perdeu condição de liderar esforços, diz Caiado
No Twitter, Bolsonaro fica isolado, e centro e esquerda se unem
Sistema federalista do país limita interferência da União nos estados
Quarentena sofre pressão do mercado, declara Maia
Presidente atropela debate que médicos já estão fazendo
Empresários veem risco em politizar isolamento social
Servidores com vírus desfalcam equipes médicas
Restaurante a R$ 1 serve refeição para comer em pé
Em favelas do Rio, tráfico e milícia impõem toque de recolher por vírus
Brasileiros e estrangeiros deixam país por temer caos com pandemia
Herdeiro do trono, príncipe Charles, 71, contrai coronavírus
Mortos por Covid-19 na Itália já superam 1 ano de violência em SP
Nova York convoca 6.000 voluntários contra ansiedade
Atitude é exceção até entre líderes da direita populista no mundo

Valor Econômico

Estados confrontam Bolsonaro
Presidente vira empecilho para a batalha pela saúde
Pagamento de tributo federal deve ser adiado por três meses
Entidades da Saúde fazem manifesto pró isolamento
China acelera a importação de commodities
Nestlé e JBS mantêm seu ritmo normal

EDITORIAIS

O Globo

Isolar-se é a pior escolha de Bolsonaro

O presidente deve ter objetivos políticos, mas romper com os estados prejudica a população

O presidente Bolsonaro conseguiu expor de forma contundente as características de imprevisibilidade, de radicalismo e de agressividade, em 24 horas, de terça para quarta. E conseguiu dar uma forte dimensão política à mais grave crise de saúde pública no país — se forem considerados os efeitos paralisantes da epidemia do coronavírus na sociedade, com graves reflexos na economia e no campo social. Não são aconselháveis tais comportamentos a qualquer homem público, em nenhum momento. Se for um presidente da República, em um momento de comoção como este, ampliam-se as incertezas.

Parecia que a dimensão da ameaça do vírus, dada pela violência e rapidez com que a doença surgiu na China e se espalhou pelo mundo, tinha induzido Bolsonaro a tomar a decisão acertada de trabalhar com os governadores. Um entendimento básico para que ações fortes que o Executivo precisa executar a fim de evitar o derretimento da economia — logo, dos empregos e dos salários — cheguem à população, com prioridade aos segmentos mais pobres, muitos dos quais não estão incluídos em programas sociais. Sem que seja esquecida, por óbvio, a ajuda ao setor formal da economia, as empresas.

O presidente fizera reuniões por videoconferência com governadores do Norte e Nordeste, e depois com os do Sul e Centro-Oeste, em que foram acrescentados pedidos ao conjunto de medidas anunciadas anteriormente pelo Planalto. Na terça, véspera do encontro com os governadores do Sudeste, entre eles adversários políticos do presidente, João Doria (SP) e Wilson Witzel (RJ), Bolsonaro mudou o script e, à noite, em rede nacional, mostrou novamente a face do irascível. Foi contra a palavra de ordem mundial, adotada até pelo seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, de que as populações devem cumprir isolamento social para romper a cadeia de transmissão do vírus.

Atacou ainda os governadores que, seguindo o exemplo de outros países e a indicação da Organização Mundial da Saúde, determinam o fechamento de grande parte do comércio, acusando-os de parar o país. Voltou, ainda, a minimizar a Covid-19. Rompeu a aliança que se esboçava, antes mesmo da reunião com os governadores do Sudeste, onde se altercou, de forma especialmente agressiva, com Doria. À margem de especulações sobre quais lobbies o haviam convencido a ir contra os médicos e a Ciência, o fato é que o presidente optou por isolar-se.

