Hussein Kalout: A palavra do Barão na ONU

O que diria o diplomata que lançou bases da política internacional brasileira sobre o momento atual

Olá, meu jovem! Tudo bem? Que bom revê-lo! E essa máscara é para quê? Há algum baile na capital? Ah, o quê??? Uma pandemia!!! A geração próxima à minha viveu com a tal “gripe espanhola”. Diziam que era uma gripezinha. Milhares perderam as suas vidas e muitas famílias foram arrasadas, meu jovem. Vou improvisar o meu lenço aqui como máscara! Ah, não precisa? O presidente disse o quê??? Preciso me proteger, meu jovem, não posso dar ouvidos a isso. Com essa protuberante saliência que ostento, tu vês que não tenho histórico de atleta! 

Por que estou aqui de volta? São as necessidades e as circunstâncias da política. Tive que retornar antes do esperado!  Ao que parece, as coisas ainda não andam muito bem pelo meu Itamaraty, não é?! Da vez passada que por lá passei, fiquei estarrecido. Um misto de medo, inércia e bajulações tomou conta da Casa de Rio Branco. O clima era aterrorizante! Por favor, não me chame de “seu Barão”. O meu nome é José Maria da Silva Paranhos Júnior, como já sabes! Me chame apenas de Juca, é mais fácil! 

Vamos que estou apressado, meu jovem. Tenho que adiantar o discurso para a abertura da 76˚ Assembleia Geral das Nações Unidas. Por que tão cedo? É ano que vem; eu sei! Não entremos nesses detalhes menores. É uma grande honra para o nosso país inaugurar o maior dos palcos da política internacional. Na minha época, ainda estávamos engatinhando no que depois se chamou de multilateralismo, mas essa ideia já estava em nosso DNA diplomático! Não posso desperdiçar essa oportunidade com palavras ao vento. O mundo prestará atenção em cada vocábulo e mensagem que ali irei apregoar. O Oswaldo Aranha está apreensivo. Parece que no ano passado o Brasil bagunçou o coreto. Botaram na mão do presidente um discurso aloprado. O que eu achei do discurso deste ano? Fiquei sabendo pelo “sonequinha”, o Ramiro, ah não se lembra dele? O Saraiva Guerreiro, ora!  Enfim, até o “Soneca” reclamou do teor e você sabe que nada tira a irritante calma do velho Ramiro do sério. Me disse que foi uma… deixa para lá!

Vamos, vamos! Me ajude com a papelada. Preciso me antecipar antes que enviesem o humor do presidente com ideias que nada tem a nos agregar. Um país como o nosso, meu jovem, com recursos limitados de poder, a palavra é tudo!

Ah você quer que eu lhe antecipe quais são as ideias que pretendo aqui esmiuçar. Já saberás! Vamos partir daquilo que é mais sagrado nos cânones de nossa diplomacia: independência! Ouviste falar de que? Homenagear o Senhor Trump? Ah, meu jovem, sequer passa pela minha cabeça a intenção do mandatário querer adular esse Senhor Trump. A bem da verdade, o Lincoln, o Abraham – ah não ouviu falar? – me alertou que esse Senhor está usurpando de seu legado. O Senhor Kennedy, homem de garbo, me confessou ao pé do ouvido que Trump pode levar o nosso irmão do Norte à ruína com as tensões sociais e raciais. O Brasil que se cuide! 

Foca aqui, meu jovem! Nessa alocução precisamos enfatizar com altivez que um país como o Brasil não abre mão de uma política externa independente. Aliás, um de meus sucessores, o Araújo Castro, me passou nessa pasta que em mãos seguras, uma seleção de discursos históricos de nossa diplomacia. Veja aí essa papelada! O que é isso? Ah, Araújo! Danado! Veja só, ele ajuntou aqui o meu discurso no Clube Naval proferido, em 1902, quando de minha assunção ao posto de Chanceler. Ora! Que lisonjeiro! E essa parte sublinhada, em vermelho, meu jovem, o que diz? Estou sem as lunetas. Leia, por favor, para mim: “Não venho servir a um partido político: venho servir ao nosso Brasil, que todos desejamos ver unido, íntegro, forte e respeitado.” Ah, meu jovem! Será difícil fazer o pessoal de hoje compreender o sentido dessas palavras. Que penúria!

O Silveirinha, aliás, insistiu tenazmente para não deixar de fora o conceito que ele bolou: “pragmatismo responsável e ecumênico”. Vaidoso, esse baixinho! Ele ouviu falar de um novo termo que estão a cunhar: a tal “cristofobia”. Nem sei o que é isso, meu jovem? Tu sabes? Ah, não! Seguimos, seguimos!

