Soninha Francine participa do ‘2º Ciclo Para Acalmar o Mundo’ neste sábado

O mundo te parece acelerado, bagunçado, desajustado? Vamos falar sobre isso? O ‘2º Ciclo para Acalmar o Mundo – Literatura & Atitude’ é um evento bienal que debate os problemas sociais contemporâneos. Em sua segunda edição apresentará iniciativas de autores que narram suas histórias ou trazem ao contexto personagens que buscaram uma porta de saída para a desagregação política, social e cultural.

O evento em formato de roda de conversa terá a participação das autoras, a vereadora de São Paulo Soninha Francine (Cidadania), Luiza Pezzotti e Marina CostinFuser, com a mediação da escritora e ativista cultural Claudia Canto.

Haverá venda de livros, tarde de autógrafos e coquetel oferecido pelo Instituto Ibero-Brasileiro de Relacionamento com o Cliente. O evento será realizado na Rua Rego Freita, 542, Praça da República – São Paulo), das 14h30 às 19h.

SOBRE AS AUTORAS E SUAS OBRAS

Marjorie, por favor – A história de uma ex-interna da Febem

O livro falada libertação através do teatro e sobre a descoberta da intersexualidade de uma ex-interna da Febem. É uma intensa narrativa biográfica sobre Marjorie Serrano – dramaturga, multiplicadora do Teatro do Oprimido de Augusto Boal, pai e mulher. A obra traz os pesadelos e suas vivências, que começam na época da ditadura militar brasileira, ao ser enviada com apenas dois anos de idade para a Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor), passando pelo teatro e pela experiência como atriz viajante até a recente descoberta de sua intersexualidade – termo correto para se referir a “hermafrodita”, indivíduo que possui os dois tecidos, masculino e feminino. Um caminho de transição difícil, de Augusto, seu nome de registro, para Marjorie.

Luiza Pezzotti

Luiza Pezzotti é Jornalista formada pela PUC-SP. Escritora do livro “Marjorie, por favor – A história de uma ex-interna da Febem, a libertação pelo teatro e a descoberta da intersexualidade”, primeiro TCC publicado como livro pela EDUC (Editora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e lançado em 2018. Descobriu na história de Marjorie a possibilidade de unir jornalismo e teatro. Também é atriz formada pela INCENNA, Escola de Teatro e Televisão, tendo diversos cursos nas áreas de interpretação, cinema e roteiro. Trabalhou no Núcleo de Reportagens Especiais da Record TV e atualmente é produtora na Record News.

Editora: EDUC – Editora da Pontifícia Universidade Católica

Dizendo a que veio – Uma vida contra o preconceito

Atrevida e solidária, Soninha Francine não cansa de nos surpreender. Em uma ação social pela cidade de São Paulo, ela se apaixonou por um morador de rua, e por essa paixão foi até o fim, enfrentando a resistência de todos. No livro, Soninha revela sua atração pelos “feios e sujos” e também conta os bastidores de seu convívio com protagonistas da política brasileira, como José Serra e João Doria. Ela sabe que ser feminina tem mais a ver com a capacidade de transgredir limites. Ao ir além, enfrentar preconceitos e expandir possibilidades para todos, assume sua luta pela evolução da espécie: “nossa história darwiniana não é uma narrativa de adaptação, e sim uma história de desafio e destemor”.

Soninha Francine

Cursou magistério no segundo grau e se formou em cinema pela ECA-USP. É jornalista, apresentadora e radialista. É vereadora em São Paulo no segundo mandato, foi duas vezes candidata à Prefeitura de São Paulo. Pelo município exerceu os cargos deSubprefeita da Lapa e Secretária de Assistência e Desenvolvimento Social.Pelo governo do estado foi Superintendente da Sutaco e Coordenadora de Políticas para a Diversidade.

Editora: Tordesilhas

Palavras que dançam à beira de um abismo – Mulher na dramaturgia de Hilda Hilst

A história lança luz sobre um teatro escrito à sombra da ditadura brasileira. A dramaturgia de Hilda Hilst é um grito de protesto diante das arbitrariedades perpetradas pelos algozes do regime. Em meio aos escombros da barbárie humana, resplandece a donzela guerreira. No livro, são mapeadas as trajetórias de mulheres que buscaram caminhos de transcendência. Seu lirismo remete a possibilidades, movimentos e viradas de jogo. A mulher em Hilst não se encerra em definições fechadas; ela se desdobra tal como um leque, feito de múltiplas camadas. Hilst vislumbra o transitório, no calor dos processos metamórficos que atravessam suas personagens. Sua dramaturgia é feita de alegorias, que se entrelaçam em uma tessitura delicada, na qual poesia e teatro se encontram.

