Fabrício Marinho: Reflexos da Pandemia na Sustentabilidade frente à Desaceleração da Produção Mundial

Desde o início da pandemia, a produção industrial mostrava sinais de queda, conforme consta do Informe Especial COVID-19 nº 2 da CEPAL/ONU. O modelo de globalização, baseado nas redes internacionais de produção com grandes distanciamentos geográficos, vinha apontando exaustão do sistema e fragilidade frente a crises econômicas mundiais.

O impacto econômico da pandemia foi sobremaneira sentido na China, de onde se iniciou e alastrou, afetando drasticamente a produção industrial e, justamente, na região onde centenas das maiores empresas do mundo estão instaladas, que é na província de Wuhan. Por conta desse impacto, estima-se que a queda dos índices de crescimento PIB será na ordem de 1 a 2 pontos percentuais naquele país e isso reflete também no mercado de ações.

O abalo econômico chinês, assim como o vírus, alastrou-se rapidamente pelo mundo, produzindo um efeito negativo global, ainda sem certeza de números concretos, apenas estimativas, assim como, sem prazo certo de duração e recuperação, apenas expectativas.

A necessária medida de isolamento reduziu drasticamente o consumo e a produção industrial, impactando de forma maior ou menor, dependendo do setor econômico, mas todos, sem exceção, estão sob o efeito da recessão econômica e do desemprego, algumas das várias consequências negativas da crise sanitária e que levarão, segundo estimativa do Fundo Monetário Internacional (FMI), à maior recessão global, pós-Grande Depressão de 1929. Para o Brasil, o FMI estima uma retração do PIB de 5,3% no ano.

Segundo estudos da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), que é uma das comissões regionais das Organizações das Nações Unidas (ONU), a retração econômica média será de 5,3%, o que representa a pior crise de toda a história regional.

Nesse cenário de diminuição da produção e aumento do desemprego, é inevitável que se tenha o aumento regional da pobreza e da extrema pobreza, crescimento que está estimado em aproximadamente 45 milhões de pessoas.

“Para influenciar a nova economia mundial, a região deve avançar rumo a uma maior integração regional nos aspectos produtivo, comercial e tecnológico. A coordenação de nossos países em questões macroeconômicas e produtivas é crucial para negociar as condições da nova normalidade, particularmente em uma dimensão urgente na crise atual e no médio prazo: a do financiamento para um novo estilo de desenvolvimento com igualdade e sustentabilidade ambiental”, enfatizou a secretária-executiva da CEPAL, Alícia Bárcena.

Em razão da pandemia, as projeções de crescimento do PIB 2020 dos países da América Latina e Caribe, segundo relatório da CEPAL, é de -5,3%. Apresentando os números de alguns países da região, fica demonstrado o aparente tamanho do problema a se enfrentar: Argentina -6,5%, Bolívia -3%, Brasil -5,2%, Chile -4%, Colômbia -2,6%, Paraguai -1,5%, Uruguai -4%, México -6,5%, Panamá -2%, por meio de dados levantados em abril de 2020.

Segundo os Nobels Samuelson e Nordhaus, a economia é o estudo de como a sociedade administra seus escassos recursos. Talvez não haja, para o momento, definição mais adequada para a crise global.

Os governos têm procurado de todas as maneiras, economicamente falando, diminuir os impactos por meio de medidas fiscais e financeiras. O próprio Banco Mundial está implementando uma centena de programas de apoio emergencial aos países em desenvolvimento diante da pandemia de corona vírus e liberará cerca de 160 bilhões de dólares nos próximos 15 meses.

Se, por um lado, muitas consequências negativas advieram da crise sanitária, por outro, nosso combalido planeta pode respirar um pouco. Ainda que, apenas temporariamente, uma diminuição na emissão de gases poluentes já pode ser sentida. Calcula-se algo em torno de menos 25% apenas na China.

Uma possível mudança de comportamento dos consumidores, na China e no mundo, como resultado do impacto econômico da crise (diminuição de renda e poder de compra) ou do aumento da conscientização pelos danos das emissões, podem estender os efeitos benéficos ao meio ambiente.

Para o secretário-executivo da Organização Meteorológica Mundial (OMM), professor Petteri Taalas, a realidade é outra e essa diminuição dos gases é apenas uma “boa notícia a curto prazo”, pois, tão logo a produção industrial for retomada, os níveis de poluição aumentarão na mesma proporção.

Apesar de destacar a melhoria da qualidade do ar em várias cidades no mundo em razão da queda de emissão de gases poluentes, o professor Taalas sentenciou: “Mas essas mudanças nas emissões de carbono não tiveram nenhum impacto no clima até agora”. Portanto, a pandemia não irá interromper o ciclo das mudanças climáticas que se se tem experimentado de forma cada vez mais acelerada.