Mudou até o discurso do ministro Mandetta, que na entrevista de ontem do ministério deu marcha a ré no pedido de recolhimento social. Deve perder a popularidade que conquistou. O presidente pode ter seus cálculos políticos. Mas importa é que a saúde de milhões de brasileiros passou a correr ainda mais riscos, com a real possibilidade de que medidas urgentes para manter as famílias alimentadas e com o mínimo de dinheiro, enfrentem dificuldades de execução devido a este isolamento presidencial.

O Globo

Restrições são necessárias, mas há que se preservar transporte de cargas

Entidades de classe dizem que já há gargalos, o que pode comprometer abastecimento

Na tentativa de frear a disseminação da Covid-19, governadores e prefeitos, especialmente no Sudeste, área mais afetada, têm determinado uma série de restrições à circulação de pessoas nas ruas e nos transportes. O lema geral, e não só aqui, mas em todo o mundo, é ficar em casa. De fato, as medidas são necessárias. Como não há vacina ou remédio contra o novo coronavírus, o isolamento social tem se mostrado a única forma de conter a epidemia. Mas algumas decisões regionais estão provocando atritos com o governo federal e com setores da economia afetados pelos bloqueios, como o de transporte de cargas.

No Rio, o governador Wilson Witzel proibiu a chegada de ônibus interestaduais e intermunicipais. Até mesmo as linhas vindas de municípios da Região Metropolitana sofreram restrições. Imediatamente, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) alegou que a competência sobre isso era dela. Witzel proibiu também voos entre Rio e São Paulo, Minas, Espírito Santo, Bahia e Distrito Federal. Em meio à queda de braço, contaminada por disputas políticas, o presidente Jair Bolsonaro editou na sexta-feira medida provisória estabelecendo o poder do governo federal para tomar esse tipo de decisão.

Na segunda-feira, porém, Bolsonaro recuou e transferiu aos órgãos de vigilância dos estados a decisão sobre as restrições. No dia seguinte, o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, ao analisar ação do PDT, decidiu que governadores também têm poder para restringir a circulação em rodovias, portos e aeroportos.

Em que pese a flagrante falta de coordenação entre Planalto, governadores e prefeitos num momento de grave crise na saúde, o fato é que, embora elogiáveis, essas medidas precisam ser adotadas com sensatez, pois, como lembrou o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, as cidades não podem ficar desabastecidas. Associações do setor de cargas afirmam que já há gargalos devido às dificuldades para caminhões atravessarem as fronteiras e as divisas entre estados e municípios.

É fundamental que se preserve o setor de cargas, tanto nos aeroportos — aviões não transportam apenas passageiros — quanto nas estradas. O país precisa produzir kits para testagem do coronavírus, equipamentos de proteção individual (EPIs) para profissionais de saúde, respiradores etc., tudo em larga escala. E os insumos têm de chegar aos locais de produção. Da mesma forma, supermercados e farmácias não podem ficar desabastecidos, e atividades essenciais como fornecimento de luz, água e comunicações seguem funcionando. Portanto, disputas políticas devem ser deixadas de lado em nome do interesse comum. Não há dúvida de que restrições são importantes. Desde que adotadas com bom senso.

O Estado de S. Paulo

A brutalização da verdade

A ameaça representada pelos arroubos de Bolsonaro vai muito além da saúde pública. Ele parece desejar o confronto de modo a criar clima para soluções autoritárias

O presidente da República, Jair Bolsonaro, fez um pronunciamento absolutamente irresponsável na noite de terça- feira, em cadeia nacional de rádio e TV. Em vez de usar esse recurso poderoso para anunciar alguma medida importante para conter a epidemia de covid-19, ou mesmo para confortar os brasileiros confinados há dias em suas casas, Bolsonaro, sob o argumento de que é preciso reativar a economia, incitou os cidadãos a romper a quarentena e voltar à “normalidade” – contrariando as recomendações de especialistas de todo o mundo e do próprio Ministério da Saúde. Ao fazê-lo, o presidente passou a ser, ele mesmo, uma ameaça à saúde pública. Por incrível que pareça, os brasileiros, para o bem do País, devem desconsiderar totalmente o que disse o chefe de Estado. A que ponto chegamos.

