Landau, Schüler, Piquet e Pessôa: Associar liberalismo ao fascismo não é intelectualmente honesto

Autores se contrapõem a artigo de professores da USP que compara bolsonarismo ao movimento integralista

Professores da área de humanas da USP apresentaram na Ilustríssima uma extensa análise do Brasil dos últimos anos, argumentando que o governo Bolsonaro “ressoa discursos e estratégias de uma velha tradição fascista local”.

Além de classificarem o bolsonarismo como uma forma de neointegralismo, sugerem a existência de uma afinidade entre fascistas e liberais, que se estabeleceu com o objetivo de mutilar os interesses das classes trabalhadoras. O governo Bolsonaro surge qualificado como um tipo de “fascismo ultraliberal”.

A análise é instigante mas, em nossa visão, equivocada. Em primeiro lugar, há o risco do anacronismo histórico, de transpor conceitos de um contexto a outro ao sabor da polêmica e dos enquadramentos políticos de hoje. Em segundo lugar, há um risco conceitual. O fascismo foi, historicamente, sob qualquer ângulo de análise, a negação absoluta da democracia liberal.

Nossos colegas fazem eco a um velho argumento usado pelos partidos comunistas contra os liberais e os líderes dos governos democráticos que existiam na Europa durante o período entre as duas guerras mundiais.

Fascistas e comunistas tinham o sonho comum de produzir revoluções populares que destruiriam o que restava da ordem liberal democrática. Uns cultivavam a crença de que a revolução traria o fim da sociedade de classes e da propriedade privada; outros aspiravam restabelecer o Estado total e um passado nacional idealizado em tabernas e cervejarias.

Ambos alimentaram ilusões do homem novo, do Estado total, da negação dos direitos individuais e da emergência revolucionária de nova ordem social orgânica e não competitiva.

Não é intelectualmente honesto argumentar que exista qualquer conjunto significativo de ideias e fatos históricos que liguem liberalismo e fascismo. Diante da fúria destrutiva da revolução bolchevique que ameaçava a Europa no pós-Primeira Guerra, Mussolini foi saudado por muitos, de Churchill ao jornal The New York Times, como alguém que “salvou a civilização europeia” de uma grande ameaça.

No Brasil, não foram apenas Plínio Salgado e sua horda de duvidosa procedência que se animaram com os avanços do fascismo na Europa. O próprio ditador Getúlio Vargas acreditava estar diante do “início tumultuoso e fecundo” de uma nova era “incompatível com o individualismo” e com os “liberalismos imprevidentes” do passado.

Para além das tensões próprias daquele momento histórico e dos erros cometidos por muitos, o fato incontestável é que o pensamento liberal foi alvo direto do fascismo, do mesmo modo como viria a ser dos regimes socialistas, no pós-guerra.

Friedrich Hayek, Karl Popper, Ludwig von Mises e Raymond Aron, alguns dos principais pensadores liberais do século, foram todos exilados pelo nazifascismo. Dedicaram a vida a pensar a ordem social a partir de uma visão complexa da liberdade humana, envolvendo suas dimensões intelectual, política e econômica. Essas ideias serviram de base para o conceito contemporâneo de sociedades abertas e seu delicado equilíbrio entre a garantia de direitos, respeito a minorias, democracia política e economia de mercado.

Sociedades abertas se definem pelo reconhecimento de que não haverá acordo entre os cidadãos nos planos da ética, da religião, da estética ou da retórica política, em sentido amplo. Visões mais restritivas —como temos em Hayek ou Milton Friedman— ou mais exigentes quanto a direitos —como em John Rawls, Dworkin ou Norberto Bobbio— expressam distintos matizes dessa ideia da grande tradição liberal.

Maior ou menor desigualdade, modelos de crescimento, tributação, proteção social e regulação ambiental são temas abertos e resultados legítimos da escolha social. A legitimidade do sistema não se define pela obtenção deste ou daquele padrão distributivo, mas pelo acordo fundamental em torno das regras do jogo e o respeito a direitos individuais invioláveis.

