Cientista político Bruno Soller vê falta de liderança no presidente Jair Bolsonaro

Em entrevista ao portal do Cidadania 23, o cientista político Bruno Soller criticou a falta de liderança do presidente Jair Bolsonaro e demonstrou preocupação com a capacidade de o Governo Federal investir na recuperação do país no pós-pandemia. Em artigo recente (veja aqui), Soller defendeu que os governantes deverão atuar na redução das desigualdades sociais causadas pela Covid-19.

Para Bruno Soller, a falta de liderança de Jair Bolsonaro no processo de combate à pandemia e em ações para mitigar os efeitos negativos na economia sugere pouca capacidade do presidente da República em encontrar soluções futuras para a questão social e econômica no País.

Na entrevista, ele afirma que prefeitos e governadores deverão rever prioridades focando menos em questões urbanísticas e mais no bem estar da população de suas cidades e estados. Segundo ele, a grande discussão será como unificar orçamento e investimento com foco na vida das pessoas atingidas financeiramente pela pandemia.

Soller defendeu a criação de programas sociais municipais e governamentais com apoio da iniciativa privada como forma de combate aos problemas causados pela doença. Ele lembrou que as pessoas devem ser consideradas prioridade diante da calamidade pública.

Ao fazer uma análise sobre a retomada econômica, o cientista político afirmou que o Brasil precisa apostar na agricultura, além de incorporar os pequenos agricultores na cadeia produtiva e de exportação.

Abaixo, a entrevista:

Como resolver o aumento da pobreza agravada pela pandemia da Covid-19? Quais seriam as soluções?

O fundamental é que quem for se lançar como candidato nesse momento precisa ter um compromisso direto com essa causa [social]. Nós teremos dificuldades grandes, inclusive com a redução de receitas dos municípios. Existe uma ideia de empobrecimento, que não é só social, mas também orçamentário. Iremos ter uma redução disso. Então precisamos rever prioridade, como talvez as questões urbanísticas do município. Isso terá que ser deixado de lado. Repactuar o orçamento para atender as demandas mais necessárias. Há uma expectativa mundial, não é só aqui no Brasil, de que isso vai acontecer. Temos visto lançamentos de candidaturas, como em Portland, nos EUA, onde a discussão política é sobre a preocupação com o aumento dos sem-tetos. A discussão nesse momento é como vamos unificar esse orçamento, investir e pensar exclusivamente em remediar a vida das pessoas que vão passar por esse processo de empobrecimento. É nesse sentido. Uma repactuação do orçamento e de prioridades. E as prioridades precisam ser as pessoas nesse momento.

Como os futuros gestores deverão encarar a situação pós-pandemia?

Nós temos uma dificuldade muito grande nos municípios. Eles possuem uma característica de manter apenas programas sociais federais. São poucos no Brasil que possuem programa de assistência direta. É uma coisa que precisará ser trabalhada. Trabalhar com a iniciativa privada, por exemplo, para fundos de solidariedade municipais. Vemos nesse momento um monte de campanhas, inclusive envolvendo artistas, de solidariedade e doação. Isso terá que ser permanente. A relação público-privada, que antigamente se dava muito na construção de obras, terá que ser repactuada com os programas sociais, de uma forma que a iniciativa privada possa entrar. É preciso ter um trabalho institucional forte para que isso ocorra.

Mas você fala só de programas de transferência de renda ou será preciso avançar?

A grande repactuação do orçamento é justamente ter programas de assistência social com uma lógica de desenvolvimento. Não só transferência de renda, que é algo importante, mas o que digo é desenvolvimento social de fato. Vários programas interessantes foram feitos. Em São Paulo, tinha o São Paulo Protege, lançado pelo [então prefeito José] Serra, que trabalhava com moradores de rua e crianças abandonadas. Foi um grande programa de proteção social e perdeu continuidade. Hoje, você vê uma quantidade imensa de moradores de rua na cidade. Lembro por exemplo do Ações Família, com ideias de aldeias sociais que a [socióloga] Ruth Cardoso havia pensado junto com Augusto de Franco. Vai ser preciso trabalhar muito essa questão do desenvolvimento social nas próximas gestões. Parece que o [programa] Bolsa Família tinha passado por cima de tudo isso. Como se apenas a transferência de renda bastasse. Vimos que um vento um pouco mais forte derrubou essa lógica.