Mas a ameaça representada pelos arroubos de Bolsonaro vai muito além da questão da saúde pública. O presidente parece desejar ardentemente o confronto – com governadores de Estado, com o Congresso, com a imprensa e até com integrantes de seu próprio governo –, de modo a criar um clima favorável a soluções autoritárias. À sua maneira trôpega, Bolsonaro, ao reiterar ontem as alucinadas declarações que dera na noite anterior, disse: “Todos nós pagaremos um preço que levará anos para ser pago, se é que o Brasil não possa ainda sair da normalidade democrática que vocês tanto defendem. Ninguém sabe o que pode acontecer no Brasil. Sai (da normalidade democrática) porque o caos faz com que a esquerda se aproveite do momento para chegar ao poder. Não é da minha parte, não, fique tranquilo”.

Assim, Bolsonaro usa a epidemia de covid-19, cujas dimensões e letalidade ainda são desconhecidas e que tanta aflição tem causado ao País e ao mundo, para alimentar seu inconfessável projeto de poder – cuja natureza cesarista já deveria ter ficado clara para todos desde o momento em que o admirador confesso de notórios torturadores do regime militar se tornou presidente da República.

Esse projeto se assenta na brutalização da verdade. Para o bolsonarismo, os fatos reais não existem, salvo quando enunciados por Bolsonaro. Assim, se o presidente diz, sem nenhum respaldo na realidade, que a covid-19 é uma “gripezinha” causada por um vírus “que brevemente passará” e que a culpa pelo “pavor” da sociedade é da imprensa, que semeou uma “verdadeira histeria”, então esses passam a ser os “fatos” – em detrimento das inúmeras evidências em contrário. No mesmo dia em que Bolsonaro qualificava a covid-19 de “resfriadinho”, os organizadores da Olimpíada de Tóquio anunciaram o adiamento do evento para o ano que vem – apenas a mais recente das muitas medidas drásticas tomadas mundo afora por dirigentes conscientes de seu papel nessa crise planetária. “É sério. Leve a sério você também”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel, em dramático pronunciamento na TV a respeito da necessidade de isolamento social.

O contraste com Bolsonaro é gritante: para o presidente brasileiro, basta manter apenas o “grupo de risco” (pessoas acima de 60 anos) em isolamento, e então será possível reabrir escolas e o comércio. Mas o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, é contra esse isolamento parcial, segundo apurou o site BR Político.

Por sorte, os governadores de Estado – acusados por Bolsonaro de praticar política de “terra arrasada” – informaram que vão manter as restrições de movimento para enfrentar a epidemia. Em reunião virtual dos governadores do Sudeste com Bolsonaro, João Doria, de São Paulo, disse lamentar o pronunciamento do presidente, queixou-se da descoordenação do governo federal e declarou que “a prioridade é salvar vidas” – ao que Bolsonaro, que jamais desceu do palanque, respondeu: “Saia do palanque”.

“As decisões do presidente da República em relação ao coronavírus não alcançarão o Estado de Goiás”, informou o governador goiano, Ronaldo Caiado, no que certamente será seguido por seus pares. Ou seja, o presidente Bolsonaro será olimpicamente ignorado pelos governadores. O resto dos brasileiros deveria fazer o mesmo.

O Estado de S. Paulo

Atenção à piora das contas externas

Convém pensar no setor externo para evitar mais entraves na hora da retomada

Sem pânico, mas com prudência, convém olhar com atenção o crescente buraco nas contas externas e seus possíveis efeitos no médio prazo. Quando terminar o estado de calamidade, no fim do ano, as contas oficiais estarão em muito mau estado e a dívida pública terá aumentado. Mesmo sem novos desastres, o governo terá enorme trabalho para conduzir a retomada e ao mesmo tempo arrumar suas finanças. O desafio será mais complicado se a situação cambial for menos segura que a de hoje. Eis um excelente motivo para examinar com cuidado a piora do balanço de pagamentos. Essa piora é especialmente preocupante numa economia estagnada. Que ocorrerá quando o País crescer?