Sua condição de possibilidade é o reconhecimento da legitimidade do outro. O outro com o qual não concordamos e que, por vezes, julgamos ter razão para odiar. Nesse plano, a estridência retórica, a banalização de conceitos como “fascista” ou “comunista” são pouco mais do que peças de entretenimento político. O liberalismo apela à tolerância e ao debate equilibrado que a democracia brasileira requer.

É sob esse entendimento mais amplo que fazemos a primeira pergunta relevante sobre o Brasil atual e o fenômeno Bolsonaro: o que levou quase 58 milhões de brasileiros a eleger um líder que atravessou a campanha eleitoral explicitando suas simpatias pelo regime de 1964 e por personagens emblemáticos do autoritarismo e da tortura, como o coronel Brilhante Ustra?

O país dispunha, nas eleições de 2018, de um rico leque de opções no campo da esquerda, da social-democracia e do liberalismo. Diante desse quadro, optou por Bolsonaro —político de vezo autoritário e corporativista, mas cujo sucesso eleitoral é resultado da democracia brasileira.

A vitória do capitão reformado é fruto da emergência de novas forças políticas na sociedade e do exercício legítimo da alternância de poder. É nessa dimensão que ele deve ser entendido por aqueles que comungam de uma visão plural da democracia.

Bolsonaro é, antes de qualquer coisa, o resultado de um processo de polarização política da sociedade brasileira muito anterior a sua eleição. A raiz contemporânea desse fenômeno remonta à retórica violenta da esquerda à época imediatamente anterior de sua chegada ao poder, com o “Fora, FHC” e seu esforço para estigmatizar e deslegitimar um governo de clara orientação social-democrata.

Apresentada, sob o clichê da época, como “neoliberal”, a gestão FHC implementou necessárias reformas modernizadoras (fim da inflação, programa de privatizações, responsabilidade fiscal, reforma do Estado) e uma extensa agenda social.

Esta incluiu o aumento real do salário mínimo em mais de 40%, a implantação do BPC (Benefício de Prestação Continuada), a consolidação do SUS, a universalização da educação fundamental, a promoção da reforma agrária e a criação dos programas de transferência de renda que levariam ao Bolsa Família.

Após uma transição exemplar na vida republicana brasileira (tema crucial e frequentemente subestimado pelos analistas), e contando com um clima favorável no Congresso (vamos lembrar o apoio da oposição à minirreforma da Previdência de Lula), o governo petista decidiu empreender uma nova onda de polarização. Dessa vez, tratou-se de uma lógica movida a partir do próprio Estado, com seu bordão “nunca antes neste país” e a tese recorrente de que tudo recomeçara, no Brasil, a partir de 2003.

Não é foco deste artigo analisar os governos do PT, com seus méritos (em especial o ciclo reformista dos primeiros anos) e sua debacle (sobretudo o desastre econômico dos últimos anos). O ponto é a aposta em uma visão binária e excludente da política, incentivada pelo centro de poder, seus recursos de comunicação, sua rede de movimentos sociais associados ao Estado e militantes que se lançaram ao jogo da estigmatização e da divisão.

A partir do final do governo Lula, e apesar das vitórias eleitorais de 2010 e 2014, assistiu-se a uma gradativa perda de hegemonia da esquerda na vida política brasileira. Ainda está para ser feita uma análise mais abrangente desse processo. Suas razões, em parte, dizem respeito à proximidade com o poder e ao previsível desgaste. Longos ciclos de poder cobram seu preço. As ideias perdem força, a política se renova. E é bom que seja assim.

Há igualmente o impacto da revolução tecnológica na política. A emergência digital deu voz a um universo difuso de cidadãos que passaram a postular suas demandas e visões de mundo diretamente na esfera pública, sem a mediação e o filtro das tradicionais instituições intermediárias da democracia liberal (partidos, sindicatos, movimentos estudantis, mídia tradicional e, em sentido amplo, o mundo “organizado” da cultura e da academia). Em boa medida, a hegemonia da esquerda tinha como base a influência e o domínio (que ainda persistem) sobre essas instituições.