Marina CostinFuser

Socióloga, doutora em cinema e estudos de gênero em Sussex. Dentre suas pesquisas, destacam-se: o estudo sobre a emancipação da mulher em Simone de Beauvoir e o estudo sobre mulheres no teatro político de Hilda Hilst. Além disso, trabalha com narrativas nômades e diaspóricas de mulher no cinema de Trinh T. Minh-ha. Autora do livro Palavras que dançam à beira de um abismo: mulher na dramaturgia de Hilda Hilst (Educ/Armazém da Cultura, 2018)

Editora: EDUC – Editora da Pontifícia Universidade Católica

William Waak: Foi ditadura, e daí?

O que aconteceu em 31 de março de 1964 foi um golpe, depois veio um golpe dentro do golpe e tudo aquilo foi uma ditadura. Que, ao enfrentar resistência da luta armada de grupos de esquerda antidemocráticos (o termo técnico é terrorismo) e de correntes da sociedade civil organizada (imprensa, sindicatos, universidades, grupos políticos conservadores e liberais) – estas últimas são as que tiraram o País do regime de exceção –, dedicou-se a reprimir, censurar, prender e torturar, contrariando os próprios códigos de conduta das Forças Armadas. E daí? E daí que o assunto é página virada e, no caso do Brasil, só assume importância política atual por causa da patética dedicação do presidente da República a aspectos secundários da “guerra cultural”.

É bem verdade que Bolsonaro não está sozinho nesse empenho em recorrer a algum episódio traumático do passado como forma de moldar o debate político do presente. Em Israel, o revisionismo do mito de fundação do país influencia também as atuais eleições. Na Rússia, é a interpretação da implosão da União Soviética como uma “catástrofe geopolítica” a ser corrigida que sustenta Vladimir Putin. Na China, o ressurgimento do nacionalismo é uma arma poderosa de legitimação do partido comunista empenhado em desfazer um século de “humilhações impostas por potências estrangeiras”.

Nos Estados Unidos, Trump fala de uma “América grande de novo”, como se alguma vez tivesse deixado de ser. A tentativa de Bolsonaro de dar a 64 uma relevância que também os integrantes do Alto-Comando das Forças Armadas acham que ficou para os historiadores tem pouco a ver com os exemplos acima. É parte do cacoete do palanque digital de campanha eleitoral. E já não se trata de perguntar quando ele vai descer da plataforma da agitação eleitoral e se sentar na cadeira presidencial, pois a resposta está dada: nunca. O presidente e seus seguidores mais aguerridos nas redes sociais criam e se retroalimentam de “polêmicas” que, na época pré-digital, se chamavam de briga de mesa de boteco.

Sobe o volume da gritaria à medida que o tempo avança e as coisas não acontecem como os “revolucionários” esperavam que evoluíssem. E encontram na “velha política”, nas “oligarquias corruptas”, na “mídia”, no “marxismo cultural” as “explicações” para a própria incapacidade de criar uma narrativa abrangente e dotada de clara estratégia de como tirar o País do buraco. As reações contrárias de diversos setores à “comemoração” de 64 provocam nos militantes dessa franja da direita brasileira um “frisson” de alegria, como se sentissem confirmados em suas piores suspeitas. São a eles que os atuais comandantes militares se referem quando alertam que não estão dispostos a tolerar nenhum tipo de fanatismo, de um lado ou de outro.

É o tipo de recado, porém, que provavelmente fará os mesmos militantes se sentirem reconfortados. Nesse sentido, as agressões verbais por intelectuais que influenciam Bolsonaro e seus entes mais próximos aos generais no governo (xingados de “idiotas”, “cagões” e “comunistas infiltrados”) não são deslizes típicos da mesa do boteco. Na peculiar visão de mundo que move os agressores, trata-se do necessário resgate do espírito da História, no qual a nova “hora zero” de 64 explicaria a razão de o País ser hoje uma democracia aberta e representativa e não uma república popular ou socialista. Por isso, consideram que “comemorar” o distante 64 seria parte da luta de ideias. Sem dúvida alguma, ideias têm consequências. E ideias malucas e idiotas costumam ter consequências péssimas.(O Estado de S. Paulo – 28/03/2019)