Chegou a US$ 52,87 bilhões, nos 12 meses até fevereiro, o déficit em transações correntes. Isso equivale a 2,91% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado. No cálculo anterior, com base em dados até janeiro, a relação era de 2,86%. No período até outubro de 2018 estava abaixo de 2%. A relação déficit/PIB aproxima-se rapidamente de 3% e isso vale como alerta. Transações correntes incluem a balança de mercadorias, a conta de serviços e o movimento de rendas. Os números são calculados pelo Banco Central (BC).

Buracos dessa proporção, e até maiores, têm sido administrados sem grandes problemas em muitos países, mas bastam para chamar a atenção dos investidores e analistas. No caso do Brasil, ainda é preciso observar um detalhe negativo. É normal a piora das contas externas em fases de prosperidade, quando famílias com mais dinheiro consomem mais produtos importados e empresas buscam mais insumos e equipamentos estrangeiros. Além disso, mais pessoas viajam para o exterior. Não é o caso do Brasil.

A economia brasileira cresceu pouco mais que 1% em cada um dos últimos três anos e entrou em 2020 em marcha lenta. As péssimas condições do mercado de trabalho têm forçado as famílias a conter suas compras. As empresas, com grande ociosidade, vêm investindo o mínimo indispensável. Os aumentos de compras externas ocorrem sobre bases muito modestas.

Nos 12 meses até fevereiro, segundo o Ministério da Economia, o valor exportado baixou 6,4% e o importado caiu 1,7%. De acordo com a mesma fonte, no primeiro bimestre as exportações de bens foram 4,2% menores que as de um ano antes, enquanto as compras foram 6,5% maiores, puxadas por bens de capital (mais 33,7% sobre uma base baixa). Acumulou-se em dois meses um superávit de US$ 1,36 bilhão, 71,2% menor que o de um ano antes (US$ 4,73 bilhões). O valor exportado reflete as más condições internacionais e também as limitações brasileiras, com recuo de 13,8% nas vendas de manufaturados e de 12,6% nas de semimanufaturados.

Pelas contas do BC, no entanto, o valor vendido no bimestre foi 8,57% inferior ao de um ano antes. O total importado ficou 2,92% acima do registrado em janeiro-fevereiro de 2019. O saldo acumulado no ano foi quase equilibrado, com déficit de apenas US$ 45 milhões. O Ministério da Economia considera saídas e entradas de mercadorias. Os números do BC refletem os contratos de câmbio.

Pelos dois critérios a piora do comércio é a causa principal da piora das transações correntes. O buraco registrado em fevereiro, de US$ 3,90 bilhões, foi coberto com o investimento direto de US$ 6 bilhões. O déficit de US$ 52,86 bilhões acumulado em 12 meses também foi financiado com folga pelo investimento de US$ 76,66 bilhões. Mas a sobra tem diminuído. O investimento direto nos 12 meses até fevereiro foi o menor desde abril do ano passado.

Reservas de US$ 362,50 bilhões superam a dívida externa, mas o quadro geral se deteriora, com saída de dólares do mercado de títulos e pressão sobre o câmbio. Sem pânico internacional, o País chegará a dezembro sem problemas externos mais graves. Mas é preciso pensar nos investidores externos e manter as contas administráveis, para garantir um início de retomada sem maiores preocupações na área cambial. Também por isso o governo precisa definir um rumo mais claro e evitar tropeços como os dos últimos dias.

