Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (19/05/2020)

MANCHETES

O Globo

Teste de vacina em seres humanos avança nos EUA
Brasil já é o 3º país com maior número de casos
Até 5 mil empresas devem pedir recuperação judicial
França e Alemanha propõem fundo de 500 bilhões de euros
Witzel deu aval a empresa reprovada por atuação nas UPAs
No Rio, 7 hospitais de campanha estão atrasados, e doença avança
FNDE, com verba de R$ 54 bi, vai para o centrão
Celso de Mello decide até sexta se retira sigilo de vídeo
Vaticano reabre a Basílica de São Pedro

O Estado de S. Paulo

Socorro bilionário a elétricas adia reajuste médio de 12% na luz
Centrão entra na Educação e enfraquece Weintraub
Vacina em teste inicial com humanos nos EUA
Revisão de gastos sociais
Sem pressa na Saúde
Perto do pico
Collor se desculpa por confisco da poupança
Capital terá feriadão a partir de amanhã
Trump diz que toma hidroxicloroquina

Folha de S. Paulo

Sem ‘lockdown’, Covas e Doria tentam feriado contra o vírus
Investigações põem em xeque versão de Flávio
Janaina pede que presidente saia e critica burrice
Walter Scheidel – Mundo deve ficar mais desigual com a atual pandemia
Mercados têm dia positovo; dólar cai 2% e Bolsa sobe
Empresa fala em resultados positivos de nova vacina
Estudo mostra que calor e umidade não freiam doença
Médicos sofrem pressão por cloroquina na rede pública
Collor se desculpa pelo confisco de poupança de 1990
Bandeirada em repórter durante ato foi acidente, afirma servidora
Isolamento derruba consumo das famílias
Einstein e Sírio-Libanês fazem cortes de salários
Ministro interino omite gravidade da crise à OMS
Para não voltarem à Esplanada, servidores entram na Justiça
Bolsonaro nomeia indicado do PL para fundação de Educação
Ex-governador de São Paulo, Laudo Natel morre aos 99 anos
Trump diz tomar hidroxicloroquina como prevenção
Francisco reabre Basílica de São Pedro com missa para João Paulo 2º

Valor Econômico

Mercados reagem a sinais positivos em meio à crise
Vacina faz ação da Moderna ter alta de 241%
Protocolar, Pazuello fala em cooperação
Pandemia chega ao calendário
País tem 17 milhões de lares com moradores sem renda
Crise acirra as discussões sobre pensão alimentícia
A globalização pós-covid

EDITORIAIS

O Globo

Novas evidências do interesse de Bolsonaro na PF

Fica mais inverossímil a versão de que o presidente se preocupava com sua segurança pessoal

A reunião ministerial de 22 de abril, uma quarta-feira, em que Bolsonaro ameaçou demissões em série caso não conseguisse trocar a “segurança” no Rio seria o início de uma sucessão de dissabores para o presidente. Para provar que não havia dúvidas sobre a quem ele se referia, saiu no Diário Oficial, a altas horas, a destituição do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, e, no dia seguinte, o superior hierárquico de Valeixo, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, leu um pronunciamento para explicar sua saída do governo, acusando Bolsonaro de tentar interferir na PF por interesses pessoais. Um atentado à necessária separação republicana entre governo e Estado.

Aberto um inquérito pelo ministro do Supremo Celso de Mello, a pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, passaram a surgir evidências que confirmam a intenção de Bolsonaro de intervir na PF, para a defesa “da família e amigos”. Enquanto se espera a decisão do ministro sobre se divulgará a íntegra do vídeo da reunião ou apenas partes dele, constatações tornaram mais insustentáveis a versão construída de que o presidente se referia à sua segurança pessoal e da família.