A ruptura produzida pela revolução digital colocou novos atores em campo, recodificou a linguagem da política, disseminou novas formas de organização em rede e a irrupção de movimentos de massa (como o levante de 2013), cujo impacto sobre a democracia por muito tempo serão objeto de estudo. O crescimento estridente e anárquico da nova direita, no Brasil dos últimos anos, está ligado a esse fenômeno.

Nesse processo, há contas que pesam sobre as forças de centro reformista, e elas não são poucas. A maior delas diz respeito a sua perda de identidade. O PSDB não foi fiel ao seu próprio legado de modernização e reforma do Estado que empreendeu nos anos 1990. As sucessivas derrotas eleitorais desde 2002 produziram pouca ou nenhuma reflexão crítica. Aos poucos, o partido transformou-se em um retardatário dos princípios que dizia defender e mostrou-se passivo diante da corrupção de alguns de seus mais altos dirigentes.

Já o pensamento liberal democrático, em sentido mais amplo, raramente se colocou com nitidez na arena pública. Confundiu-se com as forças tradicionais da política e terminou tragado pela onda polarizadora que, nas duas pontas, à direita e à esquerda, representam sua negação.

Em suma, perdeu o debate na sociedade e no mundo político quando da ascensão da esquerda e no momento em que esta perdia sua hegemonia. Seu espaço foi ocupado, em larga escala, pela nova direita.

Há igualmente contas que pesam sobre a esquerda brasileira, que até hoje escapam à devida reflexão pela própria esquerda. A primeira delas diz respeito a sua relação ambígua com a democracia e as instituições. Alguns exemplos: o inaceitável suporte político e financeiro, via BNDES, à ditadura castrista e à escalada autoritária na Venezuela; episódios como a “devolução” dos boxeadores cubanos e a defesa intransigente de um condenado por homicídios na Itália; a permanente retórica de “regulação da mídia” e o processo sistêmico e amplamente documentado de corrupção do Estado brasileiro.

São temas que obscurecem a relação de boa parte da esquerda com a democracia e seus valores fundamentais. Vale lembrar o recente documento, liderado pela ex-presidente do Chile Michelle Bachelet sobre os crimes do chavismo. Enquanto a líder da esquerda chilena teve a coragem moral de denunciar a ampla agressão a direitos e a autocratização venezuelana, que atitude tomou nossa esquerda?

É possível fazer de conta que nada disso é importante, que tudo é justificável à luz do “embate político” e de uma estranha lógica seletiva sobre boas e más ditaduras. Na visão dos liberais, não. A democracia não comporta esse tipo de seletividade, estejam no poder forças à esquerda ou à direita do espectro político.

Bolsonaro soube capturar tanto o sentimento difuso de rejeição da esquerda, na base da sociedade, como ocupar o espaço vazio de alternativas, em um universo político crescentemente radicalizado. Fez isso colocando-se como ponto de contato entre um conjunto relevante de tendências da vida política brasileira.

Em primeiro lugar, o pensamento conservador. Conservadorismo de costumes, em regra de base religiosa, organizado em torno da defesa de valores tradicionais da família e de uma ideia de ordem que parece retirada dos velhos manuais de moral e cívica dos anos 1970.

Ele soube também capturar uma demanda difusa pela ética na vida pública que tomou forma a partir dos sucessivos escândalos de corrupção. O selo desse alinhamento foi a presença de Sergio Moro no governo —e parte dele se perdeu com sua saída.

Seu movimento mais visível se deu no campo da política: a retórica antissistema e a recusa em compor um governo de base partidária, hoje relativizada pela (também incerta) aproximação com o centrão.