O Estado de S. Paulo

Ideia descabida

Falar em estado de sítio, mesmo que a título de mera cogitação, é uma irresponsabilidade

Na sexta-feira passada, o presidente Jair Bolsonaro descartou a possibilidade de decretar o estado de sítio ou de defesa no combate à pandemia do novo coronavírus. “Não está no nosso radar isso”, disse o presidente da República. É tranquilizador saber que o Palácio do Planalto não fez – e não faz – nenhum movimento para adotar tal medida de exceção.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser desconcertante o modo como o presidente Jair Bolsonaro referiu-se às hipóteses previstas nos artigos 136 e 137 da Constituição, como se fossem ações corriqueiras. “Ainda não está no nosso radar isso ([ ]o estado de sítio[/ ]), não. Até porque isso, para decretar, é relativamente fácil de fazer uma medida legislativa para o Congresso”, disse o presidente Bolsonaro. O tema é sério e merece discernimento responsável.

Para evitar situações que ocorreram, por exemplo, na Primeira República, em que se verificou uma banalização do estado de sítio, no combate ao tenentismo, a Constituição de 1988 estabeleceu critérios e procedimentos claros para a decretação do estado de defesa e do estado de sítio. São medidas temporárias excepcionais para específicas situações. Não é qualquer circunstância excepcional que autoriza a adoção dessas medidas, até porque elas não são uma espécie de panaceia, aptas a dar solução a todo tipo de carência ou calamidade.

Segundo a Constituição, o objetivo do estado de defesa é “preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza” (art. 136).

Em relação ao estado de sítio, o seu uso é ainda mais restrito, para caso de “comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa” ou ainda em “declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada estrangeira” (art. 137).

Tal como previsto na Constituição de 1988, o estado de sítio e o estado de defesa são destinados exclusivamente à defesa do Estado e das instituições democráticas. É, portanto, absolutamente descabido, nas atuais circunstâncias, falar de estado de defesa ou de estado de sítio. O Estado brasileiro não sofre nenhuma forma de ataque, seja interno ou externo, para que se cogite das restrições de direitos previstas nessas medidas excepcionais, tal como quebra de sigilo de correspondência e de comunicação telefônica. O que agora se faz necessário é o Estado atuar de forma técnica, diligente e coordenada para combater a expansão do novo coronavírus e atender da melhor forma possível os pacientes da covid-19.

Diante das menções feitas na sexta-feira passada ao estado de sítio, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) afirmou que “o recurso a tal medida extrema no contexto atual se mostra flagrantemente inconstitucional e descabido. (…) Não há dúvida de que a situação atual produz sensações de pânico e de temor na população. Esses sentimentos não podem, no entanto, ser explorados para autorizar medidas repressivas e abusivas que fragilizam direitos e garantias constitucionais”.

Em seu parecer, a OAB manifesta-se pela “inconstitucionalidade de qualquer tentativa de decretação de estado de sítio em face da atual emergência do novo coronavírus, que só serviria como instrumento de fragilização de direitos e de garantias constitucionais, sem qualquer utilidade e efetividade para fazer frente às reais demandas e desafios que a situação impõe ao País”.

No momento, falar em estado de sítio, mesmo que a título de mera cogitação, é uma irresponsabilidade. O cuidado com o País exige que se não fabriquem novas instabilidades institucionais. Além disso, seria uma perversa provocação com a população pedir que ela fique em casa e, ao mesmo tempo, atiçar-lhe o receio de medidas autoritárias.

Fez bem o presidente Jair Bolsonaro em rejeitar prontamente a possibilidade de estado de sítio. Que assim se mantenha. Brincar, ainda que seja apenas na imaginação, com esse tipo de medida excepcional revelaria irresponsável desleixo em relação ao País. Há limites.

O Estado de S. Paulo

Declínio previsível da confiança do consumidor

A ameaça de desemprego e a queda de renda já observadas, também acentuam o desconforto em relação às próximas semanas

Estranha não é a forte queda da confiança dos consumidores entre fevereiro e março constatada há pouco pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Estranho seria se, à luz do agravamento da crise do coronavírus, as famílias ficassem indiferentes à pandemia. Ou, pior, se se animassem a sair de casa para consumir, como sugeriu o presidente Jair Bolsonaro na terça-feira 24 de março, com palavras que pareciam destinadas a se contrapor às recomendações de autoridades sanitárias do País e do mundo.