É preciso mencionar, nessa alocução, a vocação do nosso país de atuar em múltiplos tabuleiros estratégicos. Compreendeu, meu jovem?! Jamais devemos restringir a nossa capacidade decisória a um canto específico do mundo. E nunca, jamais, subordinar nossos interesses a potências externas. Que perguntas, meu Jovem? Mas, é claro que podemos ter parceiros estratégicos como os Estados Unidos, França, Argentina e China! O que não podemos fazer é escolher apenas um, em detrimento dos demais. Não é verdade?!

Aliás, meu jovem, preciso lhe fazer uma confissão. O mais importante dos conselhos que cultivei em minha memória foi o de Dom Pedro II. Antes de partir para o exílio disse-me, o Magnânimo, que o Brasil não poderia jamais rebaixar-se à rastejante posição de subserviência a país algum. Quem é o quê? Ah, o Magnânimo? Ora, era o apelido de Dom Pedro II, meu jovem! Hoje, existe quem? Ah, Mito! Dom Pedro II, nos deixou um país; uma nação. Espero que o legado do Senhor…como é, meu jovem? Ah, Mito! Então, espero que ele nos deixe um país respeitável!

Tu terás sabido, meu jovem, de minha inconfundível admiração pelo nosso irmão do Norte. Contudo, um país que é gigante pela própria natureza, e que é belo, forte, impávido colosso, e onde em seu futuro espelha a grandeza, não pode de jeito algum envergar a sua alma nacional em subordinação ao estrangeiro. Ah, deixe para lá; me passe a tinta, por favor. Vamos seguindo com o discurso!

Nessa parte, meu jovem, é preciso falar do equilíbrio em nossa região. A necessidade do Brasil ser o baluarte na construção de soluções negociadas e pacíficas para os seus vizinhos na América do Sul. O nosso peso é muito desproporcional em relação aos demais. Há um tempo, eu tive dois dedos de prosa com o grande Simon Bolívar. Ah, esse você ouviu falar! Que bom! O “Libertador” – como é conhecido – está estarrecido com o que fizeram com a sua biografia e em seu nome na Venezuela. Aquilo virou uma nefanda ditadura! Que tragédia! Como é? O que temos que fazer? Guerra? Invasão? Não…não…não, meu jovem! O uso da força não vai solucionar o problema lá. Veja o caso de Cuba. Resolveu?! Sobre a Venezuela, infelizmente, fomos condescendentes no passado e estamos errando grosseiramente a mão nos dias presentes. Perdemos as estribeiras! Renunciamos à nossa capacidade de contribuir para uma solução, abrindo espaço para que outros decidam por nós!

Duas premissas são cruciais para iniciar qualquer diálogo de paz, meu jovem. Não se pode chegar à casa de alguém violando a sua autodeterminação e ameaçando a sua soberania. A confiança no diálogo fica comprometida e as feridas podem não cicatrizar. Por isso, existe a diplomacia!

Quem não é forte em sua vizinhança, meu jovem, não é forte em outros canteiros do mundo. Me disseram que o pessoal responsável pelas relações internacionais do país colocou a América Latina à deriva. Fico aqui me recordando do discurso do presidente Monroe: “América para os americanos”. É uma pena que tenham esquecido dessa parábola no episódio das Malvinas! Aliás, cabe aqui mencionar a máxima do Conselho do Império que definia a política brasileira para a sua circunvizinhança como: “uma diplomacia inteligente sem vaidade; franca sem indiscrição; e enérgica sem arrogância”. Essa tradição diplomática está sendo dilapidada, meu jovem!

Vamos agora para um ponto fundamental. A importância do meio ambiente e da Amazônia no discurso do país. Nunca e jamais podemos partir de uma posição defensiva! É preciso, meu jovem, articular uma posição propositiva, preservando a primazia sobre a narrativa. Entende? Alegar que o estrangeiro tem cobiça e que há grupos de interesses, enfim, isso é sabido desde que o mundo é mundo. Aliás, me surpreende como esse assunto é tratado. Botaram a culpa nos indígenas! Oh, céus! O Marechal Rondon me disse em confidência: “Barão, eles não entenderam o valor estratégico da Amazônia”. O Senhor da “boiada” é uma lástima para o nosso país. Ah, quanto aos investimentos? Esquece, meu jovem! As consequências serão graves!

Estamos finalizando! Não desanime! Falta pouco. Se não formos capazes de passar uma mensagem confiável e altiva para o mundo, ninguém irá nos respeitar. O Caxias está certo! Os verde-oliva não podem se deixar levar pelas tertúlias do poder. O seu papel é perene e não circunstancial.  Sei que tentaram ajudar dentro das possibilidades para atenuar sandices no discurso deste ano. A autonomia e a lucidez são variáveis inalienáveis para a boa formulação da política externa, meu jovem! Espero que levem essas linhas em consideração. Ah, você não crê?! Tampouco creio eu! Contudo, não posso perder a esperança!

HUSSEIN KALOUT é cientista político, professor de Relações Internacionais e pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018). (Coluna publicada originalmente no site da Revista Época em 27.09.2020)