O relato já nascera fragilizado porque para ele ser veraz o ministro a ser defenestrado seria Augusto Heleno, do GSI, responsável pela segurança presidencial, mas o demitido foi Moro, sob quem estava a PF. Qualquer dúvida seria eliminada pela reportagem do “Jornal Nacional”, da TV Globo, revelando que o presidente tanto não estava desgostoso de sua segurança que, em 26 de março, promoveu o diretor deste serviço no GSI, André Laranja de Sá Corrêa, a general de brigada, transferindo-o para o comando da 8ª Brigada de Infantaria Motorizada do Exército, em Pelotas (RS). Outro ângulo de abordagem dos interesses de Bolsanaro na Polícia Federal leva a inquéritos instaurados também no STF, conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes, sobre a usina de produção de fake news contra o Supremo e magistrados da Corte, e acerca da organização e financiamento de manifestações antidemocráticas. Essas investigações teriam encontrado digitais de filhos do presidente e de pessoas do chamado “gabinete do ódio”, que operaria no próprio Planalto na produção de ações no mundo digital. É a PF que trabalha nos casos.

Mais um provável motivo de cuidados do presidente com a PF foi revelado pelo empresário Paulo Marinho, em entrevista à “Folha de S.Paulo”. Marinho atuou na linha de frente da campanha. Disse que ouviu do senador Flávio Bolsonaro que, logo depois do primeiro turno, um delegado da PF revelou a um assessor dele que a Operação Furna da Onça iria às ruas, para investigar esquemas de “rachadinha” na Alerj (subtração de parte do salário de assessores dos deputados).

Por ordem de Jair Bolsonaro, foram logo demitidos Fabrício Queiroz do gabinete do deputado estadual Flávio, e Nathalia Melo de Queiroz, filha de Fabrício, da assessoria do futuro presidente na Câmara dos Deputados. Pode ser que isso tenha reforçado o interesse do presidente em controlar a PF.

O Estado de S. Paulo

O risco Bolsonaro e o mercado

Atuação do presidente tem provocado péssimo efeito na economia, assustando investidores e convertendo o Brasil em zona de perigo

O maior risco para o País é a saída do governo do ministro da Economia, Paulo Guedes, segundo gestores do mercado financeiro ouvidos em recente pesquisa do Bradesco BBI. O perigo de uma segunda onda do novo coronavírus aparece em seguida na escala das preocupações. Mas por que o ministro deixaria o posto? A resposta a essa pergunta remete ao principal fator de insegurança, o presidente Jair Bolsonaro. Além de prejudicar o combate à pandemia, sua atuação tem provocado péssimos efeitos na economia, elevando a incerteza, assustando investidores e convertendo o Brasil em zona de perigo. Pressionado com frequência pelo presidente, por seus aliados e também por outras figuras do Executivo, o chefe da equipe econômica foi visto no mercado, durante semanas, como a bola da vez no jogo das demissões. Ele sobrevive, mas o temor permanece.

O próximo ministro da Saúde, é difícil duvidar, será submisso aos interesses do presidente da República e a seus pontos de vista contrários à ciência e à prática médica. O desastre será mais amplo se também o Ministério da Economia ficar subordinado, integralmente, às conveniências pessoais e familiares do chefe do Executivo. Basta pensar nas negociações com o Centrão para entender os temores de muitos agentes do mercado.

Além da esperada negociação, já iniciada, de postos no governo e nas empresas federais, os objetivos eleitorais poderão afetar os fundamentos da economia. Isso ocorrerá se for afrouxado o programa de ajustes fiscais e de reformas. Esse programa, segundo os compromissos conhecidos até hoje, deverá ser integralmente retomado no próximo ano, depois de esgotada a fase de calamidade fixada em lei. A partir daí, e com as contas públicas já severamente afetadas pelas medidas emergenciais, será preciso iniciar um duro e indispensável trabalho de arrumação.

A confiança na execução desse trabalho é fundamental para a avaliação de risco do Brasil. As expectativas, no entanto, são inevitavelmente afetadas quando o presidente mantém a política em estado de crise, latente ou explícita, com pressões contra seus ministros e agressões a representantes do Judiciário e do Legislativo ou diretamente a esses Poderes.

Efeitos dessa crise permanente são facilmente visíveis na fuga de capitais e na depreciação do real. A valorização do dólar, de cerca de 45% neste ano, até a metade de maio, acrescentou mais de R$ 900 bilhões à dívida externa de empresas e instituições bancárias brasileiras. Com isso, o endividamento, medido em moeda nacional, saltou de R$ 1,939 trilhão em janeiro para R$ 2,846 trilhões neste mês, segundo dados do Banco Central (BC). A variação decorreu quase exclusivamente do câmbio, porque poucos empréstimos foram tomados nesse período. A situação, também de acordo com o BC, é particularmente complicada para as empresas – cerca de 20% – desprovidas de mecanismos de defesa contra a variação cambial.

