Roberto Freire: Ferreira Gullar – Poeta de alma livre e limpa

O impressionante na trajetória de Ferreira Gullar é o seu fio condutor de vida,
sempre atado aos princípios maiores da liberdade e da democracia

Desde os tempos de estudante de direito no Recife, conhecia a sua obra poética, mas somente com o processo de democratização, nos idos de 80, tive o prazer e o privilégio de ter contato pessoal com Ferreira Gullar.

Prazer pelo fato de compartilhar experiências inesquecíveis ao lado de um dos maiores poetas brasileiros, orgulho para qualquer cidadão; privilégio por poder beber em seu conhecimento cultural e sabedoria política.

Gullar, conforme entendo, foi um homem radical, no sentido mais generoso do termo. Concebeu ou participou de vários movimentos literários: concretismo, neoconcretismo e outros. Aprendeu e contribuiu com eles, não parou no tempo, não capitulou, seguiu em frente, com seus acertos e erros. Militou no PCB, morou na União Soviética e compreendeu que o modelo de sociedade que embalou os sonhos de várias gerações seguia rumos erráticos, estava fadado ao fracasso. A perestroika e a glasnost foram mortas no nascedouro. 

Mas Gullar não abandonou seus ideais de justiça, fraternidade, de liberdade, nem deixou de acreditar no Brasil.

Durante anos, muitas vezes na casa do casal de amigos comuns, Vera e o cineasta Zelito Vianna, no Rio de Janeiro, fizemos reuniões com conversas políticas agradáveis e produtivas. Ali, no Cosme Velho, juntavam-se comunistas, alguns já falecidos como Luiz Mário Gazzaneo, Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, além de Marcelo Cerqueira, dentre outros e outras, todos muito queridos. Nesses encontros dos “comuníadas”, o poeta Gullar, sempre presente, instigante e apontando rumos.

Cedeu sem ônus o seu poema “Homem Comum” que, depois de musicado, compôs o primeiro programa do PCB legalizado, que foi ao ar em rede nacional de tv. Tive a alegria também de ver um livro referente à minha trajetória política organizado por outro “comuníada”, Milton Coelho da Graça, prefaciado pelo poeta (a edição trouxe na “orelha” palavras do amigo José Serra). 

Ferreira Gullar sempre iluminou culturas, como o fez no Maranhão ao lado de outros nomes como Bandeira Tribuzi e o escritor José Sarney, onde sustentaram um inovador movimento pós-modernista.

O impressionante na trajetória de Gullar é o seu fio condutor de vida, sempre atado aos princípios maiores da liberdade e da democracia. É esse fio que sempre o ligou ao que se convencionou chamar no Brasil de “tradição pecebista”, que surgiu na década de 50, na dura autocrítica pós-stalinista, uma forma de se ver a política sem atalhos golpistas, sem comichões autoritários e populistas. Uma tradição frentista, de sempre privilegiar alianças na busca das grandes soluções para o país.

Para escrever uma obra da grandeza do “Poema Sujo”, só um homem de alma grande, limpa, livre e com muita brasilidade. Gullar tinha essa alma grande, livre e limpa. Bem brasileira. (Publicado no Blog Reformistas em 9 de setembro de 2020)