Mauricio Huertas: Espelho, espelho meu…

Não é possível que o brasileiro se veja refletido no bolsonarismo e esteja tudo bem.

Até entendo que, para muita gente, o voto em Bolsonaro tenha servido como um espelho para dar aquela maquiadinha básica, depois de noites mal dormidas com os desvios e malfeitos do PT. Se for só isso, vá lá.

Que tenha sido aquele retoque na maquiagem dado às pressas. Um disfarce nas olheiras profundas. Um lápis de olho, uma sombra, um reforço no batom para dar uma cor. Um corretivo facial só para esconder as marcas do tempo e ocultar as rugas de expressão. Que seja. É até compreensível.

Afinal, quem nunca deu aquela espiadinha no espelho do carro ou uma ajeitadinha no cabelo, uma desamassadinha na roupa enquanto sobe ou desce no elevador diante de um espelho que quase te obriga a se olhar e se arrumar?

Não há autocrítica que resista a um espelho bem iluminado.

Mas que algum eleitor ainda hoje se identifique ou se orgulhe com o que vê à sua frente no bolsonarismo é absolutamente inacreditável.

Se for o seu caso, lamento informar, o espelho reflete alguém que precisa de ajuda.

Para quem já não gostava do Bolsonaro – é o meu caso, confesso – a realidade apenas potencializa a má impressão diante de tanto despreparo, descontrole, desequilíbrio. Perante tamanho preconceito, ignorância, obscurantismo, inépcia e inaptidão.

Por isso alguém pode dizer que eu estou de má vontade. Sempre vão me cobrar, no típico raciocínio limitado da polarização ideológica burra: “Fala do PT”, “fala do Lula”, “fala da Dilma”. Pois então, eu falo também. Falei nas últimas décadas. Critiquei. Fiz oposição.

Você não viu? Que pena! Dá um Google.

Mas, enfim, agora os inquilinos do poder são outros. E a situação é desesperadora. Estamos entregues a um bando de fanáticos, lunáticos, grosseiros, imbecis, desqualificados. É quase um PT na mão inversa, espelhado, repetindo tudo aquilo que os bolsonaristas condenavam hipocritamente nos outros.

Essa é a minha opinião, você vai dizer, com razão. Claro que é. Como cidadão, eleitor, jornalista, homem, pai de uma menina, não aceito assistir impassível às cenas deploráveis desse presidente tosco, asqueroso, misógino, mitômano, ignorante.

Ok, posso estar falando tudo isso só porque sou anti-bolsonarista. Assim, minhas palavras não tem nenhum valor para um “cidadão de bem”, eleitor convicto de direita, bolsonarista raiz, admirador do grande, autêntico e bom homem que é Jair Bolsonaro, o capitão, o herói, o mito.

Sugiro então que esses mais obstinados recorram às duas deputadas bolsonaristas mais votadas do Brasil em 2018: Joice Hasselmann e Janaína Paschoal. Perguntem o que elas acham das declarações de Bolsonaro, do seu comportamento como presidente da República e das atitudes bélicas dos seus filhos. Só não vale acusar as duas de comunistas, hein?

Dói na alma ver as ofensas machistas, as insinuações sexistas e o humor cafajeste contra a jornalista da Folha (“ah, mas a Folha”… vão grunhir os bolsominions idiotizados). Se você é daqueles que relativizam a agressão preconceituosa, opressora e covarde contra uma mulher por ideologia, necessita de tratamento urgente. Freud explica.

Não é contra fulano ou beltrano. É a apologia do ódio. É contra todos nós, a barbárie vencendo a civilização.

Para quem votou em Bolsonaro esperando o país das maravilhas, como uma Alice deslocada que faz arminha com os dedos, saiba que a rainha louca se apoderou do Brasil e o chapeleiro maluco dá o tom intelectual do governo.

Este país surreal, que mal se enxerga através do espelho, agride, violenta e mata as suas meninas sonhadoras.

Não somos um país destinado às aventuras dessas Alices ou Brancas de Neve. Estamos mais suscetíveis às dores e horrores das nossas Marielles, Patrícias ou Marias da Penha.

Eu, particularmente, me lembro daqueles espelhos do Playcenter que distorciam a nossa imagem: estica, engorda, espicha, encurta.

Ríamos do incômodo causado por aquilo que enxergávamos, o nosso reflexo deformado. Mas era um estranhamento passageiro. Que seja breve também o bolsonarismo.

Espelho, espelho meu…

Existe algo pior e mais deletério para a imagem do Brasil, mais abjeto, mais antidemocrático, mais anti-republicano, do que manter esse Jair Bolsonaro na Presidência?

Não, mil vezes não!

Pelo amor de Deus, eu não me enxergo refletido nisso tudo que está aí.

Não é possível que você, independente da sua preferência política ou ideológica, não se envergonhe do que vê.

Abre o olho, rápido, por favor!

Mauricio Huertas é jornalista, líder RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), editor do #Suprapartidário, idealizador do #CâmaraMan e apresentador do #ProgramaDiferente.

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