A crise econômica mundial pode afetar ainda os investimentos em novas tecnologias e infraestrutura sustentáveis, já que ela escancara como o mundo ainda depende de combustíveis fósseis para movimentar a economia e a produção, seja através do petróleo ou das usinas termoelétricas, por exemplo.

Para recuperar o período de baixa produtividade, espera-se que os países retomem as atividades industriais com força total, produzindo, naturalmente, com as tecnologias já existentes e conhecidas.

Muito embora os efeitos de curta duração sentidos na melhora da qualidade de vida ambiental, há um entendimento de que seria necessário um esforço e uma conscientização para um acordo global sem precedentes, a fim de tornar um mundo mais seguro e mais respeitoso com relação ao meio ambiente, e não ser fruto de uma crise sanitária, recessão econômica ou outro tipo de desastre. É preciso entender os benefícios de viver em um planeta saudável e trabalhar políticas públicas para isso.

Em meio a tantas opiniões, informações, certezas e incertezas, as Nações Unidas vislumbram que o mundo está precisando de uma transformação econômica sustentável que promova tanto o bem-estar dos indivíduos quanto do meio ambiente. E esse é o momento decisivo para todos. Mesmo diante das adversidades atuais e do prejuízo na economia global, existe a possibilidade de construção de um futuro melhor e mais verde, mas que dependerá das decisões dos governantes, das empresas e dos indivíduos.

O mundo é interligado, conectado, o que faz com que situações desse tipo (pandemia) provoquem uma crise mundial e que precisa também ter solução, ou mesmo alternativas globais, ainda que adaptadas a cada particularidade regional, e é nessa situação que se desnuda a importância da atuação do Estado, seja no controle da situação (ou tentativa), seja na retomada do rumo em todos os aspectos e setores.

A ciência tem alertado que as pandemias estão ligadas à degradação ambiental e à redução da biodiversidade. Se o coronavírus surgiu desse motivo ou de laboratório, é provável que jamais se saiba, mas como enfrentar o problema e, principalmente, buscar as saídas para o enfrentamento é o que precisa ser discutido.

Como equilibrar a queda de arrecadação, em razão da menor produção, com as necessárias retomadas econômicas das pessoas jurídicas e, por que não dizer, físicas? É necessário um reequilíbrio fiscal do Estado com enxugamento da máquina e redução de gastos, a fim de prover os incentivos fiscais sem o descumprimento das obrigações. Retomada de obras públicas, redução de tributos e postergação de seus pagamentos, abertura de microcréditos às MPE’s, aumento dos programas de distribuição de renda, entre outras medidas e por determinado período são alternativas que minimizam os impactos e podem impulsionar a economia, especialmente nos setores mais afetados.

A pandemia provavelmente será um catalizador das mudanças que já se observavam nas configurações da produção e do comércio. “Home Office”, “delivery”, “take away” são serviços que apresentaram uma crescente, movimentaram a economia nesse período e, talvez, minimizaram a crise que poderia ser ainda mais profunda.

A crise sanitária obrigou as empresas a se adaptarem ao funcionamento interno por conta das medidas de isolamento e distanciamento social, remetendo em definitivo todos a um mundo conectado pelas redes, um mundo definitivamente automatizado, da nuvem, onde o aprimoramento passa a ser das relações de trabalho ou teletrabalho (home office), plataformas sociais, reuniões remotas, relações mais distantes, mas não menos eficientes, de menor custo. Um mundo tecnológico, não tão aterrorizante, foi preciso ser encarado e que irá impactar definitivamente nas relações de trabalho e emprego.

Resumidamente, essa crise expôs as vulnerabilidades do mundo globalizado, frente à dependência dos países e empresas e as suas parcerias econômicas, e um novo contexto dessa relação precisa mudar na organização da produção a nível mundial.

Um artigo da Red Española Pacto Mundial aponta que:

“El contexto internacional posterior al COVID-19 que es posible ir perfilando apunta a una creciente importancia de los procesos de regionalización de la producción. En ese contexto, la integración regional está llamada a desempeñar un papel clave en las estrategias de desarrollo de los países de América Latina y el Caribe”, ou seja, um mundo internacionalizado, mas não tão globalizado.

Conclui também que, ainda que a Agenda 2030 sofra prejuízo por conta da pandemia, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são o caminho, o norte para a retomada do planeta.

Ainda é cedo para predizer a intensidade e a duração desses impactos, mas uma coisa é certa: a pandemia do COVID-19 tem potencial de alterar estruturalmente as relações pessoais e profissionais e sua interrelação com o meio ambiente e a sustentabilidade.

Fabrício Marinho é advogado, vereador no município de Itajaí (SC) pelo Cidadania e mestrando em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade do Vale do Itajaí.

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