Cristovam Buarque: Ainda é tempo

Nas últimas semanas, o Brasil ficou envergonhado diante do mundo por causa de sete letras que indicam nossa triste posição no mundo. Somos campeões inversos em educação e na qualidade de vida. Nossa educação de base, conforme o Pisa, está entre as piores do mundo; conforme o IDH, temos a maior concentração de renda, pobreza persistente e saúde deprimente. Esses dois indicadores mostram as mazelas de cinco séculos, de 130 anos de República, mas sobretudo o fracasso do período democrático nos últimos 33 anos.

Demonstra que nós, democratas-progressistas, falhamos, não fomos capazes de reorientar o país na direção de um novo futuro. Deixamos 12 milhões de adultos analfabetos, 100 milhões sem saneamento, economia em recessão e desemprego. Mais grave é que o IDH não mostra a corrupção, as mordomias e privilégios, o atraso científico e tecnológico. O Pisa leva em conta o mau desempenho dos que estão na escola, ignora os que nunca estiveram nela e os que a abandonam antes do tempo.

Nós falhamos ao não definirmos estratégias para que, em um prazo de poucas décadas, o nosso Pisa e o nosso IDH estejam entre as melhores do mundo. Ao lado da imagem da corrupção, esta é a nossa maior falha: não deixar uma bandeira fincada de como o Brasil seria um dia campeão em qualidade de vida. O eleitor nos mandou para casa sem saber qual é a nossa bandeira que fica, para nos diferenciarmos dos outros. A bandeira poderia ter sido a constatação de que IDH e o Pisa são diferentes indicadores de uma mesma realidade. O Pisa faz o IDH. Nossa bandeira deveria ter sido a promessa responsável de que em 20 ou 30 anos nossa educação estaria entre as melhores do mundo e todas as escolas teriam a mesma qualidade, independentemente da renda e do endereço da família dos alunos, como é em todos os países com bom IDH, porque o IDH decorre do Pisa.

Não fizemos isso porque estamos presos a ideias do passado: é possível crescer sem estudar, “50 anos em 5” na industrialização, com a educação estancada e desigual conforme a classe social. Não percebemos que nestes tempos de “economia pelo conhecimento” a dinâmica econômica vem da formação dos trabalhadores; e que a justiça social vem da igualdade no acesso à qualidade escolar. O caminho para a riqueza e para o IDH de seu país é não deixar qualquer criança para trás na educação. Seja porque permanecerão na escola até o final dos estudos, seja porque terão toda chance para desenvolver seu talento intelectual, independentemente da renda da família.

Isso decorre de dois conceitos que nos amarram. Nós, brasileiros, não nos consideramos vocacionados para sermos campeões em educação. Somos um país cuja vocação é ganhar “bolas de ouro” com o melhor jogador do ano, não ganhar o Nobel com o melhor cientista do ano. Olhamos para a Fifa, em Zurique, não para o Conselho do Nobel em Estocolmo.

Segundo, porque 350 anos de escravidão e 130 de desigualdade criaram no inconsciente coletivo dos brasileiros a ideia de que escola com qualidade é privilégio da parte rica da sociedade, raras exceções conquistadas e aceitas. Nossa parcela rica se apega a esse privilégio como um direito seu, não aceita para obras, subsídios, investimentos em outras áreas para investir em educação.

Nossa população pobre aceita mais a desigualdade na educação que sacrifica os filhos do que a desigualdade no transporte público. Ela se incomoda mais quando olha de um ônibus cheio para um carro bacana ao lado, do que ao passar em frente a uma escola de ricos que nem ao menos compara com a pobre escola dos filhos. Como se o consumo de bens devesse ser um direito de todos, mas o acesso à educação de qualidade fosse direito para poucos. Como era no tempo da escravidão e do Império e continua depois da Abolição e da República.

A tragédia da semana passada com o Pisa e o IDH será esquecida muito mais rapidamente do que o 2×1 que lembramos do Uruguai há 72 anos e do 7×1 da Alemanha, em 2014. Vamos esquecer e não vamos entender que o IDH baixo é produto da educação ruim e desigual refletida no Pisa. Pior ainda: não vamos ter a consciência de que podemos e devemos buscar sermos campeões mundiais em educação de base e termos os filhos de pobres e de ricos em escolas com a mesma qualidade.

Ainda é tempo. Daqui a dois anos, completaremos 200 anos de independência. Ao longo do nosso terceiro centenário, se perdermos o complexo de inferioridade intelectual e oferecermos escola de qualidade para todos, ainda poderemos ser uma das grandes nações do mundo. (Correio Braziliense – 17/12/2019)

Cristovam Buarque, professor emérito da UnB (Universidade de Brasília)

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