Esse é um bom exemplo dos danos causados ao setor empresarial pelas ações do presidente, orientadas por seus objetivos eleitorais e por suas preocupações com familiares e companheiros.

Em menos de um ano e meio nove ministros foram demitidos ou se demitiram. Em menos de um mês saíram dois ministros da Saúde, por discordarem das orientações anticientíficas e perigosas do presidente, e um ministro da Justiça, por discordar de interferência política na Polícia Federal, órgão de Estado em princípio imune a interesses de governantes.

Afastado o ministro da Justiça, o ministro Paulo Guedes foi apontado no setor financeiro como o próximo alvo de seu chefe. O ministro sobrevive e tem sido ocasionalmente prestigiado em momentos mais críticos para o presidente. Mas a insegurança no mercado permanece. Não está em jogo apenas a manutenção da responsabilidade fiscal. Se a economia for reaberta de forma precipitada e atabalhoada, sem atenção ao risco sanitário, o episódio seguinte, como se viu em outros países, poderá ser um novo tombo. Haverá mais atraso na recuperação, como sabe o mercado. Também isso o presidente ignora.

Folha de S. Paulo

Novas pistas

Depoimento de ex-aliado aumenta suspeitas sobre Bolsonaro e impõe investigação

As afirmações feitas pelo empresário Paulo Marinho no fim de semana representam uma contribuição essencial para o aprofundamento das investigações sobre as tentativas de interferência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

Em entrevista à Folha, o empresário relatou episódio que diz ter ocorrido na campanha eleitoral de 2018 —e que pode ajudar a entender por que o presidente buscou com tanta insistência substituir o superintendente da PF no Rio após chegar ao poder.

Segundo Marinho, o hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) lhe contou que, a poucos dias do segundo turno da eleição, foi avisado por um delegado de que seu assessor Fabrício Queiroz seria atingido por uma operação policial prestes a ser deflagrada.

A ação tinha como objetivo investigar movimentações financeiras extravagantes encontradas nas contas de Queiroz e outros funcionários da Assembleia Legislativa do Rio, onde o filho mais velho de Bolsonaro exercia mandato.

Conforme a narrativa de Marinho, o delegado informou também que a operação só seria deflagrada após o fechamento das urnas, evitando-se assim o desgaste que poderia criar para Flávio e seu pai na reta final da campanha.

Aliado de primeira hora que fez parte do círculo íntimo dos Bolsonaros e depois rompeu com a família, Marinho será chamado a depor e promete apresentar provas do que diz às autoridades.

O adiamento da operação foi decidido em acordo com o Ministério Público Federal em 2018, e é certo que beneficiou outros políticos, como observou o juiz responsável pelo caso, Abel Gomes.

Mas nada pode justificar o suposto vazamento de informações sigilosas da investigação para a família Bolsonaro, que parece ter ganho assim tempo precioso para mobilizar advogados, discutir estratégias e avisar Queiroz antes que a polícia batesse à sua porta.

Se o presidente nunca escondeu o desejo de fazer mudanças na estrutura da PF no Rio, seus motivos permanecem obscuros, e esclarecê-los é tarefa do inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal para escrutinar as acusações do ex-ministro Sergio Moro.

Desde o estrepitoso rompimento do ex-juiz da Operação Lava Jato com o governo, tudo que Bolsonaro tem feito é buscar subterfúgios para contornar perguntas incômodas como as suscitadas pelo vídeo que registra sua reunião com o ministério em 22 de abril.

Ao dizer que nunca se importou com as investigações em curso na PF, o presidente soa pouco convincente. O substancioso relato de Marinho aumenta a desconfiança, e caberá aos investigadores examinar com rigor as novas pistas.

Valor Econômico

Indicadores de bem-estar já eram ruins e vão piorar

A covid-19 lega aos sobreviventes problemas que se arrastam por anos e vão seguir pressionando os serviços de saúde

Desde que o novo coronavírus aterrissou no país, mostrou que deixará muito piores os já precários indicadores de bem-estar da população. Seus efeitos devastadores na economia e no mercado de trabalho não deixam muitas dúvidas sobre isso.

