Eliseu Neto A romantização do trabalho Infantil

Numa transmissão de Facebook, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que trabalhou enquanto criança em fazendas do interior de São Paulo:

“Olha só, trabalhando com nove, dez anos de idade na fazenda eu não fui prejudicado em nada. Quando um moleque de nove, dez anos vai trabalhar em algum lugar, tá cheio de gente aí ‘trabalho escravo, não sei o quê, trabalho infantil’. Agora, quando tá fumando um paralelepípedo de crack, ninguém fala nada”.

O presidente faz uma romantização cruel do trabalho infantil. Existe a cena pueril de crianças vendendo limonada, nos subúrbios americanos, para aprender a ter responsabilidade, lidar com dinheiro, economizar. Hábito menos comum no Brasil, mas feito por muitas ongs e institutos, como Jovem Aprendiz, Junior Achievement, CIEE, etc. Pequenas responsabilidades são muito saudáveis para uma criança.

É muito diferente de crianças vendendo balas na rua por fome no meio de fuligem, crime, drogas; ou em minas de carvão, campos de tabaco, ou condições insalubres.

Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, o Brasil teve, entre 2007 e 2018, 261 mortes e 43.777 acidentes de trabalho com crianças e adolescentes entre cinco e 17 anos. Até mesmo as crianças que trabalham, em tese, sob tutela, temos dados alarmantes. Dos mais de 43 mil casos de acidente de trabalho, cerca de 25 mil atingiram adolescentes com idade para trabalhar como jovem aprendiz dentro da legislação (a partir dos 14 anos) e foram vítimas em atividades que lhes eram proibidas por conta da insalubridade ou da periculosidade.

Assistir o presidente da República, numa fala leviana, ameaçando acabar com a legislação que tenta proteger nossas crianças, é no mínimo aterrador. Este é o presidente que acabou com ferramenta de combate a tortura, dizimou os conselhos de participação civil, retirou LGBT da pauta de direitos humanos, que declarou guerra contra as universidades e tenta cercear as escolhas de reitores. Bolsonaro luta contra o Congresso Nacional, tentando liberar as armas e afirma que crianças deveriam aprender a atirar. Não dá mais para achar que ele é apenas um bufão. Suas falas são balões de ensaio, para futuros desmandos, decretos, MPs autoritárias, que desafiam inclusive o equilíbrio dos três poderes.

O presidente ainda faz esdruxula comparação, entre trabalho infantil e consumo de drogas, tentando colocar parte da sociedade (a esquerda, ou comunistas, como costuma delirar) como tolerantes com o consumo de drogas na infância. No seu discurso, confunde propositalmente, uma defesa da legalização de drogas e compreensão do consumo como questão de saúde, com um suposto descaso com as crianças. Seu objetivo é claro, dividir e polarizar ainda mais a sociedade brasileira. Ninguém defende que crianças possam usar drogas, bebidas, e ninguém deveria defender que trabalhem ou usem armas.

O trabalho na infância, quando existir, deve ser junto com estudo, com o brincar, como uma referência da vida adulta, somente. Brincar é fundamental no desenvolvimento infantil.

Jogos infantis são importantes para construção do córtex infantil. A imaginação, liberdade, alegria, imitar o mundo adulto e aos poucos adquirir responsabilidade.

O ato de brincar da criança demonstra simbolicamente suas ansiedades e fantasias e tal ato equivale a expressões verbais do adulto, uma expressão simbólica de seus conflitos inconscientes. Portanto saudável e fundamental.

Para Winnicott, a atividade de brincar constitui um aspecto universal da natureza humana, ainda que existam pessoas que possam estar profundamente doentes e não conquistem essa capacidade, precisando, então, de tratamento (Winnicott, 1968i, p. 63).

Podemos elucubrar que muito da personalidade infantil, autoritária e pouco democrática deste presidente, seja oriunda de pouco tempo de brincadeira e estudo na infância, visto que ele mesmo admite que foi submetido à trabalho infantil (embora seu irmão negue isso em entrevistas e garanta que é mais uma das mentiras presidenciais). Mas para o inconsciente, mesmo a fantasia, tem peso e consequências.

Portanto, brincar de ser adulto, de trabalhar, de ter dinheiro, é excelente para uma criança. Mas a pressão de ganhar pela subsistência, as condições insalubres, o sofrimento psíquico, e o excesso de responsabilidade, são um misto de ignorância e crueldade de Jair Bolsonaro e seus seguidores. Precisamos sim de fortes leis contra o trabalho infantil, e pelo visto é premente educarmos a sociedade sobre os males desse drama, ainda comum no Brasil. Diferente da fantasia de ideologia de gênero, esse é um drama real e presente no Brasil.

Eliseu Neto
Coordenador Nacional do Diversidade 23