Luiz Carlos Azedo: O jogo bruto começou

NAS ENTRELINHAS – CORREIO BRAZILIENSE

A inauguração do Aeroporto Glauber Rocha, em Vitória da Conquista, ontem, pelo presidente Jair Bolsonaro, foi muito mais do que uma tentativa de consertar o estrago feito pelas declarações presidenciais desastradas da sexta-feira passada em relação aos nordestinos e aos governadores da região, em especial o do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). Foi a largada de uma estratégia política eleitoral para a região, mirando as eleições municipais do próximo ano, por descuido revelada nas entrelinhas de seu comentário sobre o governador comunista.

Bolsonaro atropelou politicamente o governador da Bahia, Rui Costa (PT), que não compareceu à inauguração, em protesto por receber apenas 100 convites para uma festa que previa 600 convidados. Durante o discurso, porém, Bolsonaro tirou por menos. Disse lamentar que Costa não estivesse no evento e que não tem preconceitos em relação a partidos, mas que não aceita quem quiser “impor a nós o socialismo ou o comunismo”. Assim como o governador Rui Costa, o presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, Nelson Leal (PP), também não participou da cerimônia em solidariedade a Costa. Além deles, a filha do cineasta baiano que dá nome ao terminal, Paloma Rocha, se recusou a ir ao evento.

Quem aproveitou a cerimônia, feliz como pinto no lixo, foi o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), que está no segundo mandato e foi muito paparicado por Bolsonaro: “Chamo de garoto porque você é muito mais novo que eu. Mais na frente, se Deus quiser, você ocupará a honrosa cadeira que ocupo”, declarou. A solenidade também contou com a presença do prefeito de Vitória da Conquista, Hélzem Gusmão, e desenhou a política de alianças de Bolsonaro na Bahia, o quarto colégio eleitoral do país, onde foi fragorosamente derrotado pelo petista Fernando Haddad em 2018.

A obra do aeroporto levou cinco anos para ficar pronta e custou R$ 105 milhões: R$ 74 milhões do governo federal e R$ 31 milhões do estadual. À margem da BR-116, a 10km do centro de Vitória da Conquista, seus voos comerciais atenderão 2,3 milhões de pessoas de 100 municípios vizinhos, baianos e mineiros. Os recursos federais foram obtidos por meio de emendas parlamentares, entre as quais as do senador Jaques Wagner, ex-governador petista que derrotou o grupo político do falecido senador Antônio Carlos Magalhães e ocupou seu lugar como principal liderança política do estado. Foi outro que não compareceu à festa governista.

Estratégia

O prefeito de Salvador, ACM Neto, atual presidente do DEM, é o principal aliado político de Bolsonaro na Bahia. O jovem político pavimenta sua candidatura ao governo do estado. Nas eleições passadas, sofreu grande desgaste ao desistir de disputar o governo do estado, sendo muito criticado pelos aliados por “desarrumar” as chapas de oposição ao PT no estado. O resultado foi tão desastroso que antigas lideranças da própria legenda, como o ex-deputado José Carlos Aleluia, acabaram sem mandato. Ontem, ACM Neto voltou a ser protagonista nas eleições baianas, mas tem um dever de casa a fazer: eleger o futuro prefeito de Salvador.

O ataque frontal de Bolsonaro aos adversários na Bahia, o principal reduto de oposição ao seu governo, sinaliza uma estratégia para os demais estados do Nordeste: “Eu amo o Nordeste, afinal de contas, a minha filha tem em suas veias sangue de cabra da peste. Cabra da peste de Crateús, o nosso estado aqui, mais pra cima, o nosso Ceará. Quem é nordestino aqui levanta o braço. Quem concorda com o presidente Jair Bolsonaro levanta o braço. Estamos juntos ou não estamos?”, bradou Bolsonaro para o público presente, que gritava “Mito!, Mito!”, como é chamado por seus partidários.

A fórmula será repetida em todas as inaugurações programadas pelo novo governo para o Nordeste, a maioria iniciadas nos governos petistas e agora retomadas, principalmente as de infraestrutura, cuja atual política é uma herança do governo Michel Temer. A continuidade de obras e serviços é um valor importante na administração pública, mas isso não impede a narrativa de ruptura com as gestões anteriores, que é uma marca registrada do governo Bolsonaro. Contraditoriamente, porém, a solenidade de ontem lembrou a política dos tempos dos coronéis, na qual a oposição era tratada a pão e água pelo governo federal. (Correio Braziliense – 24/07/2019)

Alessandro Vieira: Pelo Nordeste, pelo Brasil

Todos que querem um Brasil mais justo e menos desigual precisam pensar no Nordeste, região com profunda desigualdade e emprego e renda dos baixos do país. Precisamos apresentar esse pensamento partindo de Sergipe. A vantagem de ser o menor estado da região, espremido entre gigantes, é não alimentar ilusões de grandeza nos cenários nacional e regional. É ter a clareza de que a região só atingirá todo seu potencial quando cada estado colocar seus interesses de lado em nome de uma estratégia comum. O encontro desta sexta-feira, no Recife, para construir a muitas mãos o Plano de Desenvolvimento Regional do Nordeste (PRDNE) é a chance de transformar esse potencial em realidade.

O menor estado do país, com a menor população, recentemente descobriu grandes reservas de petróleo leve de alta qualidade e já registra enorme potencial de produção de gás, ultrapassando países como a Bolívia. Mais que produção local, isso significa a possibilidade de desarmar rivalidades históricas em nome da integração da indústria petroquímica da região, do gasoduto Bahia-Sergipe às refinarias em Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte, chegando ao Maranhão como um complexo regional único.

O menor mercado consumidor do Nordeste força qualquer sergipano a produzir pensando a região e o Brasil. Sergipanos como João Carlos Paes Mendonça e José Augusto Vieira são prova viva do que falo. É preciso institucionalizarmos essa disposição. É isso que faz o Consórcio Nordeste quando lança uma licitação para a região, permitindo que Sergipe faça compras públicas com o preço de quem compra para 50 e não 2 milhões de habitantes. Esse é o tipo de estratégia onde todos só têm a ganhar. Igual é o potencial de transformar o PRDNE no maestro dos recursos e programas do governo federal. Principalmente potencializando o uso do Fundo Constitucional do Nordeste, patrimônio por excelência de cada nordestino.

O PRDNE olha para o futuro e tem a inovação na sua base e na sua alma. Transforma a região em grande Porto Digital, seguindo o exemplo pernambucano. Integra a sergipana Universidade Tiradentes com o Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), devolvendo os cérebros nordestinos feitos paulistas pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e aproveitando regionalmente patrimônios como é a educação cearense.

Temos, como região, das maiores insolações do globo e o potencial de produção, desenvolvimento e implantação dos maiores parques eólicos da América Latina; a criatividade das confecções espalhadas por vários estados e o empreendedorismo de quem convive com o maior semiárido do mundo. Do Piauí à Paraíba, passando por Alagoas e Bahia, não faltam oportunidades de integração produtiva. Só nos falta a ambição de pensar como um só coração nordestino.

Só haverá solução para o Brasil quando houver solução para o Nordeste. Só haverá uma solução para o Nordeste quando os estados aceitarem que nossos destinos caminham inexoravelmente juntos. Sergipe é pequeno demais para alimentar ilusões de auto-suficiência. É desse lugar que faço o clamor para que transformemos um encontro entre governadores e presidente com posicionamentos políticos opostos na oportunidade de construir juntos um projeto único de Nordeste. (Diário do Nordeste – 24/05/2019)

Alessandro Vieira, senador do Cidadania de Sergipe