Claudia Safatle: PIB privado cresce e o público se retrai

Novo pacote do microcrédito será anunciado na segunda-feira

O processo de saída de cena do investimento público e entrada em cena do investimento privado começou e vai estar estampado no PIB anual. A expectativa no governo é que o produto do setor privado cresça cerca de 2% neste exercício. Já o PIB do setor público deverá apresentar uma importante retração, da ordem de 1%, por causa das “despedaladas” dos bancos públicos (BNDES, Banco do Brasil e Caixa) que, nos governo do PT, expandiram os gastos parafiscais.

Isso é o que os economistas chamam de “crowding in”, em substituição ao “crowding out”. Ou seja, a retração do gasto público vai abrindo espaço para o investimento privado.

Os primeiros dois anos do governo de Jair Bolsonaro serão parecidos com os do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso na performance da atividade econômica, mas com uma diferença fundamental: lá havia investimento público relevante, de quase 4% do PIB. Agora, não haverá.

Em meio à essa mudança estrutural do PIB, o investimento público vai, portanto, cair mais do que o 0,5% esperado pela área econômica do governo, mas a reação do setor privado será melhor do que a imaginada.

Para 2020, a perspectiva é de um crescimento econômico na casa de 2%.

Nos 300 dias de gestão Bolsonaro foi possível colher alguns frutos importantes. A curva longa de juros passou a sustentar queda. No início da flexibilização da política monetária, o Banco Central reduziu a taxa Selic, que ele controla, mas os juros de dez anos não caíram.

Isso deixou a área econômica presa em uma armadilha. Segundo o Banco Mundial, as taxas de retorno dos projetos de expansão da infraestrutura ficam em torno de 8,5% a 9% ao ano. Se os juros longos são maiores do que a taxa de retorno, o setor privado não fará os investimentos com recursos privados. Os governos anteriores, do PT, recorreram aos financiamentos com juros subsidiados.

Quanto maior a concessão de subsídios, porém, pior é a percepção sobre o desempenho fiscal e mais inclinada ficará a curva das taxas de juros de longo prazo. Para romper essa armadilha, era preciso reduzir os juros longos.

“A curva longa só começou a cair agora, e isso viabiliza uma faixa de projetos. Essa é a reinvenção do processo: conseguir financiar os projetos de longo prazo com dinheiro privado e começar, a partir daí, a entrar em um círculo virtuoso”, avalia uma alta fonte oficial.

Para essa fonte, a grande conquista não é a continuidade do corte da taxa Selic, que o BC controla, mas a queda dos juros de dez anos, que exige “credibilidade”.

Neste ano, pelo menos três choques prejudicaram o crescimento da economia, que poderia ter sido de 1,58% mas que ficará na faixa de 0,9%. Foram eles: a crise da Argentina, que teve impacto de 0,18%, a redução do comércio internacional que abateu 0,29%, e o desastre de Brumadinho, que reduziu a possibilidade de aumento da atividade em 0,20%, segundo dados apresentados pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos, em palestras recentes.

Segundo ele, nos períodos em que o país cresceu com forte injeção de dinheiro público, teve um desempenho bem inferior aos dos demais emergentes, conforme gráfico abaixo. E, curiosamente, em várias fases de crescimento rápido houve também queda da produtividade. O que atesta que o governo não aloca bem os recursos públicos.

Os dados da expansão do crédito prenunciam uma retomada mais visível da economia. O crédito livre para pessoa física cresce 35% e, para as empresas, cresce 17%. O crédito imobiliário expande 14%, e o para financiamento de automóveis, 18%. São o imobiliário e o crédito para projetos de infraestrutura que vão dar maior sustentação à atividade econômica.

Na hipoteca reversa, em que a casa entra como colateral, 90% dos financiamentos são tomados por pessoas que querem salvar a sua empresa ou abrir um novo empreendimento.

O próximo passo é um amplo plano de microcrédito que será anunciado na segunda feira pelo presidente da República. Depois de uma avaliação aprofundada do que ocorreu na Índia, no Quênia e em Bangladesh, e uma limpeza nos entraves burocráticos daqui, o governo anuncia o aumento do direcionamento do crédito para o programa do microcrédito de 2% para 3% do balanço dos bancos e o aumento do limite da renda anual ou receita bruta de R$ 200 mil para R$ 360 mil para o enquadramento dos beneficiários, dentre outras medidas.

A inadimplência do microcrédito é baixa, de 1,7%, por causa, sobretudo, do aval solidário. Não pagar significa atrapalhar a vida de outros da mesma comunidade. O piso do crédito para os microempreendedores é de R$ 400,00 e a média é de R$ 2 mil.

Em meio às dificuldades do governo e das idiossincrasias do Palácio do Planalto, é possível ver sinais de que algumas coisas positivas começam a acontecer. (Valor Econômico – 08/11/2019)

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras – E-mail: claudia.safatle@valor.com.br

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