Cristovam Buarque: Rasgando dicionários

Faz 70 anos, a China era símbolo de pobreza, desigualdade social, submissão colonial, atraso científico e tecnológico. Em 1º de outubro de 1949, o Partido Comunista tomou o poder e começou um processo histórico com o propósito de conquistar independência, forçar industrialização, construir igualdade, desenvolver ciência e tecnologia, adquirir estabilidade política. Esse novo país, enfrentou décadas de isolamento internacional, retrocesso social, desagregação econômica, conflitos internos.

Hoje, pela atual estabilidade e consistente perspectiva, pode-se dizer que a China é a principal superpotência do futuro. Estados Unidos, União Europeia, Rússia e Índia podem ser consideradas nações com dimensões similares, mas são divididas por partidos, corporações, até mesmo nações internas que desejam o poder. Nenhuma delas têm a coesão e o rumo da China.

Nos outros países, o avanço técnico e científico é resultado do esforço individual ou empresarial; na China vem do esforço nacional: empresas, universidades, indivíduos, corporações e governo têm na C&T um propósito comum. O avanço chinês se deve à reforma das estruturas do passado, e ao planejamento para seguir em frente.

A estruturação do poder por dentro de um partido único assegura não apenas continuidade sem reviravoltas eleitorais, serve também para escolher líderes com base em serviços prestados, evitar aventureiros, demagogos, populistas, incompetentes e corruptos. A China implantou uma forma política de dar continuidade às decisões, pelo debate permanente dentro do partido, no lugar do debate a cada quatro anos entre partidos.

Obviamente, esse sistema se choca com as definições ocidentais de democracia baseadas nos interesses de indivíduos aglutinados em cada eleição, até o próximo pleito, quando nova maioria aposenta a anterior. Diferentemente da primazia da soma dos indivíduos formando maioria, a China adota um sistema coerente com sua cultura de coletivismo e meritocracia. Diferentemente do molde soviético, na China tudo indica que há um debate interno no partido único de baixo para cima, em conexão com o conjunto da sociedade. De fato, a China não cabe nos nossos dicionários.

Tampouco sua economia cabe dentro do verbete capitalismo, ainda menos no conceito de comunista. Ainda sem nome próprio, o sistema com características chinesas pratica a visão de que não se constrói justiça social sem eficiência econômica, nem justifica esta eficiência sem atender às demandas sociais. A China está inventando um novo modo de combinar economia e sociedade.

Isso é possível pela valorização do mérito de cada pessoa para conquistar fortuna ou prestígio. Reforçada a partir de 1978, esta visão tem mais de dois mil anos, desde que Confúcio consolidou a ideologia do coletivo, do mérito e da valorização suprema da educação como escada social para o indivíduo, e alavanca para o progresso do país, ao mesmo tempo que é uma forma de servir à família, ao clã, ao povo e à nação.

É graças ao reconhecimento e valorização do mérito que a China consegue dar um salto gigantesco em inovação. O radical compromisso com o avanço técnico faz parte da alma chinesa, como também o cuidado para proteger os que não conseguem se adaptar ao avanço, os sem-emprego devido à 4ª Revolução Industrial. A China consegue reunir a ansiedade pelo progresso com o atavismo pela tradição. Para tanto, ela é quase sinônimo de educação em todos os níveis; onde o trabalho escolar das crianças pode ser decorar poesias escritas há mil anos e entender as bases da inteligência artificial para os próximos dez anos. Com seus 300 milhões de crianças, ainda não se pode considerar que sua educação está entre as melhores do mundo para todos, mas vai estar dentro de 20 a 30 anos. O dicionário chinês é capaz de não separar inovação de tradição.

Ao fundir 40 anos de economia capitalista dentro das sete décadas de revolução comunista, a China ensina que os dicionários de ideias antigas não servem para definir o que acontece por lá. Para eles o bem público não é sinônimo de grátis, porque eles não escondem que sempre alguém paga pelo que alguns recebem de graça. Por isso, a escola cobra uma pequena mensalidade. O modo chinês não pode nem deve ser copiado na cultura individualista e imediatista do Ocidente, mas, se queremos avançar, é preciso copiar dos chineses sua liberdade na formulação de conceitos: perceber que as explicações da realidade presente e os sonhos utópicos não cabem nos dicionários do passado. (Correio Braziliense – 08/10/2019)

Cristovam Buarque, professor emérito da UnB (Universidade de Brasília)

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