O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV caiu 7,6 pontos em março, para 80,2 pontos, menor valor desde janeiro de 2017. Registrou queda de 11,4 pontos nos primeiros três meses de 2020. Em relação a março de 2019, o recuo foi de 10,4 pontos. A perda foi de 11,4 pontos em relação a dezembro de 2019 e de 12,8 pontos comparativamente a dezembro de 2018, mostrando esvaziamento acelerado do grau de confiança apontado pelo ICC – que chegou a atingir 95,3 pontos em janeiro de 2019, próximo da marca de 100 pontos que separa os campos positivo e negativo.

Como notou a coordenadora das sondagens da FGV, economista Viviane Seda Bittencourt, “a queda da confiança dos consumidores, que já vinha ocorrendo nos dois meses anteriores, aprofundou-se em março, sob influência da pandemia de coronavírus”. A analista acrescentou: “Apesar de dois terços da coleta de dados para esta edição terem ocorrido antes das medidas de restrição, já é possível notar um impacto expressivo nas expectativas”. Ainda pior é o cenário para os próximos meses. Com a ressalva de que, “embora seja difícil imaginar alguma recuperação da confiança no horizonte visível, esperamos que o sucesso das medidas de isolamento para reduzir a disseminação do vírus possa ao menos conter parte do desânimo que virá com a queda do PIB e o aumento do desemprego”.

A ameaça de desemprego e a queda de renda já observadas acentuam o desconforto em relação às próximas semanas, pois há dependência da estabilização do número de brasileiros infectados. Além disso, nos cálculos da FecomercioSP, as mudanças nas regras trabalhistas vão impactar mais de 1 milhão de empregos formais no Estado de São Paulo, onde 460 mil estabelecimentos fecharam as portas em 24 de março.

Folha de S. Paulo

Presidente, retire-se

Equipes técnicas da Saúde e da área econômica deveriam liderar a gestão da crise

Diante da magnitude dos esforços necessários para mitigar os efeitos devastadores da epidemia do coronavírus sobre a saúde e a economia do Brasil, será preciso encontrar meios de anular, e logo, a capacidade de Jair Bolsonaro de estorvar a mobilização de guerra necessária para atravessar, com os menores danos possíveis, este episódio dramático da vida nacional.

Nesta terça (24), em cadeia de rádio e TV, ele mostrou mais uma vez que não aprende nem se cala.
Não aprende as lições da ciência e dos técnicos em saúde pública de todo o mundo e de seu próprio governo. Não se cala para evitar a propagação das estultices que povoam a sua mente apalermada.

Tudo o que o Brasil não precisa neste momento é de um presidente que estimula a divisão e atrapalha a coordenação de diagnósticos e estratégias municipais, estaduais e federais contra a doença e o empobrecimento num país continental de 210 milhões de habitantes.

O país tampouco pode perder tempo com brigas políticas entre o chefe de Estado e governadores, entre Executivo e o Congresso.

Manter o máximo de pessoas em casa nesta primeira fase, ao mesmo tempo em que se expande a capacidade das emergências hospitalares, será crucial para diminuir as mortes evitáveis.

Investir desde já na ampliação da testagem rápida, da busca ativa de infectados e do estoque de drogas que venham a se mostrar eficazes reduzirá o ônus para a saúde e a economia numa segunda etapa, quando os confinamentos mais duros forem levantados.

As ondas de contágio e fatalidades, que se concentram agora nas áreas metropolitanas de São Paulo e do Rio, começam a caminhar para outras regiões. É preciso planejamento e concatenação entre autoridades para lidar com esse espectro de picos epidêmicos em diferentes estágios ao longo do território brasileiro durante meses.

