Luiz Carlos Azedo: Romantismo, ciência e fé

Nas entrelinhas

“Diante da revolução tecnológica global, a subordinação da ciência à religião e da razão à fé não tem a menor chance de dar certo”

O romantismo não foi apenas um movimento artístico e cultural, cujos grandes expoentes foram o espanhol Francisco Goya e o francês Eugène Delacroix, na pintura, o inglês Lord Byron e o alemão Johann Wolfgang von Goethe, na literatura. Foi também um movimento político e filosófico, que surgiu na Europa em meados do século 18 e durou quase todo o século 19. Caracterizou-se como uma visão de mundo contrária ao racionalismo e ao Iluminismo, marcadamente nacionalista, que viria a ter um papel importante na consolidação dos estados nacionais, inclusive no Brasil. O romantismo valoriza o individualismo, a criatividade e a imaginação popular, a inspiração fugaz e a fé para remover os obstáculos da vida.

O teólogo alemão Friedrich Schleiermacher, professor da Universidade de Berlim, bebeu das águas do romantismo na virada do século 18 para 19. Ao morrer, em 1934, deixou duas obras radicais sobre teologia — Sobre a religião e A fé cristã – e uma nova doutrina, o liberalismo teológico, que teve grande influência na Europa e nos Estados Unidos. Seu esforço intelectual foi voltado para dar uma resposta à Teoria da Evolução de Charles Darwin, que, ao publicar sua obra-prima, A origem das espécies, gerou a grande tensão entre a visão conservadora da Bíblia e a ciência que permanece até hoje. Essa tensão era preexistente, remonta à teoria do astrônomo polonês Copérnico, publicada em 1543, na qual já afirmava que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário, embora haja quem ainda acredite que a Terra é plana.

Durante certo período da Idade Média, a convivência pacífica entre a ciência e a religião foi estimulada pela Igreja Católica, sob inspiração de Tomás de Aquino, para quem uma compreensão maior da Criação levaria ao entendimento melhor do Criador. Entretanto, quando cientistas e teólogos começaram a chegar a conclusões diferentes, o confronto se instalou, como aconteceu, por exemplo, em relação ao cálculo infinitesimal estudado pelos monges católicos, que abalava os fundamentos da geometria aristotélica. No fim do século 18, com o avanço da ciência e do Iluminismo, os teólogos foram em busca de novas explicações para os fenômenos que preservassem a coexistência entre a religião e a ciência, a razão e a fé, para evitar que o cristianismo fosse ultrapassado pelo materialismo.

O pulo do gato de Schleiermacher foi equiparar a crença aos sentimentos, seguindo a trilha do romantismo, que colocava a emoção acima da razão, em vez de utilizar os mesmos critérios do conhecimento científico, equiparando experimentação e “revelação”, para provar a verdade do cristianismo. A ciência usa a razão humana para descobrir as coisas do mundo e explicar como ele existe; a Bíblia registra a experiência religiosa de seus autores, explica por que o mundo existe como ele é. Como e porque são perguntas complementares, logo, na visão do teólogo alemão, o avanço da ciência não invalidava a Bíblia.

Reino de Deus

Schleiermacher redefiniu a natureza da religião, estabelecendo três níveis para a vida humana: o conhecimento, a ação e o sentimento. Dessa forma, a ciência pertence ao conhecimento, a ação à ética e o sentimento, à religião. “Deus existe” é um sentimento que depende de algo maior do que nós mesmos, não precisa de comprovação. Essa visão foi batizada como “liberalismo protestante”, mas acabou sendo muito contestada por teólogos neo-ortodoxos, porque afastava a autoridade religiosa do âmbito público, já que sentimentos são atributos pessoais. Qual seria o lugar do Reino de Deus?

Por essa razão, o teólogo suíço Karl Barth, na sua Carta aos Romanos, no começo do século 20, criticou duramente Schleiermacher por sua indiferença às necessidades do mundo externo. Os fatos corroboraram os riscos desse alheamento: o liberalismo protestante foi acusado de omissão diante do nazismo, do genocídio, da corrida nuclear e do armamentismo. Na sequência do debate, a polêmica avançou para discussão se Deus existe fora dos limites do tempo, ou seja, se é capaz de prever o futuro. A teologia tradicional lhe atribui onisciência (ou seja, total conhecimento do passado, do presente e do futuro), mas teólogos modernos questionam esse entendimento de que o futuro a Deus pertence. Nesse caso, a presciência comprometeria a bondade divina, pois Deus nada faz para evitar o mal. Se assim fosse, argumentam, de nada adiantaria rezar. Quando o futuro é aberto, a reza funciona como ferramenta da mudança, uma construção humana.

Esse debate parece apartado da nossa política, mas não é, quando nada porque o governo Bolsonaro é “terrivelmente evangélico”. Não apenas no bordão “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, que adota desde a campanha eleitoral. Em suas decisões, predominam a emoção, a intuição, as ideias preconcebidas, os preconceitos e a fé, em detrimento da razão, da experiência vivida, dos indicadores estatísticos e das pesquisas científicas que, na gestão democrática e moderna, fundamentam as políticas públicas. Diante da revolução tecnológica global, a subordinação da ciência à religião e da razão à fé não tem a menor chance de dar certo.“Eppur si mueve!”, esse é o dilema teológico desde o julgamento de Galileu Galilei pela Inquisição Católica. (Correio Braziliense – 04/08/19)