Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (06/09/2019)

MANCHETES

O Globo

Bolsonaro escolhe nome fora da lista tríplice para PGR
Presidente veta 36 pontos da lei de abuso de autoridade
Planalto recua sobre o fim do teto de gastos
Guedes zomba de Brigitte Macron: ‘É feia mesmo’
MP: Queiroz agiu para blindar Flávio
Combate ao fogo na Amazônia terá R$ 1 bilhão da Lava-Jato
Metrô fecha buracos onde enterrou R$ 1 bi
Crivella manda recolher livro em quadrinhos
Irmão de Boris Johnson deixa Ministério da Educaçãop

O Estado de S. Paulo

Aras na PGR contraria Moro, MPF e apoiadores de Bolsonaro
Presidente veta 19 dos 44 pontos da Lei de Abuso
Planalto desiste de mexer na lei do teto
Brasil e Argentina terão livre-comércio de veículos em 2029
Multa da corrupção na Petrobrás vai combater queimada

Folha de S. Paulo

Bolsonaro despreza lista e indica Augusto Aras à PGR
Motoristas param ônibus e anunciam greve em SP
Guedes estuda medidas de combate ao desemprego
Prédios superam casas em área construída em SP
Facada, após um ano, inspira teorias conspiratórias
Lei de abuso de autoridade é sancionada com 19 vetos
‘Ela é feia mesmo’, diz Guedes sobre mulher de presidente francês
Varejista da moda H&M suspende as compras de couro brasileiro
Governo trava 38% do orçamento do Inpe para monitorar queimadas
Fundo de R$ 2,6 bilhões da Lava Jato irá para Amazônia e educação
Mortes de adolescentes não acompanham queda de homicídios em SP

Valor Econômico

Retórica agressiva e PIB travado afastam investidor
Medidas de exceção para conter gastos
Destravar obras, a missão de Aras
Saque do FGTS pode afetar investimentos
MP deve ativar os títulos do agronegócio
Vale ‘duela’ em Londres por US$ 1,2 bi
Ouro, um negócio que mistura o legal e o ilegal

EDITORIAIS

O Globo

Mudar teto de gastos é retrocesso, com alto risco

Resultado político seria jogar pela janela todo o esforço de ajuste fiscal realizado nos últimos anos

Palavras têm consequências, sobretudo quando ditas pelo presidente da República. Na quarta-feira, Jair Bolsonaro defendeu a revisão imediata do limite aos gastos públicos. Na manhã de ontem, ele recuou e defendeu a preservação do teto de gastos em mensagem divulgada por uma rede social: “Temos que preservar a ‘emenda do teto’. Devemos sim, reduzir despesas, combater fraudes e desperdícios. Ceder ao teto é abrir uma rachadura no casco do transatlântico.”

Talvez tenha convencido alguns seguidores, mas o estrago já estava feito. Emulou discussões no governo e no Congresso, ontem, sobre “fórmulas” para mudar a base de cálculo das despesas públicas. Pela legislação em vigor, o aumento de gastos de um ano fiscal para outro deve ter correção limitada à inflação do exercício anterior. Ou seja, sem crescimento real. Mudar isso, hoje, representa retrocesso, com alto risco implícito de instabilidade política e econômica.

Bolsonaro pode atribuir boa parte dos seus erros políticos à impulsividade, como se tornou costume alegar nos bastidores do Palácio do Planalto. Porém, há limites. Eles estão implícitos nos prejuízos que possam vir a ser debitados no bolso dos contribuintes, ou seja da sociedade brasileira.

Foram décadas de descontrole dos gastos públicos que levaram o Brasil a um longo ciclo de baixo crescimento econômico, pontuado por uma recessão histórica, desemprego recorde, empobrecimento e perda de qualidade de vida.

Felizmente, já é possível afirmar que o país começou a construir uma saída política consensual para impor disciplina fiscal e resgatar a União, os estados e os municípios da virtual falência.

Uma evidência está na recente legislação sobre o controle de gastos governamentais, importante legado do governo Michel Temer. Outra é o rito de tramitação legislativa da reforma da Previdência, coincidentemente aprovada numa comissão do Senado, por unanimidade, no mesmo dia do intempestivo pronunciamento de Bolsonaro.