Por fim, soube estabelecer uma ampla e difusa aliança com o mercado a partir da pauta econômica formulada por Paulo Guedes e sua equipe. Guedes é um nome historicamente vinculado ao pensamento liberal no Brasil, mas sua agenda dispõe de um consenso frágil dentro do governo e seus resultados são, até agora, bastante tímidos.

O programa de privatizações não deslanchou, a reforma administrativa sequer foi enviada ao Congresso, e apenas agora o governo apresenta as primeiras ideias sobre a reforma tributária. O Executivo dispunha de espaço político, após a reforma da Previdência, para apresentar um programa robusto de reformas estruturais, mas o fez de modo tímido e inarticulado com as PECs do Plano Mais Brasil, que pouco ou nada avançaram.

O governo em praticamente nada avançou no tema da reforma do Estado, cedeu reiteradamente à pressão corporativa de militares e policiais e ainda agora fez o mesmo no debate sobre o Fundeb. Tudo isso reflete o fato de que, apesar de iniciativas e intenções liberais, o governo Bolsonaro não é, em seu conjunto, um governo liberal.

Não vai aí uma distinção trivial. O liberalismo supõe compromissos que vão muito além dos temas relativos ao livre mercado, como respeito a instituições, afirmação de direitos, cultivo de valores associados à liberdade. O atual governo anda longe disso.

Longe de uma visão liberal da educação, que deveria promover a liberdade de escolha educacional; longe de uma visão liberal da cultura, que deveria manter o Estado distante das escolhas estéticas; longe de uma visão liberal de política externa, que deveria se pautar pelo multilateralismo, abertura comercial e defesa intransigente dos direitos humanos. O que temos é um tipo difuso de populismo eletrônico feito de gestos erráticos —e nada que pareça expressar um “projeto Bolsonaro” para o país.

Conservadorismo, armas, menos radares nas rodovias, privatizações, renda básica, antiglobalismo e desejo de entrar na OCDE. Não importa quão grave, irrelevante ou contraditório seja o tema, ele poderá ingressar na agenda do governo se surgir como urgência, pressão de algum grupo de interesse próximo ao Planalto ou contribuir para mobilizar sua base digital.

Em meio a esse quadro, assistimos a uma ação robusta de nosso sistema de freios e contrapesos sobre o Executivo. É disso que é feita a democracia constitucional. É o que vem ocorrendo no Brasil.

Maior exemplo tem sido a completa inviabilização da agenda conservadora no Congresso. Exemplos recentes foram a decisão do STF de conceder a estados e municípios a prerrogativa de impor medidas de isolamento social e a recente devolução, pelo presidente do Senado, da MP que concedia ao ministro da Educação a prerrogativa de nomear reitores de instituições federais de ensino durante a pandemia.

Tem sido o governo recordista em caducidade de medidas provisórias e vetos derrubados, recorde que fez o cientista político Fernando Limongi caracterizá-lo como um tipo de “presidencialismo de desleixo”.

Dizer que as instituições funcionam não significa concordar com toda e qualquer decisão tomada, seja pelo Congresso, seja pelo STF. Ainda é cedo para um julgamento definitivo, mas é preciso prestar atenção aos desdobramentos do inquérito das fake news ora em curso, sob condução do STF, tanto no que diz respeito à forma como foi instaurado, como em sua abrangência e seu potencial risco ao princípio constitucional da liberdade de expressão.

A democracia liberal é avessa à proibição estatal do dissenso. É preocupante assistir à atuação de grupos que defendem pautas autoritárias, em diversas direções. Sua atuação reflete, antes de qualquer coisa, a permanência de cultura despótica na base da sociedade brasileira.

Esses grupos devem ser combatidos com o uso da razão e no plano da política, mas não ao preço do livre exercício da opinião. É preciso estabelecer, aqui, uma fronteira clara: a expressão de ideias, por odiosas que sejam, deve ser livre; a ação que envolva risco objetivo às instituições, porém, não é algo que a democracia possa aceitar.

