Mauricio Huertas: Um passo em frente, dois passos atrás… Até quando?

Não é possível que a maioria do eleitorado brasileiro esteja contente por ter colocado Jair Bolsonaro e sua trupe na Presidência da República, há um ano, com os 49 milhões de votos dados no 1º turno em 7 de outubro e os 57 milhões de votos no 2º turno em 28 de outubro de 2018. Ah! Essa nossa jovem democracia e a dor do crescimento… Quantos já estarão arrependidos?

Aonde estão as reformas prometidas? Cadê as novas práticas e as mudanças tão propagandeadas? Onde está o crescimento econômico, a redução das desigualdades, a meritocracia, o enxugamento estatal e a eficiência da máquina pública? Qual vantagem teve, afinal, o povão que digitou o número 17 para transformar o nanico PSL no “PT da direita”? (Brasil acima de tudo. Recall acima de todos!)

A rejeição ao petismo e aos mecanismos da política vigente eram esperados nas urnas, mas o resultado da resposta encontrada parece ter simplesmente agravado o problema. O bolsonarismo repete o que existia de pior no petismo, apenas na mão inversa, na direção trocada. Será que o Brasil precisava passar por tudo isso outra vez?

Venderam um governo liberal na economia e conservador nos costumes, com um ministério enxuto formado por especialistas. Entregaram uma administração capenga, atrasada, intervencionista, com um bando de ineptos e aparvalhados. Em vez de governar para todos, optam pelo acirramento da polarização, pelo confronto interminável e pelo isolacionismo em bolhas ideológicas.

Pegue cada discurso, cada crítica, cada ataque bolsonarista na campanha eleitoral, junte com cada reação petista, cada argumento, cada justificativa do PT então no governo, e inverta os papéis: passe a usar as mesmas críticas feitas antes pela direita, agora contra o próprio governo Bolsonaro, e por outro lado compare a atual defesa governista com a retórica esquerdista de Lula, Dilma ou mesmo do período Temer, o “golpista”. É tudo igual! Os fatos a até muitos dos personagens se repetem! Tudo farinha do mesmo saco!

O que prometeram na campanha não cumprem no exercício do mandato. Pior, reproduzem as mesmas práticas condenáveis, as mesmas desculpas esfarrapadas, os mesmos métodos fisiológicos, a cooptação de apoio, o loteamento de cargos, a distribuição de verbas públicas, o patrulhamento da mídia, a blindagem das ilegalidades em acordos espúrios entre os poderes.

Quem se dá bem no Brasil com o meme que virou presidente – cópia bizarra do modelo americano – não são simplesmente fanáticos de direita, mas lunáticos de direita. Não são apenas conservadores, retrógrados, reacionários. São obsoletos, anacrônicos, antigos, passadistas, preconceituosos, intolerantes, regressistas, caducos, decrépitos, antiliberais, doentes.

Veja que o eleitor tinha inúmeras opções mais modernas e civilizadas para responder ao antipetismo que transbordava na sociedade desde as descobertas flagradas pela Operação Lava Jato. À direita, ao centro e mesmo à esquerda existiam alternativas menos insanas e extremadas, mais responsáveis, qualificadas e equilibradas. Porém, ao restringir a disputa a uma escolha plebiscitária entre o lulismo e o bolsonarismo, avacalharam a eleição presidencial. Perdemos a chance de avançar e vamos pagar um preço alto por essa péssima escolha.

Os mais radicais de ambos os lados parecem satisfeitos ao apostar na longevidade da polarização: até porque isso, em tese, garantiria palanque, voto e um lugar supostamente cativo no 2º turno das principais disputas de 2020 e 2022. Por esse cálculo meramente eleitoreiro e pragmático, que se danem os municípios, os estados, o país! (Mas será que vale a pena vender a alma para ganhar uma eleição?)

Nós que optamos pela racionalidade, pela boa política, por um meio termo entre os extremos, pelo diálogo, pela convergência e acreditamos no que se convencionou chamar de “campo democrático” fomos derrotados em 2018 e, se persistir essa divisão e a fragmentação reinante, repetiremos a dose. Quem vai dar o primeiro passo para mudar essa situação?

Mauricio Huertas é jornalista, líder RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), editor do #Suprapartidário, idealizador do #CâmaraMan e apresentador do #ProgramaDiferente.

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