A defesa presidencial de um relaxamento no controle das contas equivale, na prática, à proposta de um “jeitinho” na contabilidade governamental. O resultado político seria jogar pela janela todo o esforço de ajuste fiscal realizado nos últimos anos.

Pressões são naturais, no governo e fora dele, pois o panorama orçamentário do próximo ano é bastante restrito no lado das despesas, impondo duras negociações. Ministros e parlamentares podem se queixar do aperto, mas estão obrigados a definir as prioridades de gastos.

O presidente, porém, tem um dever adicional: zelar pelo ajuste fiscal estabelecido em lei. Rever, agora, o teto de gastos é contrariar a principal promessa de campanha apresentada pelo candidato Bolsonaro na eleição do ano passado.

O Globo

Cidade precisa de um plano para reduzir impacto das chuvas

Rio voltou a sofrer transtornos, embora índices pluviométricos tenham sido moderados

Bastou uma chuva, não mais que moderada, para que a cidade revivesse ontem, em pleno inverno, transtornos típicos dos temporais de verão. Uma análise dos índices pluviométricos do Alerta Rio, por volta das 14h30m de ontem, mostrava números modestos. Alguns poucos bairros, como Rocinha (107,2 mm), Alto da Boa Vista (66,4 mm) e Jardim Botânico (42,8 mm), registraram volumes maiores num período de 24 horas. Nada catastrófico. Porém, percebe-se que a cidade não está preparada para as chuvas, sejam fortes, moderadas ou fracas.

Os bolsões d’ água estavam por toda parte, tornando ainda mais infernal o já caótico trânsito da cidade. Certamente as poças se formaram menos pela quantidade de chuva e mais pela histórica incapacidade da prefeitura em desobstruir bueiros e galerias de águas pluviais. Situação agravada pelos cortes nos orçamentos da Secretaria municipal de Conservação (44% entre 2016 e 2018), da Fundação Rio Águas (56%) e da Geo-Rio (66%), como mostrou reportagem do G1 publicada em abril deste ano.

Mais uma vez, deslizamentos de terra causaram transtornos aos cariocas. Na manhã de ontem, a Estrada Dona Castorina, no Alto da Boa Vista, foi interditada nos dois sentidos, depois que um trecho da pista (entre a Pacheco Leão e a Estrada da Gávea Pequena) afundou durante as chuvas. A via serve de acesso a pontos turísticos como a Vista Chinesa e a Cachoeira do Horto. No sábado, reportagem do GLOBO já havia mostrado que outros trechos da estrada apresentavam rachaduras.

A verdade é que o Rio sequer se recuperou dos estragos dos temporais de 6 de fevereiro, que deixou sete pessoas mortas, e de 8 de abril, que matou dez. A Avenida Niemeyer, onde houve deslizamentos de terra e pedra, permanece fechada, ainda sem data para reabrir. Na Joatinga, a Rua Paschoal Segreto está bloqueada por um muro que desabou há sete meses. Perto dali, na Rua José Pancetti, o asfalto cedeu sobre a quadra de tênis do Clube Costa Brava.

Enchentes e deslizamentos de terra são problemas crônicos do Rio e têm sido notícia nas páginas do GLOBO ao longo de seus 94 anos. Não decorrem apenas da força da natureza, mas também da incompetência de sucessivos governos para resolver o problema ou, ao menos, minimizá-lo. A ocupação irregular nas encostas é um exemplo. A leniência do poder público fez perpetuar o risco iminente de tragédias.

A cidade precisa executar um plano para chuvas. Por óbvio, não há como impedi-las, mas pode-se reduzir drasticamente seus efeitos. Faltam organização, método e liderança política. Não é possível que o Rio não consiga resolver um de seus problemas mais antigos, um desafio que atravessa os séculos.

O Estado de S. Paulo

Novo acerto em novo recuo

Ao recuar da intenção de mexer no teto de gastos, Jair Bolsonaro repetiu um quase ritual. Mudar de ideia é elogiável, mas mais prudente é pensar antes de falar

Recuando mais uma vez, o presidente Jair Bolsonaro decidiu defender a manutenção do teto de gastos, em vez de propor o afrouxamento da regra orçamentária. Romper o teto seria “abrir uma rachadura no casco do transatlântico”, afirmou ele, ontem de manhã, em sua conta no Twitter. Como em outras ocasiões, o recuo foi acertado. No dia anterior, quarta-feira, o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, havia dado à imprensa uma informação diferente. Segundo ele, o governo estudava medidas para mexer na restrição e aumentar as despesas sem elevar impostos. O presidente, segundo informou o Estado, tinha ido ao Ministério da Economia para conversar sobre o assunto com o ministro Paulo Guedes. A mensagem postada na manhã seguinte mostrou, sem acrescentar explicação, uma saudável mudança de propósito.