De que forma você vê a recuperação econômica do país e do mundo?

É um processo bastante complexo. Ontem, o presidente do Banco Central afirmou, em coletiva, que o terceiro semestre do ano voltará a ter subida da linha de crescimento da economia. Claro que isso não evitará uma retração esse ano, mas pelo menos é um alento se ocorrer. De qualquer forma, acho que o Brasil tem um caminho – e precisamos olhar com carinho – que é a agricultura. Apesar de tudo que se passa no mundo, é um setor que não é atingido e continua com as contas superavitárias. Continuamos sendo um grande celeiro de exportação para o mundo. O principal trabalho agora é como garantir mais produtividade para a agricultura, conectando-a com a questão social. Como os pequenos produtores podem se integrar numa cadeia que possa gerar exportação e mais consumo internacional? Evidentemente que, com o final da pandemia e as pessoas perdendo o medo de sair de casa, irão consumir e ter mais presença nas cidades. Isso por si só já vai fazer a economia ter um ganho.

Pra avançar, será preciso liderança e articulação com os entes subnacionais e com a iniciativa privada, como você diz. Vê essa capacidade hoje no governo Bolsonaro?

Eu acho que a gente tá tendo uma prova, e talvez a mais triste desse processo todo, que é ver que nosso presidente infelizmente não tem nenhuma capacidade de liderança. Esse é o maior problema que estamos vendo. A pandemia não tem nada a ver com ele, mas a forma com que se tratou a questão tem tudo a ver com nosso mandatário. O que se espera de um militar é liderança. Ninguém esperava grande elucubração ou pensamentos do Bolsonaro. Até porque ele nunca se vendeu como isso. Mas como líder ele sempre se vendeu. Aí está o grande problema. Não está conseguindo ser um líder nesse processo todo. Isso me amedronta muito sobre a perspectiva que teremos nos próximos anos de uma recuperação real com ele no poder. Não vejo nele essa capacidade e força de vontade para fazer algo do tipo. Pelo contrário.

O que você considera mais exemplar nesse sentido da falta de liderança?

Esse tumulto provocado por ele em relação à questão do isolamento social. Ele é contra tudo e contra todos. Só que agora é presidente da República. Quando era candidato até poderia ser legal, mas como presidente não pode ter esse discurso. Ele é quem coordena tudo e a todos. Mas não está conseguindo ter esse espírito e entender o papel de um presidente da República. Acho que teremos muita dificuldade com ele no poder. Estamos passando por diversos processos que podem acarretar na sua saída da presidência. O que seria muito ruim para o país novamente, mas que talvez seja necessário caso ele continue com seu comportamento atual.

Presidente do Insper diz que País ‘não vai voltar a crescer 3% ao ano’

‘O Brasil não vai voltar a crescer 3% ao ano’, diz Marcos Lisboa

Sem bônus demográfico e com produtividade estagnada, única saída para o País é acelerar a agenda de reformas

Luciana Dyniewicz – O Estado de S.Paulo

As reformas estruturantes do País estão andando devagar – daí a lentidão na recuperação econômica –, e a única medida que o governo pode tomar para que o PIB cresça de forma mais expressiva é acelerar essa agenda. Ainda assim, a economia brasileira não vai mais repetir números superiores a 3%, pois a população não cresce mais como antes, segundo o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper. “Tudo indica que o Brasil não vai voltar a crescer 3% de forma sustentável. O que a gente aprendeu no passado é que, se a gente consegue sinalizar que o Brasil está enfrentando com rigor a questão fiscal, isso dará maior segurança sobre o futuro da economia”, diz ele, que foi secretário de política econômica entre 2003 e 2005.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

As reformas estão avançando, mas ainda não há um resultado prático na vida das pessoas…

Opa, parou de piorar.

Não deveríamos esperar um resultado mais significativo?

Não. Fizemos muito pouco até agora. Olha a questão do déficit dos Estados. O que fizemos para resolver isso? A agenda está andando muito devagar.