Na economia, urge construir e estender linhas inéditas de socorro à renda e aos empregos dos mais vulneráveis. O déficit e a dívida deverão subir, mas seria ingênuo imaginar que essa expansão não teria limites, mesmo se o Brasil fosse país rico.

Para articular, com respeito ao conhecimento sanitário e econômico, todos esses esforços extraordinários, Bolsonaro precisa delegar poderes a uma força-tarefa que reúna as equipes técnicas da Saúde e da área econômica e dialogue com Congresso e governadores.

Que se forme um núcleo de governabilidade capaz de deixar em segundo plano as sandices do presidente, e que os políticos tenham a grandeza de suspender suas vaidades e projetos eleitorais por ora.

Assim deveriam transcorrer as próximas semanas, que serão decisivas para uma ponderação dos efeitos das providências já tomadas na preservação de vidas e na subsistência das famílias.

Folha de S. Paulo

Jogos perigosos

Japão adia a Olimpíada; líderes que não agiram a tempo correm riscos maiores

Em decisão acertada, o Japão finalmente concordou em adiar os Jogos Olímpicos, que deveriam ocorrer em julho deste ano, por causa da pandemia de Covid-19. Cedeu à pressão de atletas, delegações, países e também da Organização Mundial da Saúde (OMS), a partir do imperativo da precaução em um panorama de incerteza global.

Mesmo que venha a prevalecer uma evolução menos catastrófica da disseminação do coronavírus, seria inviável dar início ao evento dentro de apenas quatro meses.

Se em países da Ásia a primeira onda da doença parece já ter passado, em diversas partes do Ocidente os surtos epidêmicos apenas começam, e há a sensação de que poderão ser piores do que os registrados no Oriente.

É de sensação, de fato, que se trata; a esta altura, comparações objetivas são precárias. Pode-se, claro, constatar a situação de extrema dificuldade por que passam os sistemas de saúde da Itália e da Espanha, contrastá-la com as condições mais favoráveis verificadas no Japão ou na Alemanha e apontar que os dois últimos se saíram melhor.

Quem, porém, insistir em medidas numéricas, como total de casos e letalidade, esbarrará no problema da testagem. Como diferentes países aplicaram diferentes políticas de diagnósticos, que nem sequer foram uniformes numa mesma nação, as comparações ficam seriamente comprometidas.

Não obstante as dificuldades técnicas, um padrão que vai se consolidando é o de que líderes populistas apresentam-se como ameaças à saúde pública —tanto por atrasarem medidas quase consensualmente apontadas pelos especialistas como necessárias quanto por colocarem constantemente em dúvida as decisões já tomadas.

Os casos mais grotescos, sem dúvida, são os do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, à direita, e de seu congênere mexicano, Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, à esquerda.

Outros líderes dessa variedade, como o americano Donald Trump, o britânico Boris Johnson e o turco Recep Tayyip Erdogan, flertaram longamente com a estratégia de isolar apenas a população mais vulnerável, idosos em especial.

Com isso, podem ter perdido tempo precioso de preparação e tornado a curva exponencial muito mais difícil de controlar agora.

Valor Econômico

Na crise, Bolsonaro é contra o que seu próprio governo faz

É desastroso que falte equilíbrio, espírito público e inteligência ao Executivo em um momento como esse

O presidente Jair Bolsonaro coloca milhares de vidas em risco e contra uma pandemia de alto poder destrutivo se colocar em prática os esboços de pensamentos que despejou em cadeia nacional de rádio e TV na noite de anteontem. Com sua ignorância soberba, Bolsonaro pretende desmobilizar as quarentenas espalhadas por todo o país, conduzir todos os brasileiros de volta ao trabalho, isolando do convívio social idosos e pessoas com doenças crônicas. É uma guinada irresponsável de 180 graus na linha de ação do ministro da Saúde, Luiz Mandetta, que não deve seguir à frente do ministério se Bolsonaro executar suas intenções.