O ministro Paulo Guedes vinha resistindo, como já se havia noticiado, a pressões da Casa Civil e da cúpula militar a favor de um relaxamento da regra do teto. Essa regra, criada por emenda constitucional no governo do presidente Michel Temer, só permite corrigir pela inflação a despesa orçamentária. Ainda na quarta-feira, o presidente havia de novo reclamado, diante de jornalistas, em Brasília, do aperto previsto na proposta de Orçamento para 2020. Horas depois a decisão de mudar o limite seria informada pelo porta-voz.

A solução para as finanças públicas, disse o presidente na mensagem de ontem cedo, é reduzir despesas e combater fraudes e desperdícios. “O Brasil vai dar certo. Parabéns a nossos ministros pelo apoio às medidas econômicas do Paulo Guedes”, acrescentou.

De fato, a solução deve incluir a redução das despesas, mas falta o presidente esclarecer suas ideias sobre o assunto. Diminuir gastos com eletricidade é uma das ações mencionadas pelo Twitter. Além disso, o governo insiste em fundir Ministérios. A nova ideia é juntar os do Meio Ambiente e do Turismo, os da Cidadania e dos Direitos Humanos e os da Infraestrutura e do Desenvolvimento Regional. A economia deverá ser marginal, se todos os setores envolvidos continuarem operando normalmente, e os ganhos de eficiência são pouco claros. As limitações desse tipo de ação já foram comprovadas com as fusões implantadas no começo do mandato. O Ministério da Cidadania, reunindo políticas de desenvolvimento social, esporte, cultura e controle de drogas, é um exemplo de ornitorrinco administrativo.

Em quase nove meses de mandato o presidente Jair Bolsonaro nunca deu sinal de alguma competência administrativa. Seus atos mais vistosos têm denotado, de forma repetida, uma grave confusão entre governar e dar ordens como um chefete voluntarioso. Mostram também uma persistente mistura entre vida pessoal e vida político-administrativa.

Se tivesse noções um pouco mais claras de como administrar, e, portanto, de como governar, ele teria evitado uma porção de recuos. Teria de fato escolhido ministros dando mais peso à competência do que ao alinhamento ideológico e religioso. Teria consultado assessores antes de opinar, de prometer e de tomar decisões.

Seguindo esse padrão, teria conversado seriamente com Paulo Guedes antes de insinuar qualquer mexida na regra do teto. Teria sido cauteloso, em vez de anunciar a mudança da embaixada em Israel para Jerusalém. Acabou recuando nesse caso, alertado, finalmente, do risco de comprometer exportações para países muçulmanos. Teria evitado, nos Estados Unidos, acusar de más intenções a maioria dos imigrantes, para depois se retratar. Nem teria cogitado de mencionar, como em janeiro, a possível instalação, no Brasil, de uma base militar americana.

A recuar da intenção de mexer no teto de gastos, o presidente repetiu um quase ritual. Acertou, como em outras ocasiões. Mudar de ideia, quando necessário, é elogiável. Mas por que recuar tantas vezes? Também elogiável, e muito mais prudente, é pensar antes de falar, consultar quem conhece cada assunto e, no caso de um governante, distinguir os verbos mandar e governar e jamais confundir autoridade com autoritarismo.

O Estado de S. Paulo

Luta pela liberdade

Será muito difícil conter o desejo latente da população de Hong Kong por liberdade e democracia

A escalada dos protestos pró-liberdade em Hong Kong levou a líder executiva do território chinês, Carrie Lam, a recuar e retirar um projeto de lei que autorizava a extradição de pessoas processadas judicialmente para a China continental. A apresentação do projeto de lei, em março, desencadeou uma onda de manifestações contrárias, na pior crise política na cidade em muitos anos.