Com mais velocidade às reformas, sairemos da estagnação?

Tem de fazer muita reforma. Primeiro: o Brasil vai crescer menos daqui para frente. O Brasil tinha uma população que crescia 4% ao ano. Agora cresce menos de 1%. Se você quer crescer 3%, a produtividade tem de crescer 2%. A produtividade do Brasil não cresce isso há 40 anos. Uma série de intervenções pioraram a produtividade. A incerteza sobre os investimentos aumentou. Você começa o projeto e não sabe quais serão suas obrigações. Olha o fracasso das concessões dos aeroportos no governo Dilma. A área de infraestrutura não consegue investir hoje no Brasil. Segundo: desde o segundo governo Lula, você voltou a fechar a economia. Terceiro: em vez de fazer reforma da Previdência lá atrás, o Brasil começou a inventar maneiras de aumentar a arrecadação para fechar as contas. Em vez de se fazer reformas para corrigir problemas estruturais e de aceitar as regras da competição – que é melhor ter acesso a máquinas mais eficientes do exterior, porque isso ajuda a produtividade interna, fomos pelo caminho oportunista. O problema foi ficando maior e o ambiente de negócios, pior.

Mas aumentar a velocidade das reformas é suficiente para o Brasil crescer mais?

A sociedade não quer fazer reforma. A culpa é nossa. Como não fizemos a reforma da Previdência dos Estados agora? A parte tributária: o setor privado resiste, porque grupos isolados têm receio de pagar mais. Abertura comercial: setores de bens de capital resistem.

Se há necessidade de reformas, mas a sociedade resiste, o PIB poderá crescer mais de 1%?

Não vou fazer previsão. Se o País quiser um crescimento de 3% sustentável, tem de fazer reformas, o que implica perdas para alguns grupos. O Brasil hoje é o resultado de uma sociedade que acha normal a distribuição de benefícios: política de proteção regional, barreiras comerciais, incentivos tributários… A boa notícia é: não tem problema novo. Todos esses problemas já existiam antes, alguns há 20 anos, como o da Previdência. Quanto mais demora, pior a situação fiscal. A conversa de abertura comercial começou, mas não andou. Tem muitas medidas que estão na mão do secretário de Comércio Exterior (Marcos Troyjo) que poderiam estar sendo tomadas, como redução de restrições não tarifárias.

A agenda micro está parada?

Isso podia estar andando. A grande degradação do País é (nas áreas) tributária, de comércio exterior e de previsibilidade para investimento em infraestrutura. A da infraestrutura está andando mais. O ministro Tarcísio de Freitas está fazendo um trabalho de normalizar o processo. Se acertar, vai ser um salto para o país.

Mas as concessões devem demorar para impulsionar o PIB, não?

Nada é rápido. Esse tipo de agenda de reforma para crescimento demora muitos anos. A Inglaterra fez a reforma rápido, com (a primeira-ministra Margaret) Thatcher. Foram três anos de sofrimento, mas depois o crescimento foi rápido. Austrália e Nova Zelândia preferiam fazer essa agenda lentamente para não criar muita dor no caminho. Mas tiveram seis, oito anos de crescimento medíocre.

Para aliviar essa situação no curto prazo, não se deve adotar alguma medida?

Deve-se acelerar a agenda de reformas. Mas as reformas não vão ter impacto já. Enquanto isso, há 13 milhões de desempregados…

Não sei o que fazer nesse caso. Estamos atrapalhando a redução do desemprego ao demorar para fazer o ajuste. Consigo imaginar várias medidas que estimulam no curto prazo, mas que vão piorar a economia no médio prazo.

Liberação do FGTS prejudica no curto prazo?

Está batendo um pouco de ansiedade porque o diagnóstico estava otimista. Tudo indica que o Brasil não vai voltar a crescer 3% de forma sustentável nos próximos anos. O que a gente aprendeu no passado é que, se a gente consegue sinalizar que o Brasil está enfrentando com rigor a questão fiscal, reduzindo gastos obrigatórios e enfrentando a situação dos Estado, isso dá maior segurança sobre o futuro da economia. Isso auxilia a retomada da produção e do emprego.