Outubro Rosa: Especialista diz que Brasil ainda tem longo caminho a percorrer no combate ao câncer de mama

O câncer de mama, de acordo com o INCA (Instituto Nacional de Câncer), é o segundo tipo que mais atinge as brasileiras e representa 25% de todos os cânceres que afetam o sexo feminino. No Brasil foram estimados 59.700 novos casos da doença em 2019, com risco estimado de 56 casos a cada 100 mil mulheres.

Para prevenir o câncer de mama, foi criado mundialmente a campanha de conscientização Outubro Rosa para alertar a sociedade mundial sobre o diagnóstico precoce do câncer de mama. A data também busca disseminar dados preventivos e ressaltar a importância do cuidado necessário que se deve ter com a saúde.

O Cidadania 23, assim como diversas instituições, faz a sua parte ao abordar o tema com o intuito de encorajar as mulheres a realizarem exames anualmente, já que nos estágios iniciais a doença é considerada assintomática, ou seja, que não exibe sintomas.

Chances de cura

O câncer de mamar é um tumor maligno que ataca o tecido mamário e se desenvolve quando ocorre uma alteração de apenas alguns trechos das moléculas d DNA, causando assim uma multiplicação de células anormais que podem gerar o cisto. O diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de cura. Dados apontam que 95% dos casos identificados em estágio inicial têm possibilidade de cura.

Mas o Brasil ainda deixa a desejar quando se trata do combate ao câncer de mama. Segundo dados da SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia), das 11,5 milhões de mamografias que deveriam ter sido feitas no ano passado, apenas 2,7 milhões foram de fato realizadas. A diminuição acentuada do exame é um fator de risco para milhares de mulheres e um alerta para a importância da campanha.

Outubro Rosa

O Outubro Rosa teve início em 1990 em um evento chamado “Corrida pela cura” ocorrido em Nova Iorque (EUA) para arrecadar fundos para pesquisas realizadas pela instituição Susan G. Komen Breast Cancer Foundation. Conforme o evento foi crescendo, o mês de outubro foi instituído como a data de conscientização nacional nos Estados Unidos até ganhar o mundo.

No Brasil a primeira ação ocorreu em 2002, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, com a iluminação cor de rosa do Obelisco Mausoléu ao Soldado Constitucionalista. Em 2008, diversas instituições adoram medidas semelhantes iluminando prédios e monumentos alertando para a necessidade da prevenção.

Longo caminho

Em entrevista ao Portal do Cidadania, o oncologista clínico e coordenador de pesquisa translacional no Hospital Sírio-Libanês, Romualdo Barroso de Sousa, afirmou que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer no que tange ao combate ao câncer de mama. Na entrevista a seguir, Sousa diz que o País ainda não realiza nem metade das mamografias consideradas ideais pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Qual é a importância da campanha Outubro Rosa?

Romualdo Barroso de Sousa, oncologista clínico e coordenador de pesquisa translacional no Hospital Sírio-Libanês

Acho que todas essas campanhas servem para lembrar a população dos exames de prevenção. O objetivo então é mais a lembrança. Fazer uma campanha de conscientização para que as pessoas, pelo menos em um determinado mês, lembrem e coloquem em pratica essas atitudes de prevenção

Por que existe tanta preocupação em torno do câncer de mama?

O principal motivo é a frequência. A frequência do câncer de mama é muito maior do que dos outros canceres. Então é mais por ser um câncer muito comum. Juntando todos os outros canceres ginecológicos ainda não dá o numero de canceres de mama. A frequência é o que faz essa doença mais, digamos, noticiada, mas obviamente que outras doenças precisam ser lembradas. Essa não é a única que aflige as mulheres. Tem dois tipos de câncer que a população em geral esquece e que na verdade são a segunda e terceira causa de câncer na sociedade moderna: o de pulmão e em terceiro o de cólon. As mulheres também precisam ficar atentas para esses dois tipos. Seguir as mesmas orientações de prevenção com a colonoscopia, que é o exame que diagnostica o câncer do intestino grosso. Já o de pulmão, é muito importante não fumar e , se fumar, parar de fumar para evitar ou diminuir o risco do câncer de pulmão. No Brasil tem outro câncer que envergonha um pouco a gente como médico que é o câncer de cólon de útero. É uma doença extremamente prevenível, inclusive temos vacinas, mas o Brasil e todos os países que tem problemas de subdesenvolvimento ainda possuem números são muito altos.

O senhor considera que as mulheres, de uma forma geral, estão conscientes sobre a doença no Brasil?

Eu acho que ainda tem um caminho muito grande pela frente. Para se ter uma ideia, os dados que temos sobre a realização de mamografias anuais não chegam nem a metade do que é recomendado pela OMS para o Brasil. Então menos de 50% das mulheres que deveriam fazer a mamografia uma vez por ano não fazem, ou por falta de conhecimento, ou dificuldade de acesso ao exame. O fato é que tem muita coisa para melhorar.

Na sua opinião, porque o poder público não está fazendo a sua parte e o que falta para que isso ocorra?

Eu acho que falta é engajamento de todas as esferas da sociedade. É muito importante o poder público assumir a sua responsabilidade. Existe ainda uma dificuldade muito grande de acesso a plano de saúde, exames e médicos. Mas por outro lado, falta um pouco de consciência social da população para lutar pelos seus direitos e cobrar dos governantes e do poderes públicos esses direitos. Enquanto nós esperarmos que [a ação] venha apenas do poder público, nós sabemos como essa historia vai terminar. Precisamos estar vigilantes para cobrar os nossos direitos.

Como atingir e conscientizar as mulheres mais desinformadas, como aquelas que moram nos grotões do País ou em áreas remotas como na região Norte?

Acho que é um problema muito mais grave. Como estou na área médica, e infelizmente estamos na linha de frente vendo coisas tristes, muitas vezes observamos que o Estado só tomou conhecimento daquele cidadão já no final da vida dele. Essas informações deveriam ser passadas nas escolas, crianças e adolescentes deveriam ser informadas sobre a prática de saúde e prevenção. Acho que o programa Saúde da Família deve ser valorizado para que aos agentes de saúde e comunitários possam disseminar esse conhecimento nessas populações, especialmente as ribeirinhas e sertanejas. Até porque muitas vezes falam muito mais a língua dessa população do que os próprios profissionais de saúde. Contudo, é preciso lembrar que 80% da população do Brasil é urbana e mesmo nessas áreas nossa cobertura de saúde é muito ruim. Não conseguimos justificar esses números ruins colocando a culpa nos grotões e populações mais afastadas.

Os hospitais públicos estão preparados para atender essas mulheres de forma satisfatória?

A rede de saúde do brasil é muito heterogênea. Existem instituições sim muito preparadas e outras não tao preparadas. Então isso aí é uma questão que precisa se melhorada. Existem instituições de excelência e estados com serviços de saúde melhores do que outros, por exemplo.

Ao identificar um indício da doença, como a mulher deve proceder?

Se a mulher apalpar alguma lesão, nódulo ou caroço suspeito na mama deve procurar o serviço de saúde o mais rápido possível para passar por avaliação médica e indicação de exame, como mamografia e também biópsia. O ideal é que essa pessoa não tenha medo do diagnostico porque quanto mais precoce o diagnostico for feito, maiores são as chances de cura da doença. É melhor pecar pelo excesso. Se tem duvida que tem alguma coisa procure o medico. Não fique com medo.

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