Desde junho, aumentou a tensão no território chinês, que tem o status de Região Administrativa Especial dentro da política de “um país, dois sistemas”. Após o recuo de Lam, espera-se que os ânimos arrefeçam. Será muito difícil, porém, conter o desejo latente da população de Hong Kong por liberdade e democracia.

O aumento recente das tensões geopolíticas e econômicas entre a China e os Estados Unidos agravaram ainda mais a situação em Hong Kong. Pequim tem tratado dos protestos como uma questão de soberania e segurança nacional, não admitindo emitir ao mundo qualquer sinal de fraqueza ao lidar com a crise em seu território, ex-colônia britânica até 1997.

No final de agosto, a repressão aos protestos atingiu seu ápice. Pela primeira vez, a polícia de Hong Kong usou caminhões de jatos d’água e bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes pró-democracia, que revidaram com bombas incendiárias. Houve relatos de uso de arma de fogo por um agente público, mas sem feridos.

Em reunião com um grupo de empresários locais, Carrie Lam admitiu ter “um espaço de manobra muito limitado” para resolver a crise política, vale dizer, está totalmente submetida ao comando de Pequim, embora Hong Kong, oficialmente, goze de relativa autonomia política e, sob o ponto de vista econômico, aproxime-se bem mais dos países ocidentais.

Ao grupo, Lam afirmou ainda ter causado “um dano imperdoável” ao apresentar o projeto de lei de extradição. O recuo foi um gesto prudente de quem, no mínimo, se mostra disposta a rever seus atos quando produzem “danos” tais como os observados em Hong Kong até agora.

O receio da população em relação ao projeto de lei, em boa hora retirado, deve-se ao fato de que a extradição, uma vez aprovada, submeteria os habitantes de Hong Kong aos tribunais chineses, que são controlados pelo Partido Comunista. Não é, portanto, um receio infundado. Como confiar na prevalência de garantias processuais comezinhas em tribunais controlados por um regime de exceção?

A lei de extradição proposta por Carrie Lam foi apenas mais um gatilho para o início de uma nova série de protestos que tendem a continuar ocorrendo de tempos em tempos. Em 2014, vale lembrar, os habitantes de Hong Kong foram às ruas reivindicar mudanças no sistema eleitoral, no que ficou conhecido como a “Revolta dos Guarda-Chuvas”. Os atos levaram à queda do então líder executivo do território, Leung Chun-ying.

Ao fim e ao cabo, os habitantes de Hong Kong, um dos maiores centros financeiros da Ásia, lutam contra a distorção da política de “um país, dois sistemas” que foi pactuada à época da devolução da ex-colônia britânica aos chineses. Ela prevê liberdades no território que são impensáveis para os cidadãos da China continental, como direito ao voto para representação legislativa. Ao longo dos anos, essas liberdades têm sido tolhidas por Pequim. Na prática, caminha-se para “um país, um sistema”, um sistema de censura, repressão violenta e supressão de liberdades, embora a China tenha se comprometido com o Reino Unido a manter os termos de “um país, dois sistemas” por 50 anos, ou seja, até 2047.

“Sabemos que esta é a última chance de lutarmos por ‘um país, dois sistemas’. Do contrário, o Partido Comunista da China vai invadir nossa cidade natal e controlar tudo. Se nos mantivermos fortes, podemos seguir com este movimento por justiça e democracia”, disse o engenheiro M. Sung, que tem participado das manifestações desde março.

Ninguém sabe como será a relação China-Hong Kong após 2047. O que se sabe é que até lá a liberdade terá de ser uma conquista diária.

O Estado de S. Paulo

A política e as redes sociais

Desafio da democracia é fazer com que essa incrível reunião de vozes seja de fato diálogo

As inovações tecnológicas têm propiciado profundas mudanças sociais, que, por sua vez, têm consequências políticas. As redes sociais, por exemplo, aproximaram os cidadãos das autoridades públicas, num contexto de maior transparência. As novas tecnologias também permitiram um novo patamar de interação entre os cidadãos, com inéditas possibilidades de intercâmbio de ideias, projetos e iniciativas. O mundo ficou menor e isso é muito positivo para a democracia.