O país está diante de um enorme conjunto de desafios. O maior deles é produzir um debate público sem exclusões e superar a lógica da guerra política permanente. Nossa democracia tem se mostrado mais forte e inclusiva do que boa parte das análises parece disposta a reconhecer.

O país demanda uma nova convergência reformista em torno de ideias que tragam crescimento econômico, liberdade e inclusão. O papel dos liberais e democratas é ajudar a construir essa agenda. É recusar a estridência estéril típica do mundo digital e os rótulos anacrônicos que, à esquerda e à direita, incentivam uma polarização sem nenhum futuro. (Publicado no jornal Folha de S.Paulo em 02/08/2020)

Elena Landau, economista e advogada, é presidente do conselho acadêmico do Livres

Fernando Schüler, cientista político, professor do Insper e colunista da Folha, é conselheiro acadêmico do Livres

Leandro Piquet Carneiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e conselheiro acadêmico do Livres 

Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e da Julius Baer Family Officy (JBFO), é doutor em economia pela USP​ e conselheiro acadêmico do Livres

Jornal destaca que política de cotas é perceptível na USP

Com cotas, aulas da USP começam a perder ‘brancocentrismo’

Total de negros na universidade cresceu de 17% a 25% em cinco anos; cotistas trazem à pauta vivência de periferia e racismo

Thamires Alves, Rafael Marques, Mariana Novaes e Larissa Alexandre, do coletivo de alunos negros da Faculdade de Medicina da USP 

Italo Araujo, 20, estava em São Paulo havia poucos dias quando soube que tinha conseguido entrar no curso de direito da USP. Ligou para a mãe, em Juazeiro do Norte (CE), para contar a novidade.

“Filho, será que a gente tem dinheiro para pagar essa faculdade?”, ela indagou. “Mãe, pelo que falaram, aqui é de graça. Vou ver se é isso mesmo e te falo”, ele respondeu.

Desde o ano passado, a Universidade de São Paulo tem recebido cada vez mais alunos como Italo, negro e de família de baixa renda. Gente para quem a gratuidade da mais prestigiada instituição de ensino superior do país não é um fato conhecido desde muito cedo na trajetória escolar.

Estudantes que, em muitos casos, são os primeiros da família a cursar ensino superior. Filhos de garçons, empregadas domésticas, caminhoneiros, porteiros.

Ao entrar na universidade, eles têm pautado dentro e fora da sala de aula novos temas em diversas áreas do conhecimento —da educação à medicina, do direito à engenharia. Por outro lado, também colocam em evidência o racismo e os contrastes sociais do país.

O ingresso de jovens negros e de baixa renda na USP tem ocorrido de forma acelerada desde 2018, quando entrou a primeira leva de alunos selecionados pelas cotas para egressos de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas.

A implementação do sistema ocorre de forma gradual. Começou com 37% das vagas destinadas a alunos de escola pública em 2018, neste ano passou a 40% e, até 2021, deverá chegar a 50% por cada curso e turno.

Dentro dessas proporções, 37,5% das vagas são reservadas a autodeclarados pretos, pardos e indígenas, índice equivalente à presença desses grupos populacionais no estado.

A medida provocou uma mudança rápida e significativa no perfil do aluno, embora esses grupos permaneçam subrepresentados.

Em cinco anos, de 2014 a 2019, a parcela de ingressantes de escola pública na USP passou de 32% para 42%, e a de pretos pardos e indígenas, de 17% para 25% —desses, 62% entraram pela cota. No mesmo período, a participação de alunos com renda familiar de até três salários mínimos cresceu de 17% para 25%, e a faixa de mais de dez salários encolheu de 33% para 26%.

A presença de alunos de fora do estado também cresceu, de 8% para 13% em apenas um ano, de 2018 a 2019, principalmente devido à adesão ao Sisu, sistema de seleção nacional pelo Enem. Não há esse dado para anos anteriores.

Se a mudança é visível para qualquer um que anda pela USP ou pisa em um restaurante universitário, dentro da sala de aula ela também é notada por parte dos professores.

