Raimundo Lobão: A relevância do livro “Por que falhamos”

Tive o privilégio de ler o livro “Por Que Falhamos”, de sua lavra. Didático, de fácil entendimento, consistente, agradável de ler e de fundamental relevância para compreendermos os últimos 26 anos, de governos democratas-progressistas. E de sobra faz um diagnóstico perfeito, apontando intrinsicamente os caminhos que devemos seguir para se ter um Brasil menos desigual.

A forma e a narrativa do livro facilitam o entendimento de governança, dos 26 anos de poder dos democratas-progressistas, pela consistência histórica dos seus dados, influenciando, positivamente, pelo conteúdo isento de fanatismo e com autoridade de um professor republicano, que além da elegância e humildade na escrita, transmite esperança ao leitor.

A retrospectiva fiel dos fatos mostra os equívocos de agentes políticos dos governos democratas-progressistas, nesses 26 de anos, que nunca assumiram os erros e nem se retrataram perante a população.

A consistência do texto é algo fantástico, e demostra a cultura, o saber científico do autor, e em especial, repito, a sua humildade, ao abordar o assunto com tanta autoridade, com serenidade, em linguagem espontânea, o que torna a leitura agradável.

Ademais, fica muito mais difícil contestar o autor pela seriedade na retrospectiva histórica dos fatos acontecidos nos últimos 26 anos de poder. Observando que o autor, sabiamente, não se restringiu somente à era Petista.

Podemos destacar alguns itens, onde houve resistência do governante maior do país, como: as reformas previdenciária, trabalhista, fiscal, etc., e ter optado em privilegiar o corporativismo, sindicatos, valorização do Estado no lugar do público. E ainda induz alguns dos nossos intelectuais a sugerirem que a luta contra a corrupção seria a crise econômica. Afirmativa sem consistência lógica.

Com as sábias palavras do autor que afirma “Deixamos o Brasil melhor do que herdamos, mas pior do que prometemos…”

Os gráficos, de autoria do autor, corroboram para o entendimento da leitura dessa triste realidade de nossa Pátria.

O autor destaca que a qualidade da escola pode ser incrementada, contemplando o filho do pobre e do rico estudando na mesma escola, com estrutura federal. Esse objetivo seria atingido com a desmunicipalização da educação de base em direção à federalização desse setor educacional. E que é possível erradicar o analfabetismo de adultos em quatro ou seis anos.

Que a utopia educacionista passou ao largo ao demonstrar que seria possível fazer isso em duas ou três décadas, como fez a Irlanda nos anos setenta, com um pacto nacional pela garantia de educação de qualidade para todos.

O autor faz uma análise fantástica do futebol – que não se faz somente com a bola. À violência urbana, acrescente-se ainda a especulação imobiliária, que praticamente eliminaram os campos de peladas, de chão batido. E a consequência é que só frequentarão os espaços desportivos privilegiados (clubes, colégios…), que serão pagos, limitando o acesso de parte da população, para selecionar os grandes talentos futebolistas. E a consequência disso, é possível se prever que a grande maioria dos atletas será de brancos e ricos. Que a bola continua redonda para todos.

O autor constata que não houve prioridade na edificação de novas escolas, que foi trocada pela construção de estádios, grandes obras que alimentam a corrupção…

No decorrer desses 26 anos de governo democrático-progressista, faz crítica, de forma elegante, aos que não assinaram a Constituição.

O autor afirma que “o nosso problema não foi excesso de ideologia, como dizem os adversários, mas a falta de capacidade intelectual para, com ousadia e lucidez, formular novas ideologias que se adaptem à realidade do mundo”. Estou de pleno acordo.

Que evoluímos na ideia de conservação das florestas, do ar e dos rios, mas defendendo o aumento da produção de carros, um lamentável paradoxo.

Que entregamos à direita o discurso da ética, do emprego, da segurança, do crescimento, do valor da moeda, fim das mordomias e privilégios… O respeito à meritocracia, condicionando a remuneração à eficiência e ao compromisso dos que se dedicavam ao serviço público com qualidade e respeito ao usuário.

Alerta para a escassez de recursos, e que o Tesouro Nacional não é um chapéu de mágico, que é só meter a mão que sai o dinheiro. O recurso é escasso e limitado.

E que em debates, alguns dos participantes se comportam como passageiros de um avião que, por raiva do piloto, torcem e contribuem para o avião continuar sem rumo, mesmo sabendo que o combustível está acabando…

Afirma que sem intelectuais livres, ousados, independentes, sérios, ficou difícil a realização da necessária autocritica…

Afirma que continuamos prisioneiros das siglas partidárias e preferimos nos aliar a corruptos e reacionários, nas coligações eleitorais…

E que terminamos os 26 anos com quase 12 milhões de pobres adultos que ainda não sabem ler… e que menos de 50%, dos filhos pobres concluíram o ensino médio, raramente com qualidade.

Que ainda não pedimos desculpas pelas consequências trágicas de nossos erros para o Brasil.

Sobre a foto do presidente Lula e as crianças de Toritama/PE:

Tragédia anunciada, constatada pelo autor, ao retornar ao mesmo local, 10 anos depois. E viu que aquelas ingênuas crianças já são mães e pais e alguns já foram apreendidos.

A foto em que está o presidente Lula é chocante ao mostrar a distância do presidente, separado (apartado) por uma cerca de arame farpado.

Grosso modo, lembra o terrível campo de Auschwitz, as crianças do outro lado da cerca de arame farpado. Ou como em nossos presídios, por ocasião da visita do advogado aos seus clientes (presos), que ficam em uma cela, separada, chamada de Corró, para contato com o seu defensor.

Em suma, nada justifica essa “apartação”, especialmente, em se tratando de crianças. Triste imagem!

E por derradeiro, afirma, que o Brasil, no entanto, é maior do que nós.

Obrigado e parabéns.

Raimundo Lobão

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