Ao mesmo tempo, as redes sociais são palco de fenômenos que preocupam, como a polarização política, a disseminação de fake news e a falta de respeito por quem pensa de forma diferente. Não raro, a liberdade experimentada nas redes sociais não sabe conviver com o pluralismo e a liberdade de pensamento. Para debater esse mundo em transição, o Estado e a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps) realizaram, em Brasília, o seminário “Desafios da Democracia no Brasil: Inovação e Representação num Mundo Hiperconectado”.

Ao tratar das condições para melhorar a representação política, Mônica Sodré, diretora executiva da Raps, falou da necessidade de não impor a todos os políticos o rótulo de corrupto. “O primeiro passo é não criminalizar os políticos. Não são todos iguais, não são todos ruins”, disse Sodré, lembrando que não criminalizar a política no Brasil é fundamental para atrair novos candidatos nas eleições e estimular a participação mais ativa de jovens na política nacional.

Um diagnóstico da política sem generalizações caluniosas é um desafio especialmente importante nos dias de hoje, quando muitos utilizam as redes sociais precisamente para difamar o Legislativo e, de sobra, o Judiciário. Tornou-se corrente tratar o Congresso como desonesto e corrupto, como se tal acusação fosse uma verdade incontestável. Além de não corresponder aos fatos, esse modo de proceder acaba por afastar lideranças jovens e idealistas da política.

Ao falar do acirramento que se observa na população por questões políticas, o cientista político Fernando Guarnieri distinguiu a polarização ideológica do que chamou de polarização afetiva, relacionada à agressividade. “Na polarização afetiva, um grupo não conversa com o outro, quer aniquilá-lo. É isso que o populismo faz, força limites da democracia e da civilidade, com posturas incivilizadas nas redes. (…) Pessoas adotam um discurso do ódio, virulento, porque assim chamam mais a atenção e criam vínculos fortes com seu grupo e, cada vez mais, acentuam uma apreciação negativa por parte do outro grupo. Temos que buscar reduzir essa polarização afetiva, mas não a ideológica, que é boa para a democracia, pois, quando os políticos assumem uma posição, ajudam a distinguir melhor as propostas e seus pontos de vista”, disse Guarnieri.

Eis aqui outro ponto fundamental da política numa sociedade democrática. O embate de ideias e propostas é consequência necessária da liberdade política e do pluralismo. É um equívoco muito empobrecedor – e perigoso – achar que a sociedade ideal deveria se encaminhar para consensos plenos e universais. O embate de ideias e as disputas ideológicas são sintomas de uma democracia saudável. O que é prejudicial à democracia é a beligerância com quem pensa de forma diferente.

Assim, é necessário respeitar e valorizar a divergência de opiniões, por mais díspares que elas sejam. Não há nada mais antidemocrático do que forçar que todos pensem da mesma forma. O alerta vale para todos os espectros ideológicos. Também aqui há um longo caminho de aprendizagem no uso das redes sociais – e isso vale tanto para os cidadãos como para as autoridades. Ao comentar o fato de que quase todos os líderes mundiais utilizam o Twitter, Fernando Gallo, gerente de políticas públicas da empresa no Brasil, ressaltou que essa comunicação não é uma mão de via única. Mais vozes podem ser ouvidas pelos governantes. O desafio da democracia contemporânea é fazer com que essa incrível reunião de vozes seja de fato diálogo, e não monólogo, barulho ou xingamento.

Folha de S. Paulo

Moro resiste

Apesar de desgaste, ministro mantém aprovação e o nome no tabuleiro político

Sergio Moro continua a ser o ministro mais popular do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Considerado ótimo ou bom por 54% dos brasileiros que dizem conhecê-lo, o titular da Justiça, em pesquisa Datafolha, supera por larga margem o segundo mais bem avaliado de seus colegas, Paulo Guedes, da Economia, com 34%. Deixa também a comer poeira o próprio mandatário, que colheu não mais de 29% de aprovação.

Tamanha popularidade, obviamente, não foi construída em oito meses nem se deve à atuação do ex-juiz de Curitiba no Executivo federal —seu desempenho até aqui não deixou marcas notáveis.

Trata-se, sem dúvida, de herança de seu trabalho à frente da Operação Lava Jato, num país em que condenar ricos e poderosos à prisão sempre foi raridade.

