César Felício: Todos frágeis para 2022

Se economia limita Bolsonaro, oposição está fragmentada

Pesquisas qualitativas encomendadas pelo mercado financeiro constataram, no começo de janeiro, que o presidente teria um prazo de 24 meses, aproximadamente, para começar a gerar emprego e promover crescimento, sem trazer inflação de volta.

Esta era a tolerância dada pela maioria dos grupos de discussão antes de que se começasse a debitar na conta de Bolsonaro a responsabilidade pelo cenário econômico, independentemente da culpa ser dele ou não.

São dois anos que o presidente tem para apresentar resultados, já se passou um terço deste prazo, as perspectivas são modestas e a tensão entre Bolsonaro e o seu principal ministro deve começar a se manifestar.

Para Paulo Guedes, a data para tirar as panelas do fogo termina antes. Essencialmente o ministro precisa oferecer ao presidente liquidez, dinheiro na mão, para o governo manter a máquina em funcionamento e ter alguma narrativa a oferecer para os que passam a noite em filas no Anhangabaú procurando emprego, como mostrou a coluna de Maria Cristina Fernandes, publicada ontem. Este povo, hoje, não tem motivos para apoiar o presidente. Não é razoável pensar que Bolsonaro esperará a bomba estourar no seu colo dentro de um carro estacionado.

Na área econômica, Bolsonaro vive das expectativas que desperta nos escritórios da Faria Lima, mas não tem o capital para queimar. Concorrer à reeleição em meio a uma crise econômica, como tudo sugere ser o caso de Jair Bolsonaro em 2022, por si só não é sinônimo de morte política, desde que se conte com um colchão. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso reelegeu-se com praticamente a mesma votação obtida quatro anos antes, em um contexto de aumento significativo do desemprego e com a economia em forte desaceleração.

A âncora cambial, contudo, reduziu a inflação naquele ano para o mais baixo índice registrado na segunda metade do século 20. O governo federal será capaz de criar alguma bolha semelhante? A conferir. Em 1998 isto foi o que bastou para contrabalançar os fatores negativos e os dois movimentos do cenário político: a união da oposição esquerdista com a aliança entre Lula e Brizola e a dissidência na base governista, representada pela saída de Ciro Gomes do PSDB. Não há nada semelhante à vista para ajudar Bolsonaro agora.

A oposição em 1998 perdeu, mesmo tendo cumprido o manual básico: fez alianças e aproveitou as divisões do governismo. É alvissareiro para Bolsonaro o fato dos seus maiores adversários levarem a disputa por protagonismo a um ponto que impede qualquer união, o que deve ficar claro já nas eleições do próximo ano. Melhor ainda para o presidente a dificuldade de seus opositores de promover a renovação.

Um contraste com o caso brasileiro pode ser visto na Argentina. Como um analista político do mercado observou, não é apenas o insucesso econômico de Mauricio Macri que explicará sua mais que provável derrota. Ela se dará também pelos méritos políticos de seus adversários.

A ex-presidente Cristina Kirchner, de longe, era a principal liderança da oposição, o que deixava até o começo do ano Macri em posição confortável: o nível de rejeição de Cristina quase rivalizava com o seu. Então Cristina surpreendeu a todos: ficou de vice na chapa e colocou como candidato um político que tem expressão muito menor, ainda que não seja um poste. Este político – Alberto Fernández – era um dos principais articuladores do peronismo dissidente.

Com este movimento, o peronismo se reaglutinou em torno de Fernández, reduzindo terceiras vias à insignificância.

No Brasil, a transferência da candidatura do PT de Luiz Inácio Lula da Silva para Fernando Haddad no ano passado não elevou a estatura do ex-prefeito de São Paulo no debate político de hoje para um patamar condizente com o de sua votação em 2018. O ex-prefeito nem adquiriu luz própria, nem está conseguindo agregar. Não une sequer o PT. Não está claro se o PT deseja em 2022 disputar de fato o poder ou se ficará limitado a defender a libertação de seu líder máximo. É assombroso, mas hoje Ciro Gomes – terceiro nas eleições, com menos da metade da votação de Haddad – consegue ser a figura de maior visibilidade no universo oposicionista. E são conhecidas as limitações do pedetista para liderar a oposição.

Luciano Huck conta com um discurso azeitado, um embrião de base política com os deputados eleitos pelos movimentos de renovação e articuladores em potencial competentes, cada um em sua esfera, como Paulo Hartung, Eduardo Mufarej e Arminio Fraga. Mas o apresentador e empresário está muito distante do ponto além do qual não há retorno. As caravelas estão intactas, não foram queimadas e sua candidatura portanto é apenas uma conjectura.

No campo da centro-direita alternativa à Bolsonaro, a avaliação de quem observa a cena no mercado financeiro é que o governador de São Paulo, João Doria, se firma no PSDB, mas com grandes dificuldades de sedimentar apoios. O seu afastamento de Geraldo Alckmin entre 2017 e 2018 ainda produz efeito na classe política, pouco estimulada a firmar com Doria compromissos implícitos de longo prazo. Com Doria só se conversa à luz do dia, e na política há acertos feitos que não são sequer verbalizados: os gestos bastam. Para que isso funcione, confiança é tudo.

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, chama atenção pela audácia, mas parece ser uma figura extremamente vulnerável, do ponto de vista econômico e político, às consequências de um rompimento com Bolsonaro.

Se a economia em nada ajuda o projeto continuísta, o beneficia a debilidade das alternativas. Cada uma parece inviável à sua maneira.

Retrocesso

De todos os retrocessos promovidos pela Câmara com a aprovação das mudanças das regras eleitorais, um merece especial realce: abriu-se uma brecha para que um partido formalize a candidatura de alguém inelegível pela Lei da Ficha Limpa. O exame da inelegibilidade poderia ser feito até a data da posse. É desnecessário argumentar sobre o potencial desestabilizador da norma. Mas este é um disparate entre tantos. Ao aceitar patrocinar esta vitória do baixo clero da Câmara frente à opinião pública, Rodrigo Maia mostrou que seu plano de voo em 2022 parece ser menos ambicioso do que o que poderia se imaginar. (Valor Econômico – 20/09/2019)

César Felício é editor de Política. Escreve às sextas-feiras – E-mail: cesar.felicio@valor.com.br

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