Cristian Klein: Democracia de ‘bocas abertas’

Numa das cenas mais singulares do documentário “Democracia em vertigem”, da diretora Petra Costa, a então presidente Dilma Rousseff está no Palácio do Planalto assistindo aos votos que decidiam a abertura do impeachment. Circulando em pé, diante da TV, aparentando nervosismo, Dilma reage ao discurso de Glauber Braga (Psol-RJ). O deputado, dedo em riste, ataca o presidente da Câmara, que dirigia a sessão e havia sido o responsável pela admissão do processo que levaria à derrubada da petista. “Eduardo Cunha, você é um gângster. E o que dá sustentação à sua cadeira cheira a enxofre”. Numa expressão facial, Dilma mostra surpresa e aprovação pela braveza do parlamentar em sua defesa.

Não se sabe se o então juiz federal Sergio Moro prestou atenção ao voto do deputado, embora não seja difícil imaginar para que lado pendia. Cunha e Moro são grandes protagonistas de um mesmo processo que abateu o PT. O primeiro foi algoz de Dilma, o segundo, o do ex-presidente Lula. A legitimidade de Cunha, reconhecidamente um corrupto, para conduzir o impeachment contra uma presidente cujo crime de responsabilidade não se tratava de corrupção, pouco importou para a aparência de lisura do processo. A legitimidade de Moro, um juiz alegadamente parcial, de acordo com conversas reveladas pelo site “The Intercept”, tampouco compromete, para os adversários do PT, o conjunto da obra de quem prendeu Lula.

Para Glauber Braga, porém, um coadjuvante de destaque no enredo de tantos personagens da política brasileira dos últimos seis anos, Cunha e Moro são faces da mesma moeda. Se o primeiro mereceu o epíteto de “gângster”, o segundo é omo o árbitro de futebol que favorece um dos times em campo. “O senhor vai estar, sim, nos livros de história, como um juiz que se corrompeu, como um juiz ladrão”, vituperou, a poucas horas do Brasil x Argentina de terça-feira.

Da prisão, em Curitiba, não se sabe a reação de Lula diante da TV, como sabemos a de Dilma. Mas, na audiência da Câmara, a virulência do deputado causou revolta e instalou o furdunço entre os parlamentares que, de um lado, atacavam, e de outro, protegiam o (anti-)herói da Lava-Jato. Com o libelo de Braga, os grupos quase se atracam e o ministro da Justiça encerra seu depoimento aos gritos de “Fujão!”. O ex-juiz, na saída, justifica: “A culpa é desse deputado totalmente despreparado. Glauber, acho, Glauber alguma coisa. Sabe Deus de onde veio isso aí”.

Filho de uma ex-prefeita de Nova Friburgo (RJ) por dois mandatos, o parlamentar, de 37 anos, está na quarta legislatura seguida na Câmara. É duvidoso se Moro perguntou de onde vieram os deputados que o sabujaram. Carlos Jordy (PSL-RJ), também de 37 anos, outro integrante da bancada fluminense, vem de Niterói, onde se elegeu com o slogan “filhote de Bolsonaro”, no ano passado. Em 2016, o presidente, então deputado, já havia sido padrinho político de Jordy, que se elegera vereador pelo PSC.

Numa cena burlesca, Moro recebeu um troféu oferecido por outro aliado. Com carreira polêmica, Boca Aberta (Pros-PR) se elegeu vereador em 2016 pelo PSC, como Jordy, mas em Londrina, a 100km de Maringá, cidade natal de Moro. Pela proximidade, é mais provável que o ministro, em suas palavras, saiba de “onde veio isso aí”.

Operador de equipamento de rádio e televisão, Emerson Miguel Petriv teve o mandato na Câmara Municipal cassado, em 2017, por fazer vaquinha virtual para pagar multa eleitoral. Em 2016, foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal, por suspeita de organizar a invasão de um conjunto residencial. Em junho de 2018, foi condenado a quase nove meses de prisão em regime semiaberto por injúria e difamação cometidas em vídeo publicado em redes sociais contra o então prefeito Alexandre Kireeff, em 2013.

À época, Boca Aberta rodava as ruas da cidade a bordo de uma bicicleta, batizada de “Grace Kelly”, equipada com microfone e caixa de som para desancar o prefeito. Em abril deste ano, foi condenado a 22 dias de prisão em regime semiaberto por perturbar o trabalho de funcionários de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), quando era vereador. O parlamentar realizava uma fiscalização, que chamava de “blitz da saúde”, durante a madrugada, e teria gritado com médicos e enfermeiros para agilizar o atendimento. Sem foro privilegiado, mesmo sendo deputado federal, ele ainda pode recorrer à segunda instância.

Carlos Jordy e Boca Aberta são exemplos dos representantes eleitos na onda Bolsonaro. Um grupo, em regra, conservador, com pouca experiência e radical. Numa autocrítica, o despreparo a que Moro atribui a Glauber Braga seria, segundo Alexandre Frota (PSL-SP), um dos baluartes dessa bancada, a marca dos recém-chegados pela direita, em contraste a experientes adversários. “A esquerda, você tem que lembrar que o mais bobo ali tem quatro mandatos”, já disse Frota, ao criticar a falta de articulação do governo Bolsonaro no Congresso.

Em vários momentos, desde a posse, a base aliada se comporta como um “boca aberta”. Popularmente, “boca aberta” é alguém falastrão mas também o indivíduo desavisado, bobo, idiota, tolo, ou que se deslumbra facilmente. Foi nesse sentido que Moro se referiu aos “tontos do MBL”. É com esse significado, mas não só, que a esquerda observa os admiradores do ministro que vão às ruas para defendê-lo, numa cruzada contra a corrupção. Desse lado, a pergunta que se faz é por que não se indignaram e pressionaram o Congresso para aprovar as denúncias da PGR e a cassação da chapa de 2014 pelo TSE quando o alvo era Temer. Panelas silenciaram e bocas ficaram fechadas, interessada e inteligentemente.

Nova batalha

Quem continua abrindo o verbo, como sempre foi o pai, é o filho mais mercurial de Bolsonaro. Depois de ser chamado de “idiota inútil” e “pau-mandado” do escritor Olavo de Carvalho, Carlos rebateu o general Luiz Eduardo Rocha Paiva, que saíra em defesa do ministro do GSI, general Augusto Heleno. “Militares que não suportam armas. Nunca lideraram nem guerra de travesseiros! O país dos absurdos”, publicou o vereador ontem no Twitter. Nova batalha. (Valor Econômico – 04/07/19)

Cristian Klein é repórter da sucursal do Rio. Maria Cristina Fernandes volta a escrever na última semana de julho – E-mail: cristian.klein@valor.com.br