Após se projetar como referência nacional do combate à corrupção, Moro decidiu investir numa carreira política. Sua passagem da magistratura para o governo federal decerto se materializou antes do que muitos esperavam.

Ao aceitar a oferta para comandar um suposto superministério da Justiça, Moro assumiu riscos, que a esta altura já se transformaram, diga-se, em problemas reais.

Em pouco tempo na função, sofreu reveses contundentes em importantes bandeiras e tem sido alvo de investidas do presidente que questionam sua autoridade —caso notório das mudanças em pauta no comando da Polícia Federal.

Tanto Bolsonaro quanto membros do Legislativo e do Judiciário, não raro com motivações duvidosas, têm atuado para diminuir o protagonismo de promotores e de órgãos de investigação e controle.

Dentre as derrotas sofridas, o ministro viu frustrar-se a tentativa de transferir o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) da área econômica para sua alçada, movimento que favoreceria a cruzada anticorrupção.

A novidade não passou no Congresso, e o órgão, rebatizado como Unidade de Inteligência Financeira, hoje se encontra no Banco Central.

Não avançou, até aqui, a principal incursão do ministro na seara legislativa, o pacote que busca endurecer regras contra a criminalidade, com boa dose de controvérsia.

Em meio a iniciativas do Congresso no mesmo ramo e à necessidade de colocar em primeiro plano a reforma da Previdência, o projeto perdeu urgência na agenda da Câmara. Mais recentemente, lançou-se um programa de segurança pública de modestos montantes.

Por fim, houve o vazamento de mensagens trocadas entre Moro e membros da força-tarefa da Lava Jato —obtidas pelo site The Intercept Brasil e divulgadas também por esta Folha e outros veículos.

Não deixa de ser um feito que a popularidade do ministro resista a tantos contratempos. Sinal, ao que parece, de que seu nome permanecerá no tabuleiro político.

Folha de S. Paulo

Reino partido

Parlamento britânico impõe derrotas a Boris Johnson nas tratativas do brexit

A semana não foi auspiciosa para o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson. Após manobrar para encolher o tempo que o Parlamento terá para discutir a saída do país da União Europeia, o líder conservador recebeu o troco dos deputados, que lhe impuseram sucessivas derrotas nos últimos dias.

Depois de tomar na terça (3) o controle da agenda parlamentar, a Câmara dos Comuns aprovou, no dia seguinte, proposta que obriga o governo a pedir à UE prorrogação de três meses no prazo para o brexit, caso não se alcance um acordo sobre os termos da ruptura.

O objetivo é evitar que o país deixe o bloco no dia 31 de outubro de forma caótica e desordenada, com potenciais prejuízos à economia. A posição não encontra respaldo no Parlamento, mas tem sido defendida de forma intransigente por Johnson, que alega a necessidade de ter essa carta na manga para sua estratégia de negociação.

O principal impasse se dá em torno da fronteira entre a Irlanda, integrante da União Europeia, e a Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido. O temor é que a criação de barreiras possa reavivar o sangrento conflito entre nacionalistas norte-irlandeses (simpáticos à fusão com a Irlanda) e os partidários da autoridade britânica.

Johnson rechaçou as negociações conduzidas por sua antecessora, Theresa May, mas não apresentou solução alternativa.

A rebelião parlamentar contou com o apoio de correligionários e abriu crise no Partido Conservador, levando à expulsão de 21 rebeldes. Até Jo Johnson, irmão do primeiro-ministro, renunciou a sua cadeira no Parlamento.

Logo após ter sofrido sua primeira derrota, na quarta, Johnson submeteu aos deputados um pedido de novas eleições em 15 de outubro. Perdeu novamente. Há na oposição o temor de que um pleito agora poderia dar ao mandatário a chance de impor um brexit sem acordo ao fim da data-limite.

Ainda é pouco claro, contudo, como a questão vai se desenrolar nas próximas semanas. Não se pode descartar a hipótese de que o caso termine judicializado.

De todo modo, parece inevitável que nova eleição venha a ocorrer no curto prazo —o governo, afinal, nem conta mais com maioria legislativa, após um deputado desertar para a oposição nesta semana.

Embora uma vitória clara de um dos lados deva colaborar para desenredar o debate, um Parlamento mais fragmentado pode deixar o Reino Unido numa paralisia ainda mais grave que a atual.

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