“São alunos que trazem para a discussão questões regionais e sociais, problemas jurídicos que em geral não são portados por estudantes da classe média paulistana”, diz o diretor da Faculdade de Direito, Floriano de Azevedo Marques Neto, citando como exemplo de sua área, o direito administrativo, questões referentes à ocupação da cidade.

Na Escola Politécnica, o professor Mauro Zilbovicius também notou a diferença ao propor uma atividade sobre mobilidade urbana. “Bastou eles contarem a experiência de ir e vir todo dia da zona leste e pegar duas horas de ônibus que o debate já mudou. Eles trazem a vivência de outra cidade que não costumava vir à Cidade Universitária.”

Professor da Faculdade de Educação, Rosenilton Oliveira conta que muitas vezes são esses alunos que percebem lacunas na bibliografia e nos currículos —por exemplo, quando eles só tratam do desenvolvimento da criança sob o ponto de vista da civilização judaico-cristã.

O perfil mais diverso também se reflete nas atividades extraclasse, diz Debora Piotto, professora da pedagogia da USP de Ribeirão Preto.

“No estágio que fazem em escolas públicas, os estudantes passaram a ter um olhar atento a questões referentes a discriminações raciais, relatando, por exemplo, perceber que alunos negros recebiam menos atenção, ficavam separados dos demais, estavam mais em situação de fracasso escolar, entre outras observações que só puderam ser feitas porque o tema da discriminação racial era trazido também pelos colegas negros”, diz.

Na medicina, o tema da saúde da população negra foi colocado em pauta por uma semana de atividades propostas pelos alunos cotistas.

Por outro lado, se a diversidade tem agregado conhecimento, também traz desafios. Entre eles, estão as deficiências do ensino médio público.

Pró-reitor de Graduação da USP, Edmund Baracat diz que as análises de desempenho realizadas até o momento não mostram diferenças significativas, até porque a concorrência, com cotas ou não, é bastante alta. No caso do direito, por exemplo, o diretor da faculdade diz que o ingressante com menor nota no Sisu, que em regra seleciona os cotistas, teve pontuação melhor no Enem do que o que passou por último pela Fuvest.

Obstáculos maiores, porém, aparecem em áreas que exigem mais conhecimento de exatas e inglês. A Poli, por exemplo, tem aluno que ficou dois meses sem professor de matemática no ensino médio.

Os docentes da faculdade ouvidos pela reportagem dizem não notar diferença entre os egressos de escolas técnicas e os das particulares, mas quem veio de colégio público regular tem maior dificuldade.

Para superá-las, a faculdade vai lançar uma série de videoaulas de física e matemática, que serão disponibilizadas antes do início do ano letivo.

As filmagens estão sendo feitas de forma a permitir que o aluno possa assistir aos filmes no celular —a preocupação em não colocar números muito pequenos surgiu da constatação de que muitos levam quase duas horas para chegar à faculdade, e o tempo no transporte poderia ser usado para essa atividade.

O professor Zilbovicius ressalta que a medida não é só para os cotistas. Aluno de escola de elite também sofre no primeiro ano na Poli, diz. A experiência com a reserva de vagas, porém, reforçou a necessidade de atenção extra a esses conteúdos.

Para o docente, não é um grande problema. “Não aprendeu direito trigonometria? A gente ensina. O importante é ter vontade de aprender, e isso eles têm de sobra.”

A Pró-Reitoria de Graduação também elabora um programa de reforço à distância de conteúdos do ensino médio.

Além disso, alunos têm se mobilizado para superar as dificuldades. No direito, dividiram-se para traduzir textos em inglês para os demais.

A cooperação se tornou mais fácil porque agora não é só um outro que é negro ou vem da periferia, dizem estudantes que entraram antes das cotas. Prova disso é a disseminação de coletivos onde estudantes negros organizam atividades e trocam experiências.

