Em webinar da FAP, Freire cobra protagonismo do Congresso no combate ao desmatamento

O presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire, afirmou nesta sexta-feira (3) que o problema central do desmatamento hoje no Brasil é político e voltou a avaliar que o Congresso Nacional, apesar do desempenho exemplar no combate à Covid-19, está se omitindo do seu papel constitucional de fiscalizar atos do Executivo federal.

Na avaliação dele, há leniência deliberada do govenro com queimadas e derrubada de árvores sob patrocínio do presidente Jair Bolsonaro e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

“Não é possível que a gestão Bolsonaro e esse ministro não tenha uma CPI para investigar o porque dessa desídia. Como se admite que se tenha em um país como o nosso um governo completamente desastroso na política ambiental? Cabe ao Congresso enfrentar inclusive com uma CPI se necessário”, disse Freire, durante o webinar “Sustentabilidade: O que virá depois”, promovido pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP).

Conforme dados do Imazon, abril foi o pior mês em desmatamento na Amazônia em dez anos. Já o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicou que maio teve um aumento de 34% no desmatamento em relação ao mês anterior. Também conforme o INPE, junho foi o mês com os maiores focos de incêndio na região desde 2007, num indicativo de que este ano será ainda pior do que 2019.

Ex-presidente do Ibama, Bazileu Margarido, que também participou do Webinar, sustentou, ao comentar a necessidade de protagonismo do Congresso, que há um pedido de CPI para tratar dessas questões, mas muita dificuldade em conseguir as assinaturas necessárias.

“Olha, está difícil. O ministro do meio ambiente foi flagrado na sua fala naquela reunião ministerial dizendo que precisávamos aproveitar a crise da Covid, com 60 mil mortos ate o momento, pra passar a boiada. Foram todos pra cima dele naquele momento e veio um manifesto assinado por dezenas de empresas e associações empresariais em apoio ao ministro Salles. Aquela lista ali talvez explique porque está tão difícil”, apontou.

Em uma fala mais conceitual, a ex-ministra Marina Silva (Rede) disse ver em curso cinco grandes crises a serem enfrentadas. “O que está acontecendo não é uma crise na civilização, como proclamou o Freud, é uma crise da própria civilização. Entramos em colapso. É a junção de cinco grandes crises: econômica, social, política, uma crise de valores e uma crise ambiental, que traz dentro dela uma crise sanitária”, assinalou. 

Para Marina, as crises ambiental, política e de valores são as mais graves e levam a questionar se a humanidade já chegou ao ponto de não retorno. Segundo ela, se não se faz agora o que é preciso para conter a destruição do meio ambiente, é em “função de uma ética de conveniência”: “Não são problemas técnicos, mas problemas éticos, tomar a decisão política de agir de acordo com valores que preservam a vida e a dignidade humanas”.

Sustentabilistas

Mas se vê pulsão de morte em muitas das ações de presidentes como Donald Trump (EUA) e Jair Bolsonaro, a ex-senadora disse ver também pulsão de vida no surgimento de ativistas como a sueca Greta Thunberg. 

“Sustentabilidade é maneira de ser, ideal de vida, uma visão de mundo. Todos teremos de ser sustentabilistas, palavra que inventei. Haverá os sustentabilistas progressistas e os conservadores. Mas haverá também aqueles que, ligados à pulsão de morte do sistema em colapso, irão às ultimas consequências sem ter se desindentificado da crise, como Trump, Bolsonaro e tantos outros negacionistas”, ponderou.

Para o economista Guilherme Accioly, também é importante não perder a fé e trabalhar para reverter o cenário de crise ambiental e ter, por outro lado, a consciência de que a humanidade “está no planeta de passagem”.

“O planeta vai continuar, nós é que estamos aqui de passagem. A situaçào é muito grave, as mudanças climáticas estão aí pra ficar, mas não podemos perder a fé. É uma tarefa hercúlea, mas temos de continuar caminhando na tentativa de resolver”, sustentou.

Sergio Besserman, também economista, demonstrou algum otimismo e argumentou que “nós temos todos os recursos disponíveis não apenas para evitar uma catástrofe maior, mas para constituir, no processo, uma civilização humana muito melhor”.

“Esse é o tom otimista. Outro lado é que temos todas as ferramentas para agir, mas metade dos gases de efeito estufa da atmosfera foram emitidos nos últimos 30 anos, quando já sabíamos de tudo. Então é luta, luta politica. Não se mexem por ignorância? Não, porque todos os trilhões de dólares do mundo estão ancorados em ativos fósseis e essa gente não quer que mique”, disse.

Conservar Floresta Amazônica é essencial para o agronegócio, diz Guilherme Accioly

O economista Guilherme Accioly diz que o agronegócio é fundamental para a economia brasileira. Segundo ele, o setor contribui com cerca de 24% no PIB (Produto Interno Bruto), gera um em três empregos e é responsável por quase metade das exportações brasileiras.

“Somos uma potência no setor. Entretanto, todo esse sucesso pode vir a ser destruído com a participação decisiva de representantes do agronegócio no Congresso Nacional”, afirma ele.

Em artigo publicado na oitava edição da revista Política Democrática online (veja aqui), produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), vinculada ao Cidadania, o economista ressalta que diversas iniciativas em curso visam a diminuir o arcabouço legal da proteção ambiental no tocante ao desmatamento, em especial o da floresta amazônica. Ele, que trabalhou por 37 anos no BNDES, 10 deles no Fundo Amazônia, entende que a proteção dos demais biomas é também fundamental, mas a maior floresta tropical do mundo é insubstituível por diversos motivos, um em particular.

“É simples. A agricultura. Desde que o mundo é mundo, depende essencialmente de dois fatores: terra e água. Pode-se produzir, com baixa produtividade, sem tecnologias avançadas, sem sementes aprimoradas, sem maquinário”, assinala.
“Sem água e terra, não há produção agropecuária. No limite, até sem terra é possível (aquicultura, produção hidropônica), mas sem água, não dá. Ocorre que boa parte da água que irriga o agronegócio no Centro-oeste, Sul e Sudeste se origina na Floresta Amazônica”, escreveu.

O autor também destaca que a umidade chega do oceano, no Caribe, soprada pelos ventos alísios, vem se renovando pelo ciclo chuva/transpiração das árvores, é refletida na Cordilheira dos Andes e carregada pela atmosfera para aquelas regiões, principais produtoras agropecuárias brasileiras.

“Não é pouca coisa. O volume de água que chega às principais regiões produtoras por meio desse fenômeno é equivalente à vazão do Rio Amazonas, o maior do mundo. Sem a floresta, o agronegócio fica sem água, se inviabiliza (as cidades, também)”, diz.

O eventual aumento na produção decorrente da utilização de áreas a serem desmatadas não chega perto da perda pela provável seca, que afetaria inclusive essas mesmas áreas desmatadas. (Assessoria FAP/Cleomar Almeida)