Bolsonaro é anárquico, imprevisível, temperamental e indisciplinado – em resumo, tudo que o Brasil não precisa neste momento de um presidente. Mandetta segue orientações que arregimentam o consenso possível entre os especialistas sobre como enfrentar a pandemia. Bolsonaro, nas poucas vezes em que abriu a boca para comentar o que seu próprio governo estava fazendo contra a covid-19 foi para desdenhá-la, criticar a histeria da imprensa e minimizar “gripinha” – que até ontem matou 57 pessoas no Brasil. Agora, inspirado pelo também imprevidente e falastrão presidente dos EUA, Donald Trump, resolveu que todo o esforço construído para tentar evitar o caos em um já deficiente sistema de saúde, está errado e precisa ser reorientado.

Diante de uma terrível ameaça, o presidente precisa saber ouvir as melhores opiniões disponíveis, definir rumos, traçar metas, estabelecer prioridades e empenhar-se para alcançar os objetivos. O estilo “deixa que eu chuto” de Bolsonaro é o contrário disso. Desde os primeiros sinais da covid-19, não deu atenção ao problema, nem procurou se informar e aprender sobre o assunto. Com o vírus entre nós, enciumou-se do trabalho de Mandetta, e dias depois, disse para espanto geral da nação que todos estavam errados – inclusive os governadores de São Paulo e Rio, Estados onde estão a maioria dos infectados e onde ocorrem o maior número de mortes.

A lógica de seus movimentos é maluca. Bolsonaro fizera duas reuniões com governadores para ampliar recursos para os Estados enfrentarem e distender o clima tenso que criou com a maioria deles. Um dia após dialogar com os governadores do Norte e Nordeste, decide agredí-los e, na teleconferência ontem com os governadores do Sudeste, fez aquilo que mais gosta de fazer – atacar inimigos políticos. Disse que o governador paulista João Doria não tinha “altura” para aspirar à Presidência em 2022 e, depois, que as restrições impostas por alguns governadores e prefeitos são “crime”.

Não satisfeito com comprar uma briga federal, devolveu a crítica do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre seu pronunciamento, afirmando que o senador “nunca fez nada pelo Brasil”.

O destempero do presidente, que já brigou com todos os Poderes da República e participou de manifestações de rua contra eles, tem crescido à medida que começa a derrocada de sua popularidade entre seu próprio eleitorado. Suas ironias sobre a covid-19, que já matou mais de 20,5 mil pessoas em todo o mundo, foram recebidas com panelaços de indignação em locais onde obteve grande votação nas eleições. A prioridade de Bolsonaro, porém, é a minoria que o defende, encapsulada há algum tempo em 25% dos que consideram seu governo ótimo ou bom. Sua aposta no enfrentamento a todo custo, mesmo diante de uma crise de grandes proporções, demonstra seu desejo explícito – o poder pelo poder, que julga poder manter pela polarização.

Bolsonaro não é um estadista e não dá a mínima se uma crise sanitária perigosa for acompanhada de grave crise institucional. As consequências da pandemia e os atos dos governadores que considera rivais podem lhe dar pretextos para um estado de sítio e consequente restrição das liberdades democráticas. O presidente não teme este desfecho, parece até mesmo buscá-lo: não dialoga, e até ofende, os demais Poderes.

Em seus cálculos podem estar muitas coisas – além do destino de seu governo. Um impeachment em meio ao caos sanitário seria improvável, como ainda parecem acreditar as lideranças do Congresso. Os militares que lotam o governo barrariam tentativas de apeá-lo do poder e até o apoiariam em um golpe contra as instituições. Nenhuma das hipóteses pode se revelar verdadeira. É desastroso, de qualquer forma, que falte equilíbrio, espírito público e inteligência ao Executivo em um momento como esse.

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