“A Poli antes era um mar de gente branca”, descreve Caroline dos Santos, 25, do 5º ano de engenharia, que integra um desses grupos. Ela e colegas relatam que a falta de outros alunos da mesma cor e origem social trazia um sentimento de solidão. Houve alívio com a chegada dos cotistas, mas a sensação persiste, pois ainda há subrepresentação.

Outros alunos relatam que a sensação de deslocamento na universidade é acompanhada por um afastamento do lugar de origem.

“A família fica com muito orgulho da gente, mas essa admiração te coloca em um pedestal”, diz Larissa Alexandre, 23, aluna de medicina. “Não me sinto nem tão periférica para estar na periferia nem tão central para estar no centro.”

Ela vai todos os dias do Itaim Paulista, no extremo leste de São Paulo, para a Faculdade de Medicina.

Na universidade, o contraste econômico influencia as relações sociais. “A gente não tem dinheiro nem para ir às festas aqui. É uma jornada solitária que desgasta o psicológico”, diz Mariana Novaes, 20, também da medicina.

“Nas férias é engraçado. Eles [alunos não cotistas] vão para várias partes do mundo”, comenta Letícia Chagas, aluna do direito. Aos 19 anos, ela foi eleita para ser a primeira presidente negra do mais que centenário Centro Acadêmico XI de Agosto, em uma eleição que contou muito com a militância dos outros cotistas.

Alguns deles têm camisetas com uma provocação ao abismo social: “+EE [escola estadual] – Band [Colégio Bandeirantes, um dos que mais aprovam na Fuvest]”.

Não que não haja qualquer integração. Mas o fato de parte dos estudantes sofrer racismo e parte não sofrer já cinde os dois grupos ao menos nessa dimensão. Basta perguntar em um grupo de alunos negros e quase todos terão um exemplo ocorrido na própria USP para contar.

“Um funcionário me parou e perguntou se eu era estudante. Eu estava com uma camiseta com o nome da faculdade”, diz Italo.

“Quando passei pela portaria, o funcionário me desejou bom trabalho”, afirma Rafael Marques, 23, aluno de fisioterapia.

“Quando escurece, é comum as pessoas atravessarem a rua ao me ver na calçada”, relata Ygor Galhardo, 18, de engenharia de produção.

“Quando desço a rampa, sinto que um monte de gente fica me olhando”, completa seu colega Victor Gonçalves, 21. Larissa e Mariana têm o mesmo relato: “é comum ouvir que eu não tenho cara de médica”.

“E, quando coloco o jaleco, ficam tentando olhar o crachá para tentar entender”, acrescenta Thamires da Silva Alves, pós-graduanda.

Aluno de escola privada diversifica opção de faculdade

A adoção de cotas pelas universidades públicas acirrou a concorrência pelas vagas que podem ser disputadas pelos alunos de escolas particulares.

A consequência é que muitos estão diversificando suas opções na hora de se decidir qual prova prestar. A mudança é vista no Colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, que tem altos índices de aprovação nos processos seletivos mais tradicionais.

De 2014 a 2019, o número de faculdades nas quais os alunos foram aprovados quase dobrou, passando de 32 para 62, afirma Claudio Ribeiro, coordenador de processos de avaliação acadêmica e da Coordenadoria de Futuro e Carreiras da escola.

O número inclui só instituições de ensino no Brasil, mas o interesse por graduações no exterior também vem crescendo. Segundo Ribeiro, 15% dos estudantes do Bandeirantes foram aprovados para estudar fora do país.

“Os alunos estão buscando novas oportunidades com base nesse novo cenário”, afirma. “Muitos dos nossos estudantes, inclusive, apoiam as cotas. Nós as tratamos como são: uma realidade.”

A lei que instituiu as cotas nas universidades federais foi sancionada em 2012, com prazo de implantação gradual até 2016, para chegar à proporção de 50% de ingressantes de escola pública, sobre a a qual é aplicado o percentual de pretos, pardos e indígenas na população do estado.

A USP instituiu a reserva de vagas a partir do vestibular 2018. (Folha de S. Paulo – 26/12/19)