Um exemplo significativo é o do acesso à internet. Em tempos de isolamento social, a disponibilidade de conexão rápida e de equipamentos adequados acaba determinando se a pessoa conseguirá trabalhar à distância, descobrir oportunidades de trabalho remoto ou conseguir utilizar canais de venda on-line para oferecer seus produtos, se for um autônomo.

O mesmo fator viabiliza ou não o ensino à distância. Desde que as escolas, inclusive as públicas, aderiram às aulas à distância, não cessam as reclamações dos estudantes a respeito da dificuldade ou até mesmo impossibilidade de obter o conteúdo das aulas, de baixar apostilas, enfim, de prosseguir com os estudos. O problema é muito mais severo entre os mais pobres.

O mais recente suplemento de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), da Pnad Contínua confirma que a renda influencia o acesso à internet. O levantamento mostrou que 20,9% dos domicílios brasileiros não tinham ligação com ela em 2018, o que significava quase 15 milhões de lares, ou 60 milhões de pessoas, pelo menos metade crianças em idade escolar. A grande maioria (99,2%) só dispunha do celular para acessar a rede. Microcomputador só era usado em 48,1% dos domicílios. Esses problemas não comoveram o ministro da Educação, Abraham Weintraub que, pelo menos até agora, manteve o calendário de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Falta de interesse (34,7%), custo elevado (30,1%) e desconhecimento foram os principais motivos informados para a ausência de ligação com a internet, além da não disponibilidade do serviço (7,5%). O rendimento real médio per capita dos domicílios com utilização da internet (R$ 1.769) foi quase o dobro do dos que não a utilizavam (R$ 940).

A limitação de acesso à internet, ao lado da inexistência de relações com os bancos, é também um dos motivos das longas filas na Caixa Econômica Federal de trabalhadores em busca do auxílio emergencial de R$ 600. Sem condições de realizar a inscrição por meio do aplicativo, muitos tiveram que se deslocar até um ponto de atendimento pessoal.

Lavar as mãos com frequência, uma das recomendações básicas da Organização Mundial da Saúde (OMS) para prevenir o contágio pelo novo coronavírus, é uma dificuldade para pelo menos 24 milhões de pessoas, que moram nos 6 milhões de domicílios ligados à rede geral de distribuição que não recebem água todos os dias – 11,5% do total de habitações com acesso à rede. Em pior situação podem estar os 20,2 milhões de domicílios que nem água ligada possuem. No caso do esgoto, igualmente importante para o saneamento básico, nada menos do que 31,7% dos domicílios não dispunham de acesso à rede geral, de acordo com o IBGE.

Em relação à desigualdade social propriamente dita, a previsão é que a pandemia vai abortar a expectativa de melhora sinalizada no ano passado. Em 2019, o IBGE calculou que o índice de Gini da renda domiciliar per capita ficou em 0,543, abaixo dos 0,545 em 2018 – o indicador vai de zero a um, sendo zero a igualdade perfeita. Mesmo que pequena, a redução do índice de Gini fora a primeira desde 2015, quando estava em 0,524, o menor da história recente.

Outro dado que explicita a desigualdade no país é a concentração da massa do rendimento médio mensal real domiciliar per capita. Em 2019, ela cresceu para R$ 294,4 bilhões, sendo que a fatia dos 10% mais pobre possuía 0,8% do total, enquanto os 10% com os maiores rendimentos concentravam 42,9%. Os rendimentos médios mensais dessa faixa de 10% mais ricos superou a proporção detida por 80% da população (41,5%).

Como se tudo isso não bastasse, os indicadores de saúde devem certamente ser afetados pela pandemia, apesar dos investimentos que estão sendo feitos a toque de caixa. O coronavírus se aproveita de sequelas já existentes, as “comorbidades”, como obesidade, também um efeito da pobreza (não só dela), que colocam as vitimas nos grupos de risco, como deverá deixar uma série de outras em seu rastro. A covid-19 lega aos sobreviventes problemas que se arrastam por anos e vão seguir pressionando os serviços de saúde.